Madalena
Eu nunca gostei de pombas.
Madalena
Eu nunca gostei de pombas.
Na verdade, nunca parei muito para pensar sobre elas na vida.
Eram só “coisas” que existiam na cidade.
Elas não interagiam comigo, e eu não interagia com elas, porquê sempre fui uma pessoa meio “enjoada” com higiene das mãos.
Isso tudo até eu conhecer a Madalena.
A Madalena era uma pomba que caiu do céu diretamente para uma sarjeta, na minha frente.
Eu saía do mercadinho quando vi algo caindo dos céus como pedra na água.
Chovia muito naquele dia.
Eu me aproximei e vi, ao lado do meio fio, uma pomba. Viva. Me olhando.
A última coisa que eu queria era pegar numa pomba, justamente porquê achava elas sujas.
Mas, também não poderia deixar um ser vivo largado sozinho para morte num meio fio encharcado.
Então voltei no mercadinho, pedi uns papéis toalhas e peguei ela, enrolando-a no papel, com medo dela tentar me bicar ou arranhar.
Ela não fez nada disso, só ficou me olhando, enquanto eu a levava para o meu veterinário de confiança, poucos metros de onde ela caiu.
Como esse vet não cuidava de exóticos, levei de uber a outro lugar no bairro.
E, assim, começou a saga de tentar “consertar” ela.
Ela estava bem doente e, entre consultas e internações, ela deu bastante gasto e bastante trabalho.
Mas decidimos trazer ela de volta pra casa pra tentarmos cuidar dela lá.
Nesse meio tempo, durante os dias que ficou com a gente, ela se mostrou carente por afeto e carinho na cabeça, se deu bem com as gatas e só “existiu” pela casa, como um pet qualquer.
E isso mudou toda a percepção que eu tinha sobre esses pássaros.
De “ratos com asas”, eu vi que eram seres extremamente inteligentes, capazes de reconhecer distâncias de centenas de quilômetros e memorizar rostos pra sempre — não à toa nós domesticamos as pombas para mandar mensagens durante séculos.
Elas serviram como mensageiras em dados momentos, e também foram criadas como comida, assim como galinhas atualmente.
Mas, depois de séculos, nós abandonamos as pombas à própria sorte, que se adaptaram às ruas de todas as cidades do mundo, e vivem de lixo e migalhas por aí, salvo um ou outro idoso que as alimenta.
Enfim, nós as criamos, usamos e abandonamos quando não precisávamos mais delas.
Bem injusto.
No final da história, a Madalena não aguentou e morreu, e eu levei ela numa manhã terrível para ser cremada.
Ela não ficou muito tempo com a gente, mas ficou tempo o suficiente para me fazer mudar toda a visão que eu tinha desses pássaros e pensar nela toda vez que eu vejo uma pomba por aí.
메타데이터
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