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Obrigado, Fogão

Em algumas oportunidades por aqui, falei sem nenhum pudor que não sou botafoguense por pequenos desvios do destino. O primeiro deles foi…

Flavio Braga in Um Blog de Nada · 2024-12-03 21:32 · 0 claps · 3.6 min read
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Obrigado, Fogão

Em algumas oportunidades por aqui, falei sem nenhum pudor que não sou botafoguense por pequenos desvios do destino. O primeiro deles foi, justamente na época em que comecei a acompanhar futebol, estar mais próximo de primos de segundo grau vascaínos - que estavam morando com meus avós paternos, como eu - do que de dois queridos tios irmãos da minha mãe que são botafoguenses doentes e que sempre foram muito presentes na minha educação, ou seja, o primeiro desvio tem o fator influência na equação futebolística. O segundo foi a magia de ver Dener jogando pelo Vascão na campanha do tricampeonato estadual, em 1994, ou seja, o surgimento e a identificação de um ídolo. Mas sempre mantive um carinho enorme pelo clube da Estrela Solitária, a ponto de não titubear e falar que sim, tenho um segundo time, o Botafogo. Esse sentimento ficou mais forte e bonito depois que comecei a namorar minha esposa, outra botafoguense. E assim acompanhei a montanha-russa que era torcer pelo Botafogo bem de perto. Ora, se não sou um “botafoguense puro-sangue”, digamos que acompanhei com aquele misto de método e convivência que os antropólogos fazem alguns trabalhos de campo. Sei o que comem, o que pensam, onde moram os botafoguenses — até os astros contribuíram para que fôssemos nascidos no dia 12 de agosto — porque me permiti guardar um naco do meu coração a Estrela Solitária, que vive em paz - e, nas últimas décadas até se confundiu, por conta de infortúnios semelhantes - com a Cruz de Malta no meu peito. Mas faltava alguma coisa para desafogar um pouco o coração de um dos meus tios que ainda tá vivo, da minha esposa e de alguns dos meus amigos próximos: um titulo daqueles. Quase foi ano passado, com um time que parecia sobrar. Mas tem coisas que, vocês sabem, só acontecem ao Botafogo, e o que se desenhava como O desafogo com sobras acabou deixando-os um tanto desnorteados e sem confiança, como se estivessem fadados ao inacreditável como adversário imbatível e habilidoso. Mesmo com a bola que o time desse ano joga, mais redonda que os melhores momentos de 2023, ainda deixavam os botafoguenses ressabiados. “Não dá pra confiar, só acaba quando termina”, frase que mais escutei deles até diante das goleadas e vantagens mais convincentes e avassaladoras. Eu ficava pensando, “não é possível ainda essa desconfiança toda!”, mas entendia. E no dia, na hora, nos segundos que o inacreditável ia gritar “agora sou Fogão” para provar sua lealdade como craque que tinha virado casaca para o rival, deixando de ser um adversário ruim de engolir, um pé alto com segundos de partida parecia fazer o inacreditável jogar contra novamente. Aí aquele sentimento de incredulidade apareceu. Mas vocês sabem. Há coisas que só acontecem ao Botafogo. E dessa vez o inacreditável premiou a competência de um time. E o final, todos sabem. Todos mesmo, porque o barulho e a festa foram enormes a ponto de ninguém deixar de saber o que houve na tarde do dia 30 de novembro de 2024. Não posso dizer de forma invejosa e blasé que não me emocionei, como alguns que perdem tempo com um clubismo raso incapaz de enxergar as belezas desses momentos de redenção. Fui afetado pela emoção deles tanto quanto um título do Vasco. Me senti exatamente da mesma maneira. Fiquei feliz e aliviado. Toda vez que o jogo apertava, eu repetia baixinho, “dá essa moral, Fogão. Não deixa escapar”, desejando fortemente que o Botafogo se mostrasse grande e poderoso como sempre foi, mas que nas últimas décadas sofreu com uma campanha suja de diminuição da instituição, vinda da imprensa, das torcidas adversárias, mas também de quem se disse botafoguense e promoveu sua diminuição dentro da própria instituição e no seio da própria torcida. Tudo o que eu mais desejava era que essa injustiça começasse a ser desfeita e que a felicidade tomasse o coração de pessoas muito queridas de assalto, a ponto de eu brincar com eles que não se preocupassem com excessos na comemoração, pois eu havia juntado dinheiro o suficiente para pagar advogados, multas, indenizações, subornos ou fugas do presídio - coitado de mim. Me certifiquei, um por um, se todos os meus queridos botafoguenses estavam vivos e, se vivos, se estavam prestes a ir para o hospital ou para a prisão. Escrevo esse texto na terça seguinte ao título. Muito, muito feliz de ver toda a dedicação e fé que Soraya, minha esposa, teve durante esses anos em um time tido como “causa perdida” se converter em um momento de rara felicidade, que misturou lágrimas, objetos voando pela sala, corridas sem rumo pelo corredor da casa da minha sogra e palavrões que eu não sabia da existência - talvez ela os tenha inventado. Meu tio Antônio, quando perguntei se ele tava vivo depois da final, só conseguia repetir “é foda, primo, é foda”, ou seja, faltou-lhe palavras - e quem disse que ele precisaria encontrá-las em momento tão especial? Outros amigos foram ao Engenhão, outros a recepção do time, Soraya foi nos dois e se inventasse algo hoje, em pleno expediente, ela iria. Dane-se. Cabe aproveitar o momento. O resto deixa pra depois, é merecido. E ainda deve vir mais, rodada do Brasileirão vindo aí prestes a dar mais um título pra Fogudo. Espero que estejam com o coração em dia. Quero ver vocês comemorando muito ainda!


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2026-07-17 19:04:00