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Estamos sozinhos, afinal?

A diferença entre a solidão que nos devora, o isolamento que nos entorpece e a solitude que nos refaz

Marlon Bruno · 2026-05-25 02:48 · 3 claps · 4.4 min read
#filosofia #cristianismo #solidão #comunidade #vida-interior
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Estamos sozinhos, afinal?

A diferença entre a solidão que nos devora, o isolamento que nos entorpece e a solitude que nos refaz

Você, assim como eu, já deve ter passado pela experiência canônica, como dizem os hipermodernos, de estar em um ambiente com outras pessoas e, mesmo assim, carregar a persistente, muitas vezes triste, percepção de que, apesar de estar vestido de grupo, está completamente só. Cercado de gente, mas sufocado por uma insólita sensação de ausência de uma presença que importe de verdade, às vezes até da sua própria.

De algum modo, você sorri, mas se sente vazio. Responde, mas parece oco. Carrega aquela coisa, aquele incômodo barulhento no silêncio do coração, e simplesmente não sabe em qual prateleira de suas emoções colocá-lo.

Essa sensação não é nova, mas ganhou densidade nos últimos anos, numa época em que as pessoas podem se conectar com tanta facilidade e, ainda assim, a experiência de ser verdadeiramente visto nunca pareceu tão rara. Estamos conectados até os ossos, porém genuinamente órfãos de comunhão.

Finalmente, estamos sozinhos?

Antes de responder a essa pergunta, é preciso dar um panorama do que realmente significa estar só. Minha mente funciona colocando fundamentos, tijolo a tijolo, para só então argumentar com uma humilde certeza.

Em primeiro lugar, há três experiências relacionadas ao estar sozinho: a solidão, o isolamento e a solitude.

A solidão é a dor de não ser visto. É sentir uma espécie de ferida no eu lírico ao notar que sua experiência de viver não tem testemunha. Isso é muito mais insuportável do que a solidão social, isto é, a ausência de pessoas ao redor. É a dolorosa percepção da possibilidade de ser substituído sem que ninguém note.

O isolamento é quando a dor da solidão se torna estilo de vida. É uma forma de sobrevivência que, no fundo, revela uma desistência lenta. São muros emocionais e psicológicos que parecem proteção, mas que, aos poucos, definham o olhar sobre a vida.

A solitude é uma espécie de silêncio preenchedor. É diferente de um afastamento proposital e não se confunde com fuga das pessoas. É inteiramente distinta das demais experiências.

Não se trata de mera semântica.

Há uma expressão que me inquieta. Sabe quando alguém é capaz de dizer, em termos filosóficos, algo que você percebe, mas ainda não consegue conceituar? Pois é. Isso acontece comigo quando leio a expressão “excesso de positividade”, de Byung-Chul Han.

Esse filósofo sul-coreano, que passou anos tentando compreender nossa época, me deu um soco no estômago com o pequeno, contudo poderoso livro Sociedade do Cansaço. Ali ele explora, curioso usar esse termo quando, no próprio livro, ele aborda algo semelhante, entre outros conceitos, a ideia de que a hipermodernidade anulou o atrito, o silêncio e o ócio. Por mais contraproducente que pareça, esse excesso de estímulos não nos liberta, mas nos esvazia. Estamos hiperestimulados e subnutridos. Apesar de a atenção ser a moeda mais cara da atualidade, talvez seja também aquela com menos liquidez nas relações.

Han denuncia, se é que posso falar assim, ou melhor, constata, acredito que esse termo se encaixe melhor. Bom… ele constata que a performance da intimidade suplantou a própria intimidade. A transparência, como o filósofo nomeia, trata de uma realidade em que tudo está exposto, compartilhado e, paradoxalmente, cada vez menos conhecido, pois o que se tem, na verdade, é a encenação no lugar do tecido áspero da vida real.

O que temos, no fim, é uma sociedade ruidosa e solitária ao mesmo tempo.

A solidão é antiga e remonta aos textos míticos mais antigos: “não é bom que o homem esteja só”. A estrutura humana é baseada na ideia de que fomos feitos para a presença. É uma questão ontológica: somos seres faltantes e desejantes sem a comunhão real.

“Nos fizeste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti” — Santo Agostinho.

Agostinho de Hipona, ou simplesmente Santo Agostinho, que é como eu gosto particularmente de chamá-lo, com uma sinceridade constrangedora, escrevendo no século IV, expôs uma experiência que qualquer pessoa reconhece: aquela sensação de que algo está fora do lugar. De que a presença que mais falta não é apenas humana, embora também não a exclua.

Talvez soe meio cafona, mas sinto uma estranha satisfação ao parafrasear Pascal: essa ausência tem um tamanho definido. Essa impressão de que algo está faltando, uma espécie de nostalgia daquilo que não se viveu, ou ainda saudade de um lar do qual não se lembra, é experimentada na dimensão individual e prática, mas também é compartilhada quase espiritualmente, talvez porque de fato o seja.

Desse modo, notar que a vida que se tem deveria bastar, mas não basta, nos leva a uma pista: talvez esteja faltando mesmo. Alguém como Agostinho, que havia gastado parte de sua vida tentando preenchê-la, concluiu ao fim que, na verdade, estava como um cego tateando a existência em busca da única presença que importa, aquela que dá sentido último à vida.

Afinal de contas, estamos sozinhos ou não?

Sim e não. Explico.

Sim, porque há uma dimensão da existência que ninguém atravessa por nós. Cada um costura suas próprias memórias no tecido íntimo da vida e, no fim, cada um dará conta de si. Há dores que podem ser acompanhadas, mas não transferidas. Há decisões que podem ser aconselhadas, mas não terceirizadas. E há uma solidão última, talvez a mais séria de todas, que aparece quando percebemos que ninguém pode viver em nosso lugar.

Nesse sentido, estamos sozinhos. O que não quer dizer que estejamos abandonados.

A solidão, quando não encontra sentido, pode virar isolamento, e assim e endurecer o olhar, enfraquecer os afetos, convencer a alma de se permanecer assim. Pode-se parecer maduro muitas vezes esse afastamento hipster na busca de evitar a fadiga (como diria Jalminho na vila do chaves) mas, muitas vezes é apenas cansaço disfarçado de maturidade.

A solitude, por outro lado, não nos afasta da vida, porém nos devolve a ela de maneira mais inteira. É o lugar, se é que possamos chamar assim, onde deixamos de usar os outros como anestesia.

É um espaço onde alguém pode ser visto sem precisar performar o tempo inteiro. Onde a presença não é espetáculo performático, é também onde o outro não é como plateia da nossa vida, mas como testemunha, companhia e, às vezes, chamado de volta.

Talvez estejamos sozinhos, afinal, em algumas travessias, mas nossa estrutura humana não consegue se adequar à solidão e transformá-la em morada. Não fomos feitos para isso.

Fomos feitos para a presença.

E, possivelmente, a solitude seja justamente isso: a solidão curada pela presença de Deus, amadurecida no silêncio e devolvida, enfim, à comunhão.


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