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PSICOLOGIA CLÍNICA É CIÊNCIA? COMO FUNCIONA?

Recortes de alguns dos principais eventos históricos da psicologia clínica, para explicitar sobre seu funcionamento e cientificidade.

Thales Xatara · 2025-04-22 17:17 · 3 claps · 6.9 min read
#ciencia #psicologia #pbe #terapia #historia
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PSICOLOGIA CLÍNICA É CIÊNCIA? COMO FUNCIONA?

Recortes de alguns dos principais eventos históricos da psicologia clínica, para explicitar sobre seu funcionamento e cientificidade.

Nossa cultura produziu e promoveu a ideia de que a psicologia não é uma prática científica, ou que não pode ser científica por lidar com a subjetividade do ser humano. Entretanto, essa ideia é falsa, e para entender um pouco do que é ciência e do que faz a psicologia clínica ser uma ciência, precisamos entender um pouco da história da psicologia clínica, e um mínimo do mínimo de metodologia científica, e é isso que esse texto propõe a explicar.

A Psicologia atualmente está no campo das ciências da saúde.

A Psicologia atualmente está no campo das ciências da saúde.

Apesar de haver um entendimento e tratamento cultural sobre as enfermidades mentais, desde o século I, a psicologia surge como ciência somente no século 19. Quando foi definitivamente separada da filosofia, e passou a ser estudada por métodos diferentes, que produzem resultados melhores. Todavia, nesse contexto estamos falando do laboratório de psicologia experimental de Willhem Wundt, em Leipzig na Alemanha, em 1879. E isso foi expandindo para o estudo da inteligência e de outros aspectos do que chamamos de “mente”.

Wundt e colegas em seu laboratório

Wundt e colegas em seu laboratório

Em relação á clínica, tudo começou com um médico, Sigmund Freud, que fundou a Psicanálise em 1900, no início do século 20, com seu texto “A Interpretação dos Sonhos”. Freud elaborou uma forma do ser humano funcionar, e apesar de suas pesquisas conterem diversos erros metodológicos (o que prejudica a acurácia de seus resultados), seu trabalho foi de suma importância para o surgimento do que chamamos de psicoterapia individual. Uma das principais e mais irônicas contribuições do célebre psicanalista foram as reações á psicanálise. Destaco aqui, as que mais se interessaram pelo estudo com rigor metodológico (científico) do funcionamento humano, e nossas dificuldades.

Sigmund Freud — Criador da Psicanálise

Sigmund Freud — Criador da Psicanálise

A história da análise do comportamento, considerando suas vertentes e críticas, é ampla e complexa, o que pretendo nesse texto é um recorte, para um entendimento acerca do surgimento da psicologia clínica como ciência, e irei expandir nesses movimentos históricos tangenciais (ainda que paradoxalmente centrais) em outro momento. Burrhus F. Skinner foi um psicólogo experimental, mas diferente de Wundt, Skinner (influenciado pelo behaviorismo e teorias comportamentais de sua época) quis estudar o comportamento observável do ser humano, o que chamou de comportamento operante, e contrapunha essa ideia á ideia de Freud, o qual afirmava que o “inconsciente” determinava nossos comportamentos e pensamentos, e poderia ser acessado por associação livre.

B.F. Skinner

B.F. Skinner

Skinner propõe que o ser humano se comporta, tudo que fazemos são comportamentos, e tais comportamentos são influenciados pelo ambiente do qual estamos vivendo, então, em certos ambientes, alguns comportamentos são selecionados, e tem uma probabilidade maior de ocorrência, como por exemplo, em um tribunal, é incomum (e até atrai atenção) se formos vestidos com roupas casuais, e utilizarmos a mesma linguagem que utilizamos na rua, com nossos amigos próximos e familiares por exemplo.

Entretanto Skinner não via aplicações clínicas de suas ideias. O que foi desenvolvido posteriormente por outros psicólogos, como Ogden Lindsley, que, nos anos 50 utilizava-se da análise operante do comportamento para propiciar novos comportamentos em pacientes institucionalizados. E posteriormente, outros psicólogos e universidades passaram a utilizar e ensinar a análise do comportamento para a solução de dificuldades culturalmente relevantes para o ser humano.

Fazendo outro recorte, porém conectado com esse contexto dos estudos em análise do comportamento, nos estados unidos, o psicanalista Aaron Beck, nos anos 60, insatisfeito com a psicanálise, decide testá-la, e conduz um dos primeiros ensaios clínicos randomizados em psicologia (uma metodologia de estudo que separa os sujeitos do estudo em 2 grupos, um que recebe o tratamento e outro que recebe outro tratamento, ou mesmo nada), do qual foi o início do desenvolvimento da psicologia clínica cognitiva, que, diferentemente da Psicanálise e da Análise do comportamento, estava preocupada em analisar como as pessoas pensam, e como esse pensamento pode levá-las a sofrer mais com um problema, ou mesmo (com o manejo correto), sofrer menos com o problema, em uma perspectiva de pensar de forma diferente, e isso reflete em como sentimos e pensamos, então pensamento, comportamento e emoção estão todos interconectados, proposta essa, que é diferente na análise do comportamento, que foca muito mais na influência do ambiente para a modificação de um comportamento.

Aaron T. Beck — Criador da Terapia Cognitivo-Comportamental

Aaron T. Beck — Criador da Terapia Cognitivo-Comportamental

Dentro desse novo cenário, de diversas abordagens psicológicas surgindo e se desenvolvendo, um cientista chamado Hans Eysenck, em 1952, publica um artigo dizendo que todas as formas de terapia, tem o mesmo efeito, portanto, não mudaria nada em qual abordagem escolher, todas levam ao mesmo ponto, a melhora dos sintomas do paciente atendido. Isso ficou conhecido como “veredito de Dodô”, fazendo uma referência á Alice no país das maravilhas, onde o personagem de um Dodô diz em uma competição de corrida, que todos são merecedores de prêmios.

Esse estudo de Eysenck, foi como uma bomba de hidrogênio no campo dos cientistas e psicólogos da época, e causou diversas reações diferentes, desde um desdém pela pesquisa até uma completa negação dos eventos. Entretanto, novos estudos foram conduzidos nos anos que se seguiram, e até mesmo cientistas encontraram erros metodológicos da pesquisa de Eysenck.

Com esse cenário em mente, vamos fazer outro salto temporal, para 1993, quando a Associação Americana de Psicologia (APA), cria a Divisão 12 (Div-12), da qual tinha como objetivo disseminar para a psicólogos, estudantes de psicologia, psiquiatras e para a população geral, uma forma de estudar um tipo de tratamento, que deveria estar descrito em um manual, ser direcionado á um diagnóstico, e ter estudos experimentais, como o Ensaio clínico randomizado por exemplo. E esses tratamentos ficaram conhecidos como tratamentos empiricamente sustentados (TES).

Em 2005, a APA criou uma força tarefa que publicou em 2006 um artigo, evidence-based practice in psychology, e assim surge a Prática Baseada em Evidência na Psicologia. Todo o contexto anterior levou á essa forma de tratar os pacientes na psicologia, é a a melhor forma de tratamento que foi criada até hoje, pela PBE não há preferência de abordagens ou teóricos. A PBE é composta por 3 pilares fundamentais, que funcionam sempre em conjunto, se um desses não for “cumprido”, esse profissional de saúde não estará fazendo prática baseada em evidências.

Tais pilares são a melhor evidência científica disponível (estudos metodológicos rigorosos, como ensaios clínicos randomizados, manuais protocolizados, revisões sistemáticas e guidelines internacionais, por exemplo), o contexto cultural do paciente, pois é o paciente que é o expert em sua própria vida, e a psicoterapia é sempre um trabalho com muito cuidado, respeito e feito de forma colaborativa, em conjunto com o paciente, e por fim, o próprio clínico precisa ter o estudo teórico e técnico por trás de tudo que for decidido para a intervenção, sempre com a ideia de melhorar a vida do paciente, e não inseri-lo em um meio de produção capitalista.

Por fim, a PBE é a forma encontrada até hoje para a melhor condução do paciente, com a finalidade de melhorar sua vida, e ensiná-lo a lidar com suas dificuldades, de uma forma respeitosa, ética, responsável e científica! Em todos os pilares da PBE, a subjetividade do paciente é trabalhada, tanto manejada de forma adequada nos estudos consultados, quanto considerada pelo clínico para a aplicação da intervenção, além disso frequentemente a subjetividade do paciente faz parte da própria intervenção, como acontece no questionamento socrático, e exame de evidências da Terapia Cognitivo-Comportamental, e a desesperança criativa e coleta de valores pessoais na Terapia de Aceitação e Compromisso, sendo estes somente, alguns exemplos, dessa subjetividade (e relação terapêutica) fazendo parte do tratamento.

P.S → Sobre as abordagens psicológicas, o psicólogo PBE vai frequentemente consultar a literatura científica disponível, em sites e buscadores de estudos globais especializados, e analisar se esses estudos (que estão utilizando os TES para a condução dos Ensaios Randomizados e demais documentos científicos como Revisões Sistemáticas e Guidelines) ajudam com as dificuldades dos pacientes, e essa condução, geralmente recai sobre as terapias que produziram mais estudos com excelentes qualidades metodológicas, e como explicado durante o texto, esses tratamentos comumente são a análise do comportamento (AC), a terapia cognitivo-comportamental (TCC), a terapia de aceitação e compromisso (ACT), a terapia comportamental dialética (DBT) e em alguns casos a terapia do esquema (TE). Então sim! A psicologia é uma ciência, e possui diversas intervenções que foram testadas rigorosamente em diferentes contextos, e com diferentes sujeitos, em diferentes culturas, para promover o melhor tratamento possível para quem encontra-se em sofrimento.

Referências:

APA PRESIDENTIAL TASK FORCE ON EVIDENCE-BASED PRACTICE. Evidence-based practice in psychology. The American psychologist, v. 61, n. 4, p. 271–285, 2006.

Beck, A. T. (1970). Cognitive therapy: Nature and relation to behavior therapy. Behavior therapy, 1(2), 184–200.

CREWS, F. Freud: The making of an illusion. London, England: Profile Books, 2020.

Hayes, S. C. (2004). Acceptance and commitment therapy, relational frame theory, and the third wave of behavioral and cognitive therapies. Behavior Therapy, 35, 639–665.

SCULL, A. Loucura na Civilização: Uma história cultural da insanidade. [s.l.] Edições Sesc, 2023.

O’Donohue, W., & Masuda, A. (Eds.). (2022). Behavior Therapy: First, Second, and Third Waves. Springer Nature.

LEONARDI, J. L. Métodos de pesquisa para o estabelecimento da eficácia das psicoterapias. Interação em psicologia, v. 21, n. 3, 2017.

LEONARDI, J. L.; MEYER, S. B. Prática Baseada em Evidências em Psicologia e a História da Busca pelas Provas Empíricas da Eficácia das Psicoterapias. Psicologia Ciência e Profissão, v. 35, n. 4, p. 1139–1156, 2015.

Kazdin, A. E. (1978). History of behavior modification: Experimental foundations of contemporary research. Baltimore: University Park Press.


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