O medo de ter medo
O medo de ter medo

Foto: Reprodução
Acabei de ler Depois A Louca Sou Eu, da incrível Tati Bernardi. E mesmo de um jeito muito bem humorado e leve, o tema do livro ainda é pesado: o medo. Nas páginas, a autora fala dos seus medos de andar de avião, de morrer, de ficar doente e como combate tudo isso se entupindo de remédios. "Pensei que era amor. Era Rivotril". Melhor frase do livro. Óbvio que ela faz isso de uma forma exagerada e caricata, que é seu estilo de escrita. Sei que meu blog com recomendações de leitura é em outro lugar, mas esse aqui vale a dica não importa onde.
O negócio é que esse livro me fez pensar. Já percebeu como a gente sempre está com medo? Viver é uma cadeia de medos, incertezas e inseguranças. E quando se supera um, logo vem outro pra substituir. Tipo a Ana Furtado nos programas da Globo. Por que vivemos com tanto medo? Por que ele tem sempre que estar presente nas nossas vidas?
Engraçado que quando se questiona dessa forma, o medo sempre tem essa conotação negativa. Mas já pararam pra pensar no quanto o medo pode nos tirar da zona de conforto? Às vezes nós mesmos vamos de encontro ao medo. Quem nunca se tremeu inteiro numa montanha-russa? Ou assistiu a um bom filme de terror para tomar uns sustos? Esses pequenos exemplos nada mais são que provas cabais de que precisamos sentir medo na vida. O medo é um catalisador. Te expulsa do estupor, te chacoalha e te faz mover. Se eu não tivesse sentido medo, talvez não estivesse onde estou hoje. Quando ainda morava em Goiânia, saí do mercado de agências de publicidade. Queria ter uma experiência empresarial. E foi péssimo. Trabalhei numa empresa familiar super quadrada de incorporação e construção. Sentia falta do ambiente descolado e moderno das agências. Tive medo de nunca mais conseguir voltar. Foi quando tomei a decisão de me mudar para São Paulo e começar minha pós em Redação. Tive medo? Tive. Mas sem ele, talvez eu ainda estivesse em Goiânia. Com medo, me mudei pra cá, depois para os Estados Unidos, fiz comerciais para grandes marcas e vim parar na única agência com um Grand Prix em Film do Brasil.
É claro que em um primeiro olhar, o medo assusta. E é muito difícil termos o discernimento de ver aquela situação como algo positivo. Por isso é tão importante nos conhecer. De sabermos quem somos. É fundamental termos consciência do que queremos pra nós. Porque quando essas situações acontecerem, você tem a capacidade de tomar as melhores decisões para si. Abrace o medo e vai.
Quando morei em Miami, dividi apartamento com uma menina que hoje é uma grande amiga (beijo, Pri!). Mas ela me ensinou uma lição importante sobre nosso estado mental: o que temos na nossa mente é o que teremos fora dela também. Com isso, aprendi a força do pensamento positivo e como o medo pelo medo contribui para trazer negatividade para nossa vida. Somos um resultado direto do que acreditamos e desejamos. Mas insistimos em criar "projetinhos" em nossa cabeça que servem como obstáculos para conseguirmos o que desejamos. Sou canceriano e especialista em fazer tudo acontecer com muito mais dramaticidade dentro da minha cabeça do que realmente seria necessário. E é claro que nem sempre podemos controlar tudo isso. Muitas vezes, nós mesmos nos boicotamos, sem ao menos tentar. Porém, a sensação de que pelo menos nossa parte foi feita reconforta. Normalmente, aquilo que mais queremos é aquilo que mais nos dá medo. Mas acredite: a possibilidade das coisas acontecerem do jeito que você deseja é maior quando você não tem esses obstáculos que nós mesmos criamos.
E sabe o nome que o dicionário dá a esses obstáculos? Medo. Hoje em dia, é tão fácil perceber o quanto as pessoas estão amedrontadas. Estão com medo de não serem aceitas da forma que são. Elas têm medo de se relacionar, de criar ou de desfazer vínculos. Medo da ausência. De repensar seus conceitos. Do amor. Da perda. Do depois. De se frustrarem. De serem julgadas. Medo da dor. As pessoas têm medo até de ter medo. Com isso, deixam de viver. E na mesma moeda que o medo te impulsiona, ele também pode te travar. O medo te faz ansioso. E quando isso controla seu emocional, sabemos que os resultados podem ser desastrosos. Até extremos, como a síndrome do pânico. Dito isso, mais que nunca, precisamos usar o medo em nosso favor. Porque ele sempre vai estar ali nas nossas vidas.
Quando escrevo uma crônica com essa visão sobre o medo, posso parecer o cara mais corajoso do mundo. Olha lá, o cara que teve a coragem de ser ele de verdade. De sair da sua cidade, de sair de perto da sua família. Olha lá, o cara que conseguiu tudo aquilo que quis para si. Vai por mim: não é bem assim. Sou um medroso. Não tenho o menor medo de assumir minhas fraquezas e vulnerabilidades. Tenho tantos medos quanto qualquer outra pessoa. Só me esforço para que eles não sejam a maior parte do todo chamado João que eu sou. Só que nem sempre conseguimos fazer isso sozinhos. Não hesite em procurar ajuda, se for o caso.
Viver dá medo. Normal. A página em branco, por exemplo, é um dos medos que enfrento diariamente. Todo os dias, tenho que preencher páginas e mais páginas com textos e ideias. Minha vida depende disso. Meu trabalho depende disso. Cá entre nós, pelo menos essa página aqui, sobre o medo, não está mais em branco e vazia. Medo vencido. Que venha o próximo.

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