Um amplexo de beleza e salvação
Crônica sobre a obra do pintor recifense Rafael Furtado.
Um amplexo de beleza e salvação
Crônica sobre a obra do pintor recifense Rafael Furtado.

As almas, não, as almas vão pairando / e, esquecendo a lição que já se esquiva, / tornam amor humor, e vago e brando / o que é de natureza corrosiva.
— Carlos Drummond de Andrade
Sempre acreditei que a pintura — e a arte, em geral — fosse a expressão de uma concepção pessoal de mundo do artista; embora seja recorrente a um pintor, escultor ou gravurista eleger um motivo arbitrário na realidade visível e recriá-lo no seu próprio suporte, como um coelho, na pintura, ou um homem, na escultura. Porém, na luta constante com a valia ou desvalia desta ideia, volta e meia encontro alguns exemplos que me fazem crer novamente na minha concepção da Arte.
O primeiro contato que tive com a obra do pintor e fotógrafo Rafael Furtado, deu-se através de uma série de telas à óleo, chamada “Amplexus”. As seis telas, cujo tema principal é o abraço, constituem, para mim, uma verdadeira manifestação de fé no amor humano por parte do artista. Da complementaridade indireta e suave do primeiro amplexo, em tons roxeados e alaranjados sobre o fundo verde, o contato dos corpos, nas telas seguintes, passa por uma variação de tons: amarelados ocres, rosas discretos, o verde-água e a presença constante do azul — cor que, assim como o roxo e o rosa, é marcante em sua estética.
O último amplexo, porém, introduz uma ideia distinta: a união carnal, evocada por Rafael, dá-se com a representação de dois corpos, de frente um ao outro, pintados ambos num tom predominantemente descarnado. Da complementaridade à união total da carne, os “Amplexos” nos revelam momentos de intimidade e amor humano — amor além do erótico, além do concupiscível.
Os “Amplexus” são, como a sua obra mais recente, aquela que parece encontrar perfeita sintonia com os seus esforços passados. Em sua experimentação de cores, na série de têmpera sobre papel jornal, “Linhas em Conflito”, encontramos o roxeado, o rosa, o azul-escuro, o amarelo e o verde-água que infundiriam vida aos “Amplexus”. Por outro lado, a sua capacidade de expressão parece-nos algo natural. As séries “Medo”, “Angústia” e “Expressões” (óleos e pastéis), ainda que partes de uma produção temporalmente distante, denotam a intensidade de um artista que não refreia a sua capacidade de comunicar os momentos de arroubo dos nossos sentimentos e paixões.
A estética de Rafael Furtado, como o veículo perfeito dessa enorme força expressiva, transita entre o cubismo picassiano, o expressionismo de Egon Schiele (cujos nus femininos são repercutidos nos “Explicitus”, a série de nus femininos do pintor recifense) e o fauvismo mais desabrido. O seu painel “Dias Difíceis” lembra-nos “Guernica”; apenas deslocando a desolação espanhola de 1937 para a desolação mundial do ano de 2020. A inspiração cubista, porém, torna-se mais evidente na sua série “O Beijo”, de 2013 — talvez a antecessora estética e espiritual dos “Amplexos”. Lá estão a paleta dos abraços e a sua ideia da intimidade amorosa.
É evidente que a vastidão de um artista passa pelo seu conhecimento e pela sua meditação pessoal no legado dos seus antecessores. Rafael Furtado não se nega a retomar a estética dos antigos. A sua sensibilidade para recriar uma imagem religiosa à maneira de El Greco, como se vê na tela “Virgem Maria”, é apenas a continuidade de uma busca pela humanidade em meio aos sofrimentos da nossa espécie — sofrimentos que nos encontram através da dor, da angústia e da paixão. E qual seria o símbolo maior desta busca senão o próprio São Sebastião?
Tema famoso entre os maneiristas e barrocos, o martírio do santo de Narbona encontrou uma nova interpretação na paleta do artista recifense. A expressão quase contente do seu primeiro santo, sob o fundo de cores vivas e alegres, contrasta com a circunspecção do seu segundo santo, numa tela inteiramente constituída de cinzas. O seu terceiro Sebastião possui, nas cores de Rubens, uma feição gauginiana, com os cabelos jogados para trás, enquanto o seu último santo transmite a verdadeira agonia da mortalidade. Esse tipo de variação, aliado à expressividade, faz de um artista local o intérprete mais habilitado da Humanidade.
Um dos maiores trunfos de Rafael Furtado é o seu uso pessoal da cor. Dentre as últimas telas do artista, a série “Girassóis Roxos” erige-se como uma verdadeira fonte de beleza na simplicidade das plantas vangoghianas. Rafael recriou a natureza dos girassóis, não em um esquema naturalista, mas propriamente expressionista, fauvista, pessoal e inesquecível. De frente ao seu “Girassóis Roxos IV”, cuja composição do fundo se vale da minha combinação favorita de cores, posso suspeitar que o pintor tenha se enganado ao nomear uma de suas telas recentes de “A Morte da Pintura”.
Ao contrário, a arte de Rafael Furtado só pode me fazer acreditar que a pintura está mais viva do que nunca. Tudo o que compõe o universo estético do artista passa pelo sentimento verdadeiro de amor à humanidade. O seu trabalho premiado, no jornalismo fotográfico, pode comprová-lo: Rafael sempre esteve envolvido com os medos, as misérias, os desejos e a condição real do homem neste mundo. Aplicar a cor sobre ela, transfigurá-la em formas artísticas, é apenas parte do trabalho de um artista sincero e de luz própria, pois, se o mundo não oferece grande saída para os nossos tormentos, Rafael Furtado ainda pode nos oferecer um amplexo de beleza e salvação.
Pedro Crezano-Ramos
Resende, 05 de abril de 2026
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