Hora do chá!
As reuniões aconteciam às seis e quinze da tarde. Não despropositadamente. As ruas se enchiam de vida ao fim do expediente. Encontros em…
Hora do chá!

Imagem Cine Couple
As reuniões aconteciam às seis e quinze da tarde. Não despropositadamente. As ruas se enchiam de vida ao fim do expediente. Encontros em botecos, restaurantes. Casas de chá. O sol já havia descido, fazendo do ocaso mais uma proteção. O rumo do país andava sombrio. Impostos surreais eram cobrados pelo governo, enquanto a população discutia se a terra era plana.
A pretexto de ser um estabelecimento humilde, não compensaria abrir sem que fosse procurado por algum cliente. Como não havia dia certo para funcionar, inusitadamente, a campainha tocava. A resposta era sempre desanimadora: Hoje estamos fechados! A verdade era que nenhum transeunte poderia se habituar a uma rotina da qual jamais faria parte.
Sete mulheres e quatro homens, previamente avisados sobre a data do compromisso, formavam o seleto grupo que detinha a senha: Hora do chá! A pesada porta, então, se abria.
No interior, um cenário meticulosamente preparado. Um fogão de quatro bocas, panelas de alumínio batido penduradas, uma bandeja organizada com a chaleira, dois pires, uma xícara. Mais uma em cima da bancada — essa jamais seria reutilizada. Dois terços de um maracujá cênico aberto. Cada detalhe da pequena cozinha deveria expressar veracidade. Era o ponto nevrálgico dos encontros, onde, diante de uma displicência, tudo estaria acabado.
Do lado de fora, um bode. A segurança de que não seriam surpreendidos. Se o bicho balisse, o tempo deveria ser o mínimo para que tudo estivesse em ordem. Agentes federais davam incertas. Para eles a porta não poderia se manter fechada.
Quando o alarme soava da garganta do animal, a dona da casa corria pela portinhola que dava acesso à minúscula cozinha para requentar o bule com a polpa do maracujá. Rapidamente o bando se dispersava, separando em pequenas mesas o que antes era um grande amparo central de um computador, repleto de documentos e táticas. Pela janelinha estrategicamente aberta entre os azulejos brancos, a chaleira era passada de mão. Às meia xícaras de água, a postos diante dos supostos clientes, o líquido quente era despejado.
Um sorriso de boas-vindas, depois de bagunçar alguns fios presos a um coque alto (queria dar a impressão de estar em movimento constante, não sentada confabulando), recebia os intrusos. Ignorava o bode, como se o acaso o fizesse sempre parar perto da sua entrada. Depois servia a calmaria do maracujá, trocava um dedo de prosa como uma cidadã acima de qualquer suspeita, mais querendo ouvir do que falar. São uns rebeldes! Querem tumultuar a ordem com uma conversa de que a Terra é redonda! Onde já se viu? Basta olhar em volta que se vê. O chão é reto! O céu também! A mulher acenava com a cabeça insinuando cumplicidade com o assunto que mais lhe parecia piada. Bolsos vazios, fome, crianças em semáforos, esses sim eram a sua dor.
Recolhia as xícaras segurando os pires por baixo, sem tocar na borda com vestígios de saliva. Punha os recipientes com DNA sobre a bancada, fora da bandeja.
Saíam satisfeitos, intimamente atestando a inocência da casa de chá. A ilusão de uma copa caprichosa, tão pequena que tudo se alcançava numa olhadela, era planejada para esconder a realidade que se escondia por baixo das bancadas de azulejos. Na memória de um notebook, segredos da rebelião, golpe, ou o nome mais adequado a quem contasse a história, protegidos sobre um fundo falso de madeira.
Ninguém suspeitava da cozinha. Nem do bode expiatório. Enquanto eles enxergassem apenas o que queriam ver, tudo correria bem.
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