Ver e não saber chamar
— um tanto de palavras para no fim dizer do quê e do quanto não sei.
Ver e não saber chamar
— um tanto de palavras para no fim dizer do quê e do quanto não sei.
A certa altura da insondável transformação das coisas, esse ser que agora é cada um desses que metido num coletivo passamos a chamar de nós, como os outros seres, de tanto cruzar, deu nisso: um cérebro enorme e complexo, guardado num corpo frágil, que o torna não apenas capaz, mas lhe dá a dorida necessidade de dar nome às coisas. Expressar-se, ou comunicar-se, ao que parece, todo ser o faz, gostemos ou não de dividir com eles o panteão. A diferença, parece — e só parece, por enquanto, sendo possível que tenhamos que engolir uns sapos a mais em algum tempo — é que nossa capacidade e necessidade nos aumenta os embaraços, caso entendamos em termos evolutivos e vitais o papel da comunicação: comer e amar, com tudo que aí se resguarda, incluindo formas de luta e de morte.
Na minha limitação intelectual, moderna e ocidental, tomo pelo mais popular exemplo elucidativo da existência dessa capacidade e necessidade o de Adão, no tal Éden, a nomear as coisas que, segundo a lenda, era o primeiro que via. Algumas dúvidas surgem a partir daí, e não são de ordem teológica, nem se trata de ser veraz ou não o relato. Me interessa apenas o fato de que tal necessidade, de tantas outras possíveis e prementes, é a escolhida para ocupar numa curtíssima narrativa fundante um lugar. Que nomes teria dado Adão às coisas que viu? Em que língua? O que viu? Quais foram os critérios que usou para nomear, em cada caso? Ainda existe pela face da Terra algo que viu e que vemos também; algo que demos nome, outro nome, a que deu ele algum? De sua língua e do nome que deu, há em nossas palavras, nas palavras de alguma língua que há no mundo, algum vestígio que seja? Não sei. Talvez haja quem saiba, mesmo que não desconfie saber, ou quem sabe perdemos tudo isto junto do paraíso, não fazendo mais sentido os nomes paradisíacos fora desse rincão — o que torna não mais do que uma expressão de saudosismo chamar modernamente a bananeira de Musa paradisíaca.
Recorramos a um exemplo mais próximo — não sei se estou certo em dizer mais histórico, mas certamente não menos lendário no que tange ao imaginário quanto aos povos e ao uso das línguas. Os que primeiro pisaram por aqui, nesses fantásticos limites que ainda mais fantasiosamente chamamos agora Brasil, provavelmente descendo a partir do norte, da hoje acuada amazônia brasileira — segundo li no livro do Bernardo Esteves — foram afinal os que primeiro viram, com a necessidade de nomear, tudo ou muito do que havia, e que agora provavelmente temos em pequena parte por aqui, e a quê damos outros nomes. Um livro que descobri recentemente, publicado em 1905, da autoria de José Barbosa Rodrigues, nos presenteia com uma profunda demonstração do quê, de como e a quê os remanescentes dos povos originários da, em des-favor do Brasil, então extinta Pindorama, nomeiam os habitantes do reino vegetal que foram e são seu chão, suas colunas e paredes, seus tetos, casas, escolas, templos, o mundo da vida enfim. Eis um belo trecho, dos muitos que há, da obra que nos lega o José:

Tratando ainda dessas coisas, referências, textos, necessidades e incompetências, há o trecho com o qual se pode esbarrar do livro “A cidade e as serras”, do Eça, quando o Jacinto, figura cômico-trágica, paspalhona em sua altivez ora positivista, ora romântica — e não seria uma e outra o mesmo? — perturbado em sua recém descoberta ignorância, diz ao Zé Fernandes da tortura que é andar entre as árvores e não saber por que vulgo chamar cada uma delas.
“Galgava os cabeços correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca contemplados de um Mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os nomes das árvores, da mais rasteira planta brotando das fendas dum socalco… Constantemente me folheava como a um Dicionário Botânico.
— Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquele senhor além é um amieiro ou um sobreiro…
— É um azinheiro, Jacinto”.
Minha dor é, constantemente, a mesma. Lamentei ver e não saber como chamar qualquer ser vegetal, e quase todo ser animal, com o qual passei a me deparar e conviver no lugar onde hoje vou transitando, plantando, manejando, colhendo, agora que já sei dar um nome ou outro, mas quando ainda, por ignorância, esquecimento ou descuido, não sei nomear um tanto. O mais recente caso é o das abóboras. Na entrada do outono desse ano, tendo já colhido os girassóis e os milhos, que ocupavam quase toda área plantada, ficando apenas a mandioca, alguns quiabos, um inhame ou outro que vingou, decidi pôr no solo algumas sementes de abóboras criolas que havia comprado no ano passado, pela internet, de um guardião de sementes. As tais abóboras, por serem criolas, não são as mesmas que comumente encontramos em mercados, e por isso levam outros nomes. Descuidado, com uma variedade grande nas mãos, fui colocando as sementes sem demarcar qual em que lugar. E depois, com os pacotinhos vazios nas mãos, sem que tivesse o recurso visual para saber a aparência que teria cada abóbora daquela, que levava cada uma o seu nome, vi crescerem as ramas, se darem as flores, se formarem os frutos, sem que soubesse dizer quem era quem. “Depois”, digo, é agora mesmo. As abóboras estão lá, se espalhando pelo chão, umas até penduradas em pés de de guandu que as avizinham, sem que eu saiba como chamá-las. Daí eu tomei uma decisão, entendendo que, sabendo nós que elas não nos oferecem risco algum e que não passo de um lançador de sementes num pequeno quintal, posso lhes dar o nome que eu quiser, preferindo então, por seus atributos físicos e seus comportamentos vegetais, atribuir a familiaridade com personagens com os quais convivi por mais tempo, em páginas de livros, do que com os vegetais sobre o campo ou sobre a mesa. Por isso, uma das abóboras em questão decidi chamar “Nestor”. Atarracada, densa, porém discreta e harmônica, me pareceu aproximada em caráter e fisionomia ao velho conselheiro dos reis de Homero.
Ainda não a provei. Pode ser que decida por outro nome conforme seus usos e sabor. Se for doce, mas tenra, fico com Nestor. Se não, me virá algum outro.
Pablo Grillo
메타데이터
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