Sobre Hilda Hilst: um breve mergulho na poética do indefinível
A longa trajetória de Hilda Hilst é uma das mais extensas, intensas e completas entre os mais variados artistas brasileiros. A escritora…
Sobre Hilda Hilst: um breve mergulho na poética do indefinível

fonte: foto por valentina maciel
A longa trajetória de Hilda Hilst é uma das mais extensas, intensas e completas entre os mais variados artistas brasileiros. A escritora passeou com maestria pela poesia, prosa, dramaturgia e flertou ao fim da vida com a prosa erótica. Colocar a obra de sua vida em categorias ou analisar racionalmente seus poemas é esquecer a pluralidade de sua arte e a impossibilidade de racionalizar o que ela chamava de indefinível.
E o que eu desejo é luz e imaterial. Que canto há de cantar o indefinível?
(HILST, Hilda. “II”, Da noite. 1992).
Sua obra de uma vida toda foi tecer esse indefinível dentro do espectro das palavras. Neste ensaio, proponho, então, não uma análise ou interpretação de sua poética, mas sim um mergulho numa seleção de poesias e, principalmente, uma leitura (dentre tantas outras possíveis). Para falar do indescritível e do terreno, do sagrado e do profano, do Amor, da Morte e da Vida — a trindade de Hilda —, é preciso colocar-se como agente, como leitora, como sensação corpórea, como sensibilidade tátil — mesmo que isso acarrete certa subjetividade. A minha tentativa é de desdobra, de afundamento no poema, para que dali possam emergir novas leituras e esperanças poéticas. É justamente o indefinível da arte que atravessa o tempo, que acessa nossas pessoalidades e nos transforma em espectadores (e também produtores, seja de sentido, seja como criadores) do objeto artístico. E essa troca requer também nunca transformá-lo em algo sobre-humano, sobrenatural ou distante do espectador/leitor/produtor. A leitura é o meio-termo que se comporta bem nesse fio entre perceber o autor, conhecer a obra e produzir nós mesmos o conteúdo — da obra e de nós mesmos. Ler poesia como lemos a vida, na intensidade que ambas requerem.
A poética de Hilda é, em parte, livre das amarras sociais misóginas. Escrever sobre sexo e sexualidade com a leveza e dureza das quais ela se utiliza, com a liberdade que ela experimenta, é algo a ser comemorado. Sua escrita erótica, produzida de um jeito astuto, metalinguístico, muito debochado, e por vezes sério e sensual; a forma como viaja entre os gêneros literários com leveza; essas questões são evidentes e absolutamente únicas na literatura brasileira. Sobre sua obra erótico-pornográfica, a autora, dizendo-se “livre para fracassar”, escreve estas palavras na quarta capa da primeira edição de Amavisse, em 1989:
O escritor e seus múltiplos vêm vos dizer adeus. Tentou na palavra o extremo-tudo E esboçou-se santo, prostituto e corifeu.
(HILST, Hilda. “Poemas inéditos, versões e esparsos”. Obra completa, 2017).
Livre para fracassar e para experimentar, sua prosa e poesia erótica esbanjam inovação e denunciam esta soberania e emancipação, seja na falta de receio em chocar, seja no linguajar chulo misturado ao intelectualizado (tão utilizado em sua obra poética). Hilda dá adeus aos seus múltiplos — talvez pelo cansaço da falta de reconhecimento — e se joga numa literatura mais crítica e cruel, querendo se fazer escrachada. Mas ela não consegue fugir de sua essência. Continua plural como em toda a obra, passeando com facilidade entre os gêneros prosa, poesia e teatro e utilizando-se da língua de um jeito único e singular.
Mais especificamente sobre suas poesias de amor e sexo, Hilda, ao fazer do objeto de seus amores os homens por quem se apaixonou, também usa a referência da morte enquanto objeto de amor, de sexo e de prazer. Retomando suas fusões entre masculino e feminino, funde então o desejo pelos homens com uma experiência lésbica com a morte, como nos engajamentos eróticos de Da morte. Odes mínimas (1980):
Demora-te sobre a minha hora. Antes de me tomar, demora. Que tu me percorras cuidadosa, etérea Que eu te conheça lícita, terrena
Duas fortes mulheres Na sua dura hora.
Que me tomes sem pena Mas voluptuosa, eterna Como as fêmeas da Terra.
E a ti, te conhecendo Que eu me faça carne E posse Como fazem os homens.
(HILST, Hilda. “II”, Da morte. Odes mínimas, 1980).
Mesclando o desejo sexual com a derradeira morte, contrasta o modo como os homens “tomam” (fazendo d’outro carne e posse) com a forma como as “fêmeas da terra” tomam (voluptuosas e eternas). Figura-se, assim, a disparidade entre a força física, brutal, terrena e a força etérea, flutuante, celeste. Ao longo do apanhado de 40 poesias do livro, Hilst provoca a morte — com sensualidade e em chamamentos. Desafia a morte, no sentido em que faz da linguagem poesia, faz da palavra eternidade, tornando-se ela mesma imortal.
Ainda podemos pensar na analogia com o termo francês la petite mort, que foi cunhado pelo cirurgião Ambroise Paré, em meados do século XVI, para designar síncope ou tontura, e que mais tarde foi apropriado por diversos escritores eróticos, significando orgasmo. Nos subtextos das poesias dessa série, podemos associar este prazer último, a “morte pequena”, com a “grande morte”: a definitiva. Uma das forças da poesia da autora é que as associações possíveis são inúmeras.
Seus capítulos se assemelham a versões de cantos épicos, enumerados por números romanos e organizados em grandes capítulos, feito uma herança revisitada dos gregos e dos cantos portugueses. Hilst mistura o sagrado com o profano, entrelaçando-os como um só. Ela confunde conceitos dos mais variados, choca-os uns contra os outros e nos confronta com a dicotomia das coisas, com os opostos — separados por um só verso.
A morte, o amor, o sagrado e o sexo são assuntos constantes na prosa e poesia de Hilda Hilst. Mas também a Vida, como em Alcóolicas (1990). Em uma série curta, de apenas 9 poesias, a autora se encontra e desencontra com a Vida, metamorfoseada como uma senhora boêmia (à imagem de sua criadora), e dali saem os mais belos versos.
É crua a vida. Alça de tripa e metal. Nela despenco: pedra mórula ferida. É crua e dura a vida. Como um naco de víbora. Como-a no livor da língua Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me No estreito-pouco Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida Tua unha plúmbea, meu casaco rosso. E perambulamos de coturno pela rua Rubras, góticas, altas de corpo e copos. A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima Olho d’água, bebida. A Vida é líquida.
(HILST, Hilda. “I”, Alcóolicas. 1990)
As poesias da série Alcóolicas (1990) referenciam a vida, mas nunca deixam de reverenciar a morte, como se esta última as estivesse esperando ao virar a esquina. Como se já estivessem mortas também, ela e a Vida, “livor da língua”, fazendo referência ao livor mortis, que é a mudança de coloração que surge na pele dos cadáveres. Lavando “as vigas dos ossos” e chamando a Vida, reparando na unha que é “plúmbea”, roxa, como a dos mortos. Líquidas, vivas ainda. Como se a morte demorasse e, enquanto isso, ou até por isso, bebem. Permanecem altas, permanecem bêbadas, permanecem. Como o bêbado que não quer sair do bar, permanece a vida antes da morte. Estagnadas como a “pedra”, embrionárias como a “mórula”, roxas como a amora (do latim morula, diminutivo de morus, significando amora) — ainda demorando, ainda esperando, como se na marola do mar. Há ainda esta profunda e completamente desconcertante oposição: a Vida é dura/a Vida é líquida. A vida que escorre, metáfora comum na literatura, é amarrada ao longo dos versos todos de Alcóolicas (1990) com uma nova roupagem potente e original.
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado Salpicado de negro, de doçuras e iras. Te amo, Líquida, descendo escorrida Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes País O riso solto A dentadura etérea Bola Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida E um Mais que se agiganta, um Mais Conquistando um fulcro potente na garganta Um látego, uma chama, um canto. Ama-me. Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos Quando não sou líquida.
(HILST, Hilda. “V”, Alcóolicas. 1990).
Sentadas à mesa, as duas senhoras demoram-se na liquidez dos versos e das bebidas, na dureza das palavras. Presentes no primeiro verso estão figuras de linguagem muito ricas, como as de oposição entre rosa/negro, doçuras/iras, liquidez em que se deita, em que estira, como na dureza de um caixão. Refazendo o passado, já encharcadas em riso, rosadas de álcool, vão se esquecendo do sofrimento, das fomes, das misérias. Amando a vida, amando sua liquidez escorrendo pela garganta, sua liquidez que denota mobilidade, que denota a fluidez das águas e das bebidas. Versificando a partir do âmago, das “vísceras”, Hilda encontra sempre seu mote, sua definição própria: a liquidez, que faz referência à água. “Aflição de ser água em meio à terra/ […] Não saber se se ausenta ou se te espera/ Aflição de te amar, se te comove./ E sendo água, amor, querer ser terra.” (HILST, Hilda. “I”, Sonetos que não são. Roteiros do silêncio, 1959. grifo nosso).
E no último verso, há uma troca de papéis: quem declarava seu amor, que era o eu lírico e dizia “Te Amo”, agora pede “Ama-me”. Um desejo, um “canto”, a súplica que vai crescendo a partir de um fulcro na garganta, provindo da víscera, que pede amor. Que pede a bebida da vida, a correnteza que agiganta.
[…]
Corre. O casaco e o coturno estão em seus lugares. Carminadas e altas, vamos rever as ruas E como dizia o Rosa: os olhos nas nonadas. Como tu dizes sempre: os olhos no absurdo.
Vem. Liquidifica o mundo.
(HILST, Hilda. “VI”, Alcóolicas. 1990).
O fio de Ariadne que conecta de modo espetacular todos os fins de versos, que podem ser realocados como num quebra-cabeça, sem ordem particular, pode ser notado como no experimento abaixo, em que extrai alguns últimos versos:
“O todo se dignifica quando a vida é líquida” (poema III).
“Se dedutiva e líquida, a vida é plena” (poema IV).
“Vem. Liquidifica o mundo.” (poema VI).
“Beba. Estilhaça a tua própria medida.” (poema IX).
Como pequenos aforismos, cada último verso contém sua máxima, uma sentença ou apotegma. Como fórmulas pequenas da vida, como epifanias compartilhadas. Os passeios pelas ruas do eu lírico com a Vida, altas, de casaco e coturno, são como um respiro, uma visão abrangida do completo e precipítico absurdo que é a vida em si.
E ainda o coturno, costurando a série inteira dos nove poemas, esse elemento visual que remete ao calçado rígido, que pesa ao chão, que faz barulho, nada gentil, mas duro. Farda que se compõe com o acompanhamento do casaco rosso, lembrando foneticamente a cor roxa dos primeiros versos do primeiro poema, e do rosso de vermelho em italiano — além do contraste entre o coturno rígido e o “tecido de açucena”, mencionado no poema IV: tecido de flor, de quase doçura.
Se um dia te afastares de mim, Vida — o que não creio Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida Bebe por mim paixão e turbulência, caminha Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as) Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio. Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso: compreenderá O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via manifesta. Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica: O êxtase de te deitares contigo. Beba. Estilhaça a tua própria medida.
(HILST, Hilda. “IX”, Alcóolicas. 1990).
O último poema da série Alcóolicas (1990) é coroado com a hipótese da morte, “se” um dia a Vida já não estiver presente — em que já se acusa a impossibilidade, atestada a intensidade (digo aqui até a intensidade de sua obra) de sua própria existência — se um dia a vida for, que beba e experimente essa mesma intensidade, perpetue-a. Console os que ficaram, para que compreendam a “embriaguês da via manifesta”.
E por fim, nos últimos versos, essa retomada da experiência lésbica que já aparecera antes, em seus flertes com a morte, em Da morte. Odes mínimas (1980). Aqui, experiência outra, revisitada ao deitar-se com o extremo oposto. E ainda o êxtase de te deitares contigo: como um reconhecimento primeiro da vida que há em si, a vida deitando-se consigo; a vida da subjetividade humana deitando-se com a vida exterior, unindo-se, enfim, em êxtase e deslumbramento, a dualidade existencial mais fundamental que há de existir: vida e morte. Transgredindo as medidas e as distâncias entre as duas.
A densidade e o teor quase mítico dessa série de poesias são aspectos a serem deglutidos muito cuidadosamente, e muito demoradamente. De gole em gole. O mergulho aqui é quase literal. Os versos escorregam na mão, se liquidificam facilmente na boca, no pensamento, na experiência tátil de decifrá-los.
Por fim, resgatemos, da juventude de Hilda, o seguinte poema, quase singelo, perto da densidade obscura dos do final de sua vida. Comparando-se com uma flor, fica ressoando a infinidade de sua obra poética e sua sensibilidade artística e estética. Fica a retomada do amor, a haste que faltou de sua trindade:
Haste pensativa e débil da rosa que tenho na memória. Te pareces comigo na efêmera vontade de ser mais vida e menos morte. Só nos falta o amor. Grande. Sem mácula. O poema infinito para mim, a eternidade para a tua rosa.
(HILST, Hilda. “III”, Balada do Festival, 1955).
Fica a permanência da vida, imortalizada na arte, poema infinito.
Em Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), encontramos uma possível resposta à primeira questão colocada no presente ensaio, em que Hilda se pergunta: “Que canto há de cantar o indefinível?”.
[…] é tão grande a minha fome Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.
E cantemos.
valentina maciel escreve pra aprender a dizer do desassossego. mas sempre se perde no vai e vem do silêncio. poeta, autora de alípede (2024, TAUP), mestranda no POSTRAD (UnB), tradutora (de francês/inglês) e revisora das 9h às 19h.
Referências HILST, Hilda. Da poesia. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
HILST, Hilda. Pornô chic. 1. ed. São Paulo: Globo, 2014.
INSTITUTO Hilda Hilst. Disponível em: www.institutohildahilst.tumblr.com/.
DUARTE, Edson Costa. As várias faces da poesia de Hilda Hilst. Nau Literária: crítica e teoria de literaturas. Porto Alegre, v. 10, n. 2, p. 132-140, jul./dez. 2014.
AMORIM, B. N. O saber e o sentir: uma leitura de “Do desejo”, de Hilda Hilst. 2004. 180 p. Dissertação de mestrado — UFMG, Belo Horizonte, 2004.
VENÂNCIO, Romero. Hilda Hilst ou por uma poética do desejo. Errâncias do imaginário. Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras, p. 406-417, 2015.

Editorial Fazia Poesia
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