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Selic nas Alturas: o Remédio Amargo que Adoece a Economia Brasileira

Com tantas incertezas em torno da economia global, o Comitê de Política Monetária (Copom) aprovou o aumento da taxa Selic por unanimidade…

Júlia Hilsdorf · 2025-06-03 12:40 · 0 claps · 4.6 min read
#economy #economia #selic #inflação
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Wiki topics: ECO · Economy · General

Selic nas Alturas: o Remédio Amargo que Adoece a Economia Brasileira

Com tantas incertezas em torno da economia global, o Comitê de Política Monetária (Copom) aprovou o aumento da taxa Selic por unanimidade na última semana. Com um acréscimo de 0,5 ponto percentual, a nova taxa subiu para 14,75% ao ano, a maior desde agosto de 2006. Apesar de esperada pelo mercado financeiro, essa alta — a sexta seguida da Selic — representa uma desaceleração da economia brasileira.

O Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) é a infraestrutura gerida pelo Banco Central (BC) para a compra e venda de títulos públicos federais. A taxa Selic, por sua vez, é a taxa básica de juros da economia, que influencia outras taxas de juros do país, ela também é o principal instrumento do BC para controlar a inflação. Na prática, o aumento dessa taxa representa maiores juros em financiamentos, empréstimos bancários e cartões de crédito, o que, na teoria, desestimula o consumo e favorece a queda da inflação.

Mas isso só acontece na teoria, afinal, na prática, é inviável afirmar que aumentar a Selic reduziria o consumo de produtos essenciais para a subsistência humana, como alimentos e energia, que passaram por um aumento significativo nos preços devido à inflação. E por falar em inflação, apesar da nova taxa de 14,75%, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — utilizado pelo BC para medir a inflação a partir da média do consumo básico do brasileiro — acumulado nos últimos 12 meses é de 5,53%. Acontece que a meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC é de 3%, podendo ser ultrapassada, no máximo, por 1,5 ponto percentual.

A partir dos dados anteriormente apresentados, é possível constatar que, mesmo com o aumento da taxa Selic como medida de controle inflacionário, o aumento dos preços de consumo segue acontecendo no Brasil. Dessa forma, as recentes decisões do Copom tem se provado um atraso para a economia nacional, já que reduz investimentos, aquisição de crédito e o consumo como um todo que, por sua vez, também impacta no desenvolvimento do PIB do país.

Quando a Selic sobe, os bancos também aumentam as taxas de juros para empréstimos e financiamentos, tornando o crédito mais caro tanto para consumidores quanto para empresas. Esse fator se torna ainda mais grave se analisarmos a composição econômica do Brasil. De acordo com dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país possui 14,6 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), o que representa um crescimento de 11,4% em relação ao ano anterior.

Isso demonstra que não apenas o consumidor é prejudicado pelo aumento da Selic, como também um grande número de microempresários que já possuem um faturamento muito inferior à grandes empresas — máximo de 81 mil. Ainda ligado a essa questão, vem a distribuição dos setores em que esses pequenos negócios se enquadram, já que, como aponta o IBGE, cerca de 51,5% atuam no 3º setor.

Com a redução de consumo gerada pelo aumento dos preços do mercado, a população passa a selecionar e redistribuir seus gastos, optando por itens de maior necessidade no cotidiano, como alimentos, produtos de limpeza e higiene pessoal, além de água, luz, gás e internet. Por sua vez, com os gastos apertados nessa área, o consumidor deixa de contratar os serviços prestados por essas microempresas, que correm o risco de não fechar as contas do mês, prejudicando o crescimento empresarial.

Não só isso, mas a diminuição da demanda como um todo, resulta diretamente na redução da produção de uma empresa e, nesse caso, não estamos falando apenas de pequenos negócios. Isso também pode significar a necessidade de corte de gastos que, em outras palavras, quer dizer demitir funcionários. Com o aumento do desemprego, vem a falta de poder aquisitivo para consumo, e assim a economia não gira. Assim, torna-se notável como o mercado fica preso em ciclo sem fim graças ao descontrolado aumento da taxa Selic.

Ainda pensando em grandes setores econômicos que sofrem com essa crescente, é inevitável não mencionar aqueles que funcionam a partir de créditos bancários, como o automobilístico e imobiliário. Com as taxas infladas, se torna inviável o financiamento de veículos e imóveis, estagnado dois dos principais setores da economia brasileira. Juntos, esses setores faturaram R$528,2 bilhões em 2024, representando aproximadamente 4,5% do PIB brasileiro do mesmo ano. A nível de comparação, o setor de maior faturamento além desse é o de serviços, já abordado anteriormente, com 3,7% do PIB do país.

A indústria automotiva, por exemplo, foi responsável pela fabricação de 2,54 milhões de veículos no ano passado, o que representa um crescimento de 9,7%. De acordo com dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), este é um importante setor industrial nacional pois é responsável por gerar uma grande quantidade de empregos, desde a produção de veículos até a venda e manutenção; além disso, a produção de autopeças gera uma alta demanda por matérias-primas, como aço, borracha e plástico, e também por tecnologias e serviços especializados.

Já o mercado imobiliário, influencia não só o crescimento econômico, como também o desenvolvimento urbano e o bem-estar social. Assim como o setor automobilístico, este também está envolvido com diversos segmentos da economia brasileira, como o da construção civil, indústria de materiais, comércio e serviços. Este setor também funciona como um indicador do desempenho da economia, pois a demanda por imóveis está relacionada ao crescimento econômico, à confiança dos investidores e à renda da população.

Diante de cenários em que o crédito aumenta, as pequenas e grandes empresas não só faturam menos, como também são forçadas a postergar ou cancelar investimentos, o que também impacta o crescimento econômico. E com a desaceleração da atividade econômica, o PIB também é impactado negativamente, passando por um processo de crescimento mais lento. Em casos de longos períodos de duração da política de juros altos, ele pode sofrer até mesmo uma recessão.

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e Banco Central do Brasil

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e Banco Central do Brasil

Analisando a relação estabelecida no gráfico, é possível observar que, entre 2014 e 2019, o PIB brasileiro foi diretamente impactado pela variação da Selic, com destaque para os anos de 2015, quando o aumento da Selic chegou a quase 2,5%, enquanto o PIB despencou para aproximadamente -4%; e de 2017, ano no qual as taxas diminuíram em mais de 5 pontos percentuais e o PIB voltou a fechar com saldo positivo. Também é relevante mencionar que, apesar de todos os prejuízos, o controle da Selic foi bem aplicado no período pós-pandêmico (2021), já que, mesmo com o aumento drástico de 7,5%, o PIB atingiu seu maior patamar no período analisado.

Em suma, a taxa Selic alta, embora possa parecer uma medida eficaz para conter a inflação, ainda representa um custo elevado para o crescimento do país, especialmente quando a economia já está passando por desaceleração. É como um remédio que, se usado de forma excessiva, pode gerar resistência ao organismo e, consequentemente, piorar os sintomas a longo prazo.


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