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Existe uma lata de ervilha na minha geladeira

Existe uma lata de ervilha na minha geladeira. Uma lata que já desisti de abrir. Eu comprei ervilha não sei bem por que, nunca gostei…

Lorena Pereira · 2023-12-22 00:07 · 2 claps · 2.4 min read
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Existe uma lata de ervilha na minha geladeira

Existe uma lata de ervilha na minha geladeira. Uma lata que já desisti de abrir. Eu comprei ervilha não sei bem por que, nunca gostei muito. Comprei como que para dar uma chance. Talvez tenha visto alguma receita, talvez tenha tentado ser quem não era por um breve momento. Decidi comprar de maneira tão desleixada que escolhi ervilha em lata e da marca mais barata.

Eu não gosto da textura da ervilha, então comecei a pensar numa maneira de cozinhá-las para que pudessem me agradar minimamente. Pensei em hambúrguer de ervilha, ou caldo de ervilha, ou talvez uma pasta de ervilha extremamente temperada. Só sabia que não consumiria as ervilhas como vieram, em bolotas. Sabia desde que decidi colocar a lata na cestinha. Ervilha não tem muita graça. Entre a ervilha e o feijão, por exemplo, quem escolheria a ervilha? Por mais que possa ser até esteticamente interessante, não vejo o porquê.

Os dias se passaram e as ervilhas aguardavam. Era março ou abril. Não vi problema em deixá-las aguardando. Enlatado não estraga rápido. Mas o tempo passava e não achava o momento de finalmente abrir a lata. Sempre faltava ingredientes ou só, simplesmente, não queria comer ervilha. Eu não gosto de ervilha. Por que comprei essas ervilhas? — me perguntava. Pois vieram maio e junho, e a lata permanecia ainda no fundo da segunda prateleira da despensa. Em julho decidi mudá-la para a segunda prateleira da geladeira (talvez assim durasse mais). Ainda sem saber o que fazer com as ervilhas, a lata se tornou algo familiar à visão. Em agosto, ela desceu um pouco no esquema de prateleiras e foi direto para a última.

Nesse ponto, eu não sabia mais se devia consumi-las. Olhei a data de validade que marcava março do ano seguinte. Devolvi a lata ao seu lugar na geladeira, ainda na esperança de algum dia fazer o tal hambúrguer. Mas não realmente. Nesse ponto, eu sabia que jamais as consumiria. No fundo, eu sempre soube que jamais comeria essas ervilhas. Mas elas ficaram.

Setembro, outubro, esqueci que estavam ali. Nas compras do mês e limpas de geladeira, me neguei a abrir a lata ou mesmo jogá-la fora. Também não pensei em dar para mais ninguém. Não lembrava que existiam, não iria consumi-las, ainda assim meu apego a ideia de que foram compradas com certa esperança me impedia de deixá-las ir. Elas eram a esperança de que algo que não era talvez, um dia, pudesse ser.

Novembro, tirei sarro. A partir daí, manter a lata de ervilha já não era mais nada senão uma brincadeira. Vai fazer aniversário! Deixa ela aqui. Um dia vou abrir. Está enlatado, não incomoda ninguém. Passou a ser símbolo da minha procrastinação, ou talvez dessa tentativa mesmo de tentar ser o que não é.

Já é dezembro e a lata de ervilhas “Feitas com Amor” e com “Fonte de Fibras” ainda não foi aberta ou dispensada, apesar de seu fim estar cada vez mais próximo. Estou esperando o tempo decidir para mim. Sei que não virarão mais hambúrguer ou caldo ou pasta temperada, mas talvez fique com elas até sua morte, estipulada para março do ano que vem. Estou só esperando o tempo dizer que acabou. Enquanto isso, um pontinho verde enfeita minha geladeira discretamente, trazendo consigo uma risada e a lembrança de quando tentei engolir o que não queria.


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