IA como luta de classe
Texto de Adam Jones / Tradução de Bräulio Rodrigues
IA como Luta de Classe
Texto de Adam Jones Tradução de Bräulio Rodrigues

Cena do documentário de Adam Curtis, “All Watched Over by Machines of Loving Grace”. 2011.
Sobre o autor: Adam Jones
Adam C. Jones é um filósofo do leste de Londres, cujo trabalho se concentra no pensamento comunista insurrecional, na cibernética e nas formas como os sistemas de controle social operam na atualidade.
É autor do recente The New Flesh: Life and Death in the Data Economy (2024) — ainda sem tradução no Brasil — , obra em que investiga as transformações da vida sob o capitalismo de dados, partindo de questões como: o que significa viver em um mundo cada vez mais online e o que isso está fazendo com os sujeitos? O livro propõe uma fusão entre Marx e Engels, William Burroughs, Mark Fisher e a teoria queer contemporânea para desenvolver uma política materialista das relações psicológicas e econômicas que permeiam o ciberespaço.

Instagram do autor: @sanktmax
Além de sua produção escrita, Jones é apresentador do podcast Acid Horizon disponível na plataforma Spotify.
IA como Luta de Classe
A chamada “inteligência artificial” — a maquinaria mais precisamente conhecida como “modelos de linguagem de grande escala” — é uma arma do inimigo. A “inteligência artificial” não conquistou esse status por fazer algo qualitativamente novo. Os genocidas israelenses nunca precisaram de um modelo de linguagem para criar listas de execução (como suas amadas IAs “Where’s Daddy?” ou “Lavender”),¹ nem a Gestapo americana. O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) conseguia identificar, desaparecer e deportar pessoas muito antes da ajuda de listas geradas por modelos de linguagem, e a difamação do ativismo antissionista existia muito antes da produção de artigos extraídos do fundo do barril da “IA”.²
Tal violência não é uma inovação dos bilionários tecnológicos neorreativos em sua aliança com os movimentos políticos fascistas, enquanto essas forças ascendem a uma hegemonia aparente. O que essas máquinas realmente alcançam é uma rápida aceleração do processo de identificação de alvos, a criação dessas listas de execução e deportação, acelerando a produção de resultados a partir de conjuntos de dados; portanto, um aumento exponencial no número de alvos. Se tais resultados são precisos ou não é secundário em relação ao ponto mais importante: essas máquinas produzem relatórios, imagens e identificações prolíficos a partir de seus conjuntos de dados de entrada.
Esse aumento na produção de resultados e na quantidade de alvos amplifica esses processos de busca e expurgo. Os conjuntos de dados produzem objetos autorreferenciais que servem como suporte, justificativa ou “evidência” para informar a violência perpetrada pelo Estado. Os objetos em questão podem ser listas de pessoas a serem deportadas, detidas ou assassinadas, artigos condenatórios ou representações de dados que justificam a retenção de recursos ao apresentar decisões políticas com um brilho calculado e “neutro”. Essas máquinas gerem dados em nome de seus proprietários. Especificamente, tais máquinas servem aos interesses coletivos da fração da classe proprietária — o capital detido por empresas de tecnologia — que se aliou ao Estado e à sua liderança política. Como Gareth Watkins, na New Socialist, apontou recentemente, a imposição dessas máquinas em quase todos os serviços online existentes, mecanismos de busca, sistemas operacionais, instituições governamentais e locais de trabalho é uma questão de solidariedade de classe em toda a classe dominante:
A classe capitalista, como um todo, fez uma aposta massiva em IA: 1 trilhão de dólares, segundo o Goldman Sachs — um valor calculado antes da administração Trump prometer outros 500 bilhões de dólares para seu “Projeto Stargate”… Isso não se trata apenas de utilidade, trata-se de se alinhar com a indústria de tecnologia. (tradução livre)³
A indústria de tecnologia está repleta de hype e profecias de ficção científica sobre colonização de Marte e fantasias utópicas. Marc Andreessen, cofundador da firma de capital de risco Andreessen-Horowitz, resume a promessa da salvação tecnológica em seu Manifesto Tecnologicamente Otimista com algumas citações reunidas aqui:
A inteligência artificial é melhor compreendida como uma solucionadora universal de problemas. Dê-nos um problema do mundo real, e nós podemos inventar a tecnologia que o resolverá. Acreditamos que a máquina tecnocapitalista de mercados e inovação nunca acaba. (tradução livre)⁴
Não se deixe tentar a pensar que esse “nós” nos inclui.
Os tecnocapitalistas — um termo em última análise redundante — acreditam que o único caminho a seguir é o deles. Sem surpresas, isso coincide com os investimentos do setor de tecnologia nos quais a classe proprietária apostou seu capital. Com uma arrogância característica, os tecnocapitalistas acreditam que são inteligentes o suficiente para resolver todos os problemas da humanidade, desde que ninguém desafie o poder dessa classe nem defenda sistemas de propriedade coletiva e solidariedade que a ameaçariam.⁵
Contanto que não se perturbem as máquinas nem se questione quem as possui, a população é instruída a ficar sentada, confiar no processo e entregar o dinheiro. Os proprietários das máquinas podem pedir os dados também, mas, na verdade, eles já não precisam mais. Microsoft, Apple e Amazon são hegemônicas na produção e propriedade da infraestrutura digital e na proliferação de tecnologia de consumo. Os aparelhos de Estado tornaram-se institucionalmente dependentes das grandes empresas de tecnologia, por exemplo, por meio da integração das tecnologias de dados da Palantir na infraestrutura do exército dos EUA e do Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico. Ao mesmo tempo, cada vez que se usa uma plataforma, seja a busca do Google ou as redes sociais, produzem-se dados para esses sistemas. Cada compra online, cada interação que passa por qualquer circuito de métricas digitais, dados salvos ou registro computacional produz dados como elementos de um conjunto que pode ser comprado e vendido. Tomando um exemplo recente: quem quer que compre a agora extinta plataforma 23andMe herdará os dados de DNA de sete milhões de ex-clientes. As pessoas se inscreveram nesses serviços para descobrir de onde podiam vir — uma curiosidade racial não limitada aos usuários, mas compartilhada, abertamente, por empreendedores de tecnologia e fascistas.
Modelos de linguagem de grande escala exigem treinamento e, para isso, exigem conjuntos de dados vastos: arquivos da atividade digitalizada da população, dos movimentos, da história, das interações, das transações, das imagens, das comunicações. Raramente os próprios usuários possuem esses dados: as plataformas os possuem. Quanto maior a existência digitalizada, maior a riqueza dos proprietários das plataformas. Não é necessária uma previsão particular para adivinhar o que será feito com essas informações; já se pode ver o que os proprietários pretendem, o que já está sendo feito em tempo real, às claras.
Os dados situam-se numa interseção precária entre conhecimento e aparência, como um registro ou representação. Se Baudrillard foi confirmado por algo histórico ultimamente, é que esse registro é frequentemente tratado pelas instituições como tendo uma realidade maior do que aquilo que ele pretende registrar. No entanto, não é preciso alta teoria para entender o que a brutalidade da experiência já está ensinando àqueles que estão na mira das instituições contemporâneas. Considere, por exemplo, o processo de solicitação de benefícios por incapacidade no trabalho no Reino Unido. Sob o Partido Trabalhista, o Departamento de Trabalho e Pensões (DWP) alterou os critérios de avaliação, tornando significativamente mais difícil para pessoas com deficiência reivindicar o Pagamento de Independência Pessoal (PIP). A realidade material da situação — o corpo da pessoa com deficiência — não mudou de forma alguma que justificasse uma redução no suporte; se alguma coisa, as circunstâncias dessas pessoas muitas vezes pioraram sob o peso cumulativo do contínuo adoecimento induzido pela COVID, do aumento dos preços, da má qualidade do ar e da austera demolição dos serviços públicos de saúde. Em vez disso, são os dados — os relatórios que atribuem pontos numéricos à capacidade de realizar tarefas diárias, como tomar banho, vestir-se e outras atividades cotidianas — que foram recalibrados. Como resultado, a mesma condição de vida agora produz uma pontuação diferente, de modo que o total muitas vezes não qualifica mais a pessoa para o suporte. Isso, segundo os próprios números do DWP, condenará um quarto de milhão de pessoas à pobreza absoluta.⁶
A realidade material do corpo com deficiência não precisa mudar; apenas as relações entre trabalho, capital e aquelas frações do trabalho outrora organizadas o suficiente para contestá-lo. Os dados não precisam ser conhecimento: basta que sejam reconhecidos como uma quantificação abstraída, digitalizada e mitologizada capaz de servir como justificativa — crível ou não — para preencher a necessidade institucional de qualquer justificativa. Trata-se de um exercício de marcar caixas na crueldade burocrática.
Hoje, a correspondência dos solicitantes de benefícios parece ser processada por um modelo de linguagem chamado “Whitemail”. Um documento governamental se gaba de que “a tecnologia de IA aumentou ainda mais a velocidade com que conseguimos identificar pessoas vulneráveis”.⁸ Isso tem sido claramente bem-sucedido, embora não seja como se o DWP precisasse de ajuda para assassinar socialmente os deficientes: isso é principalmente um exercício de hype e economia de trabalho. O Estado britânico encontrou os vulneráveis — e os considerou insuficientes. Isso inclui aqueles já identificados, agora sujeitos a reavaliação e remoção sistemática dos Pagamentos de Independência Pessoal. Milhares de pessoas com deficiência serão arrastadas para a destituição, assassinato social explícito. Não é hipérbole acreditar que os governos querem essas máquinas para controle social e assassinato social. De fato, dado que o Reino Unido é um participante ativo no genocídio de Israel no lado da coleta de inteligência e, portanto, da produção de dados,⁹ isso pode fazer parte do apelo.¹⁰
Mas tudo isso já aconteceu antes, não aconteceu? O Palantir, Microsoft, Amazon ou Google de hoje é apenas uma repetição da configuração tecnocapital burguesa de ontem — aqui se fala da IBM e seu papel no Holocausto. Este é um conjunto de fatos históricos que não foi trazido à consciência pública até que Edwin Black escrevesse IBM e o Holocausto, e muitas vezes passa despercebido hoje. Nessa medida, vale a pena citar Black extensivamente:
A IBM Alemanha, conhecida naqueles dias como Deutsche Hollerith Maschinen Gesellschaft, ou Dehomag, não simplesmente vendeu máquinas ao Reich e depois se afastou. A subsidiária da IBM, com o conhecimento de sua sede em Nova York, projetou sob medida, de forma entusiástica, os dispositivos complexos e as aplicações especializadas como um empreendimento corporativo oficial. A alta administração da Dehomag era composta por nazistas abertamente raivosos que foram presos após a guerra por sua filiação ao Partido. A IBM NY sempre entendeu — desde o início, em 1933 — que estava cortejando e fazendo negócios com a alta cúpula do Partido Nazista. A empresa alavancou suas conexões com o Partido Nazista para aprimorar continuamente seu relacionamento comercial com o Reich de Hitler, na Alemanha e em toda a Europa dominada pelos nazistas. A Dehomag e outras subsidiárias da IBM projetaram sob medida as aplicações. Seus técnicos enviavam maquetes de cartões perfurados de um lado para outro para os escritórios do Reich até que as colunas de dados fossem aceitáveis, muito como qualquer projetista de software faria hoje. Os cartões perfurados só podiam ser projetados, impressos e comprados de uma única fonte: a IBM. As máquinas não eram vendidas, eram alugadas, e regularmente mantidas e atualizadas por apenas uma fonte: a IBM. As subsidiárias da IBM treinaram os oficiais nazistas e seus representantes em toda a Europa, abriram filiais e concessionárias locais em toda a Europa nazista, abastecidas por uma porta giratória de funcionários da IBM, e vasculharam fábricas de papel para produzir até 1,5 bilhão de cartões perfurados por ano apenas na Alemanha. Além disso, as máquinas frágeis eram reparadas no local cerca de uma vez por mês, mesmo quando esse local era dentro ou perto de um campo de concentração. A sede da IBM Alemanha em Berlim mantinha duplicatas de muitos livros de código, assim como qualquer escritório de serviços da IBM hoje manteria backups de dados para computadores.
Eu era assombrado por uma pergunta cuja resposta há muito escapava aos historiadores. Os alemães sempre tiveram as listas de nomes judeus. De repente, um esquadrão de SS de rostos sombrios invadia uma praça da cidade e publicava um aviso exigindo que aqueles listados se reunissem no dia seguinte na estação de trem para deportação para o Leste. Mas como os nazistas obtinham as listas? Por décadas, ninguém soube. Poucos perguntaram. A resposta: as operações de censo da IBM Germany e tecnologias similares avançadas de contagem e registro de pessoas. A IBM foi fundada em 1896 pelo inventor alemão Herman Hollerith como uma empresa de tabulação de censo. Censo era seu negócio. Mas quando a IBM Germany formou sua aliança filosófica e tecnológica com a Alemanha Nazista, o censo e o registro assumiram uma nova missão. A IBM Germany inventou o censo racial — listando não apenas a filiação religiosa, mas a linhagem sanguínea que remontava a gerações. Esta era a sede de dados nazista. Não apenas contar os judeus — mas identificá-los.
O registro de pessoas e ativos foi apenas um dos muitos usos que a Alemanha Nazista encontrou para os classificadores de dados de alta velocidade. A alocação de alimentos foi organizada em torno de bancos de dados, permitindo que a Alemanha matasse os judeus de fome. O trabalho escravo foi identificado, rastreado e gerenciado em grande parte por meio de cartões perfurados. Os cartões perfurados até faziam os trens funcionarem no horário e catalogavam sua carga humana. A Ferrovia Alemã, a Reichsbahn, a maior cliente da Dehomag, negociava diretamente com a alta administração em Berlim. A Dehomag mantinha instalações de cartões perfurados em estações de trem em toda a Alemanha e, eventualmente, em toda a Europa. (tradução livre)¹¹
Enquanto este texto é escrito, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) está trabalhando com a Palantir para “completar a análise de alvos de populações conhecidas”, ou seja, atualizar suas ferramentas de busca para identificar e deportar pessoas dos Estados Unidos.¹² No Reino Unido, a Palantir é liderada pelo neto de Oswald Mosley, o antigo chefe aristocrático da União Britânica de Fascistas — os inimigos são eficientes, mas não sutis. A Palantir, apesar ou por causa de sua determinação em auxiliar processos de perseguição estatal, permanece contratada para fornecer a infraestrutura de dados para o Serviço Nacional de Saúde britânico, que por si só não é estranho à segregação e ao assassinato social por meio da privação de cuidados. Já se pode ver isso com a situação dos cuidados de saúde trans no Reino Unido, que permanecem segregados por meio de um sistema de “Clínicas de Identidade de Gênero” separadas, ao mesmo tempo em que são destruídos pela austeridade e pela legislação transfóbica.¹³
No entanto, mesmo empresas como a Palantir não são verdadeiramente a vanguarda do fascismo. Essas empresas são os vendedores de pás em uma corrida do ouro da crueldade institucionalizada. A atual leva de empresas de tecnologia está se preparando para desempenhar o mesmo papel que a IBM desempenhou na Alemanha Nazista, juntamente com empresas mais antigas, como a própria IBM, que como empresa nunca enfrentou justiça pelo que fez e pode ainda estar fazendo.
As intensificações tecnológicas do processo de prisão por meio do processamento de dados são acelerações da escravidão. Considere os Estados Unidos, que notoriamente excluíram a escravidão prisional de sua abolição na 13ª Emenda e estão atualmente exportando escravos para El Salvador com base em seus próprios dados: relatos dos quais parecem indicar que qualquer homem moreno com uma tatuagem provavelmente será alvo.¹⁴ Mesmo que fossem, isso seria inaceitável em qualquer circunstância. Como Mohammed El-Kurd ensina em seu livro Perfect Victims, qualquer apelo a uma qualidade moral superior de uma vítima é cumplicidade com o opressor e seu discurso, seus dados. Não se questiona a justificativa para um ato opressor ao qual se é resolutamente contrário, pois é o ato em si que está em questão, e é o inimigo que se esconde por trás do ruído do “discurso” sobre vítimas merecedoras e não merecedoras de sua própria violência. Essas maquinarias ajudam o inimigo a encontrar seus alvos mais rapidamente: acelerando a logística do assassinato social, genocídio, assassinato, deportação e escravidão. O que deve ser feito? A resposta a essa pergunta — ou pelo menos uma sugestão dela — pode ser encontrada no nível da infraestrutura e da economia política dos dados.
Da Dependência à Desaceleração
Não se deve esquecer que uma parte significativa do apelo dessas novas tecnologias é sua utilidade como dispositivos de “economia de trabalho”. No entanto, isso só é verdade sobre essas máquinas conforme são comercializadas, conforme aparecem enquanto as mercadorias ou serviços mercantilizados que elas engendram. A chamada “IA” não reduz o trabalho; em vez disso, difunde o trabalho em milhares de trabalhos menores, que tornam praticamente invisíveis para o usuário. Dados são trabalho morto, e são o trabalho morto de milhares de moderadores de dados e “microtrabalhadores”, que recebem salários irrisórios — frequentemente em campos de refugiados ou espalhados pelo Sul Global — para rotular imagens, corrigir saídas falsas e gerar dados de origem para essas máquinas.¹⁵
Os dados também são gerados por todos cada vez que se usa uma plataforma ou se faz um movimento ou compra que é registrada (um cartão de fidelidade Tesco, assim como qualquer outro cartão de fidelidade de supermercado, produz enormes quantidades de dados locais sobre filiais, compras e sua frequência. Não é um desconto, é uma recompensa pelos dados produzidos). Pode não parecer trabalho, mas é, no entanto, um trabalho produtivo — o consumo produz dados e desempenha seu papel na circulação de capital e mercadorias. Se o trabalho de alguém é enviar e-mails, então esse trabalho é principalmente gastar dinheiro. No entanto, este continua sendo o apelo para os Nossos Superiores: o trabalho invisibilizado é mais barato, senão gratuito, e assim os custos diminuem como se o trabalho estivesse sendo removido da equação. Isso significa que é cada vez mais possível — e as empresas de tecnologia esperam por isso — que mais e mais instituições e empresas se tornem dependentes dessas máquinas, pelas quais pagarão assinaturas, o que enriquecerá os proprietários dessas máquinas como “provedores de serviços”. Isso já pode estar ocorrendo, se observarmos como as novas taxas de tarifas recíprocas de Trump se assemelham, sem surpresa, àquelas geradas por um modelo de linguagem.¹⁶
A crescente dependência de pequenas empresas e agências governamentais dessas máquinas e daqueles que as possuem reflete uma dependência estrutural mais profunda. A burguesia tecnocapitalista apostou porções substanciais de seu capital no sucesso dessas tecnologias, dessas máquinas. O projeto dessa burguesia é transferir essa dependência para fora, de modo que as máquinas se tornem inextricáveis da vida diária de seus assinantes.
A aposta tecnocapitalista é esta: “nós os tornaremos dependentes de nós, e então o custo de se livrar de nós será alto demais — colapso institucional e caos logístico serão o preço da rebelião”. Esta é uma guerra de subjugação do trabalho e de gestão e eliminação de populações excedentes. Como um vasto e internacional programa para a redução dos custos trabalhistas, isso é uma guerra de classes. Como uma guerra de classes internacional, é, portanto, uma guerra colonial. Primeiro, no nível das matérias-primas, pois as máquinas exigem metais preciosos como o coltã de lugares como a República Democrática do Congo e combustíveis fósseis provenientes dos circuitos do imperialismo global. Em segundo lugar, no nível do uso internacional do poder computacional para fins de guerra por meio da internet, sistemas de armazenamento em nuvem e sua infraestrutura. Como reporta a Associated Press:
A Microsoft e a startup OpenAI, sediada em São Francisco, estão entre um conjunto de empresas de tecnologia dos EUA que têm apoiado as guerras de Israel nos últimos anos.
Google e Amazon fornecem serviços de computação em nuvem e IA para os militares israelenses sob o “Projeto Nimbus”, um contrato de 1,2 bilhão de dólares assinado em 2021, quando Israel testou pela primeira vez seus sistemas de mira alimentados por IA internos. Os militares usaram fazendas de servidores ou centros de dados da Cisco e da Dell. A Red Hat, uma subsidiária independente da IBM, também forneceu tecnologias de computação em nuvem para os militares israelenses, e a Palantir Technologies, parceira da Microsoft em contratos de defesa dos EUA, tem uma “parceria estratégica” fornecendo sistemas de IA para ajudar os esforços de guerra de Israel. (tradução livre)¹⁷
Chamar isso de computação em “nuvem” é um golpe de mestre de marketing. O escritor Dan McQuillan, cujo livro Resisting AI é um recurso essencial para a crítica social da computação, corta o blá-blá-blá de forma adequada:
Ao contrário das nuvens reais, que transportam a umidade que dá vida dos mares para a terra, a nuvem de IA suga os escassos recursos hídricos. Não deveria ser chamada de “A Nuvem”, deveria ser chamada de “a Seca”, e deveríamos dizer “esse modelo de linguagem grande roda na Seca”. (tradução livre)¹⁸
A computação da Seca faz parte da guerra do capital contra a própria Terra: em sua apropriação colonial e fascista de recursos, essa computação traça o diagrama que liga extração a extermínio. O termo “nuvem” abriga um idealismo coloquial, como se estivesse “lá em cima” e além da humanidade. Mas sabe-se onde a computação acontece e, graças à computação em nuvem, a violência da periferia imperial pode ser comandada, informada e dirigida a partir das regiões do centro de maneira acelerada, possibilitada pelo poder computacional alojado dentro dos limites dos centros de dados.
Esses lugares abrigam os bancos de servidores, os dados (ou cópias deles), a infraestrutura física da computação em massa.¹⁹ Em sua operação intensiva em recursos, sua função política e seu valor de ativo para os capitalistas, os centros de dados podem ser pensados como infraestrutura de rede tóxica, semelhante aos oleodutos. Como tal, são vulneráveis.
A ação trabalhadora militante pode impedir que tais centros sejam construídos, e de fato é na fase de construção que eles estão mais vulneráveis. Da mesma forma que os carregamentos de armas e componentes de armas podem ser interrompidos por trabalhadores portuários, a construção pode ser interrompida por trabalhadores. Ao contrário dos oleodutos, os centros de dados também são frequentemente construídos perto de regiões populosas e, portanto, mais perto de onde as pessoas podem detê-los. Em 2024, foi noticiado que 72 projetos de centros de dados começariam a ser construídos no Reino Unido, inclusive dentro e ao redor de Londres.²⁰ O inimigo geralmente não constrói seus oleodutos tão perto, e com tão poucos empregos para mostrar. Acredita-se que é estratégica e praticamente necessário que os movimentos operários, os movimentos de solidariedade com a Palestina, os movimentos ecológicos e os comunistas concentrem sua atenção nessa infraestrutura em termos locais e globais. Ou seja: como deter a proliferação de centros de dados, como impedir a crueldade institucional que a chamada “IA” está intensificando e como levar a luta para o Vale do Silício e seus parceiros nos próprios Estados capitalistas? Os centros de dados funcionam como uma parte cada vez mais central do sistema nervoso de um sistema imperial, tecno-fascista. Neste sistema, o fascismo e o imperialismo podem estar cada vez mais dispostos a sacrificar os interesses do capital em geral pelo avanço de seus projetos políticos. Mas o capital em geral também pode estar disposto a sacrificar esses tecnofascistas. Tudo isso não é fixo, e é por isso que a ação pode encontrar aberturas — o que nos leva de volta a uma tese de Walter Benjamin:
A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é a regra. Precisamos chegar a um conceito de história que corresponda a esse fato. Então veremos como nossa tarefa é provocar um estado de exceção real. (tradução livre)²¹
O “estado de exceção” dos capitalistas e fascistas é um instrumento de sua guerra contra a população. Mas é uma faca de dois gumes, cujas pontas podem ser viradas contra eles. A militarização do aparato estatal é, em parte, a militarização de suas dependências de capital. Acredita-se que, por meio de uma ação coordenada — de greves, interrupções de trabalho, sabotagem, campanhas populares de interrupção e ação direta — é possível paralisar esses sistemas. É possível parar a construção de novos centros de dados. É possível interromper o trabalho nos já existentes. É possível tornar mais difícil para as instituições usar essas máquinas e, em vez disso, torná-las um passivo. A luta pela libertação palestina, pelo fim da deportação, pelo direito à saúde e pela abolição do trabalho escravo passa pela luta contra a infraestrutura que possibilita e acelera esses processos. Passa pela recusa em permitir que esses projetos sejam concluídos e operados.
Notas de Rodapé
- Yuval Abraham, “‘Lavender’: The AI machine directing Israel’s bombing spree in Gaza”, +972 Magazine, 2024.
- Thomas Maxwell, “Yale Suspends Palestine Activist After AI Article Linked Her to Terrorism”, Gizmodo, 2025.
- Gareth Watkins, “AI: The New Aesthetics of Fascism”, New Socialist, 2025.
- Marc Andreessen, “The Techno-Optimist Manifesto”, 2023.
- No mesmo Manifesto Tecno-Otimista, Marc Andreessen identifica essa ameaça explicitamente: “Nosso inimigo é o estatismo, o autoritarismo, o coletivismo, o planejamento central, o socialismo”.
- John Pring, “Labour’s cuts to PIP will drag a quarter of a million people into absolute poverty, DWP figures show”, Disability News Service, 2025.
- Mackenzie Ferguson, “DWP Unveils Controversial ‘White Mail’ AI: Transforming Benefit Systems at What Cost?”, 2025.
- Mel Stride, “DWP use of artificial intelligence (AI)”, UK Department for Work & Pensions, 2023.
- Ver meu artigo “Eugenic Austerity”.
- Iain Overton, “Britain sent over 500 spy flights to Gaza: AOAV study reveals the scale of British intelligence gathering above Gaza, raising fears of complicity in Israeli war crimes”, AOAV, 2025.
- Edwin Black, IBM and the Holocaust, Dialog, 2012, pp. 9–10.
- Joseph Cox, “ICE Just Paid Palantir Tens of Millions for ‘Complete Target Analysis of Known Populations’”, 404 Media, 2025.
- June, “Supreme Court attacks trans people — the fight for liberation goes on”, rs21, 2025.
- Karla Ostolaza, “ICE’s focus on tattoos is part of a long tradition of profiling”, MSNBC, 2025.
- Para mais informações, ver o trecho do meu livro The New Flesh e suas fontes.
- Alexandra Scaggs, “Reciprocal tariffs: you won’t believe how they came up with the numbers”, Financial Times, 2025.
- Michael Biesecker, Sam Mednick & Garance Burke, “As Israel uses US-made AI models in war, concerns arise about tech’s role in who lives and who dies”, The Associated Press, 2025.
- Dan McQuillan, Twitter, 2025.
- Stephanie Susnjara & Ian Smalley, “What is a data center?”, IBM, 2024.
- Megan Pounds, “What’s driving the surge in data centre construction projects in the UK?”, 2024.
- Walter Benjamin, Selected Writings, 1938–1940, Harvard University Press, 2003, p. 402.
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