← Back to list

Duas maneiras de usar o amanhã para pensar o hoje

Star Trek, The Expanse, and the long human tradition of examining ourselves on extraordinary stages.

Minie & Max · 2026-01-19 12:58 · 19 claps · 5.9 min read
#ficção-científica #science-fiction #star-trek #the-expanse #cultura-e-sociedade
Open on Medium ↗
Wiki topics: CRY · Crypto & Web3 🔒 · Cybersecurity 🔬 · Science · General ✍️ · Writing & Creative

Duas maneiras de usar o amanhã para pensar o hoje

Star Trek, The Expanse, and the long human tradition of examining ourselves on extraordinary stages.

By Bira Costa 😎 & ChatGPT 🤖

Mudam os palcos, mudam os deuses — os dilemas humanos permanecem.

Mudam os palcos, mudam os deuses — os dilemas humanos permanecem.

Há uma crítica recorrente — quase automática — dirigida à ficção científica: a de que certas obras “ignoram a ciência”. Poucas franquias sofreram tanto com essa acusação quanto Star Trek. Teletransporte, motores de dobra, replicadores, tradutores universais, gravidade artificial sem rotação ou aceleração, amortecedores inerciais capazes de anular Newton com um interruptor. A lista é longa, e os “absurdos” são conhecidos.

Mas essa crítica, embora tecnicamente correta em muitos pontos, erra o alvo. Star Trek não ignora a física por desconhecimento ou descuido; ela a suspende deliberadamente. E essa suspensão não é gratuita. Ela serve a um objetivo narrativo preciso: preservar um ambiente em que problemas humanos ainda sejam reconhecíveis, discutíveis e dramaticamente relevantes.

Em contraste quase exemplar, The Expanse parte da decisão oposta. Ali, a física não é pano de fundo decorativo, mas força estruturante. Corpos se deformam em microgravidade, aceleração dói, ar e água são poder político, e a geografia orbital molda identidades e ideologias. O resultado não é “mais científico” por virtude moral, mas radicalmente diferente no tipo de história que pode ser contada.

Este ensaio propõe uma leitura mais ampla — e, talvez, mais fértil: Star Trek e The Expanse são duas maneiras legítimas e complementares de usar o futuro como palco para discutir problemas humanos. E, mais ainda: ao fazerem isso, ambas se inscrevem numa tradição cultural muito mais antiga do que costumamos admitir.

O futuro como palco — e não como previsão

Antes de tudo, é preciso afastar um mal-entendido comum. A boa ficção científica não é futurologia. Ela não existe para prever o que virá, mas para criar ambientes experimentais nos quais possamos observar o humano sob condições diferentes das atuais.

Nesse sentido, o futuro funciona como:

  • distanciamento emocional,
  • amplificador de tensões,
  • laboratório moral.

O amanhã, aqui, não é destino. É dispositivo narrativo.

Essa ideia não é nova. Ela é antiga. Muito antiga.

O teatro grego: quando os deuses eram a tecnologia narrativa

No teatro grego do século V a.C., os autores também não buscavam realismo no sentido moderno. O universo trágico era permeado de deuses:

  • forças superiores,
  • imprevisíveis,
  • capazes de suspender regras,
  • interferir no curso dos acontecimentos,
  • impor destinos.

Zeus, Atena, Apolo ou Dioniso não estavam ali para serem explicados. Ninguém perguntava “como” os deuses funcionavam. Eles existiam como operadores narrativos.

O objetivo não era discutir teologia, mas:

  • culpa,
  • responsabilidade,
  • orgulho (hybris),
  • limite humano,
  • escolha diante do inevitável.

Os deuses criavam um palco extraordinário para colocar o humano sob pressão máxima. O conflito nunca era divino. Era sempre humano.

Tecnologia como nova mitologia

A ficção científica moderna herdou exatamente essa função. Mudaram os nomes. Mudaram os figurinos. Mudaram os cenários. Mas a estrutura profunda permanece.

Hoje, os deuses:

  • não descem mais do Olimpo,
  • não falam em versos,
  • não empunham raios.

Eles aparecem como:

  • tecnologias quase onipotentes,
  • sistemas incompreensíveis em sua totalidade,
  • forças que suspendem limites conhecidos.

Teletransporte, dobra espacial, replicadores, portais alienígenas — tudo isso cumpre o mesmo papel funcional que os deuses cumpriam no teatro grego.

Não estão ali para serem explicados. Estão ali para pressionar escolhas humanas.

Nesse sentido, a frase soa inevitável — e verdadeira:

Os nossos deuses são as nossas naves espaciais.

O pacto de Star Trek: tecnologia forte, consequências fracas

Com isso em mente, Star Trek se torna mais fácil de entender — e mais difícil de descartar.

Desde o início, a franquia estabelece um pacto claro com o espectador: certas tecnologias existem, funcionam e são confiáveis. Elas não são tema de investigação. São condições de contorno do universo narrativo.

O teletransporte, por exemplo, não é apenas tecnologicamente improvável; ele esbarra em impossibilidades estruturais da física conhecida. O replicador — sua consequência lógica — pressupõe conversão matéria–energia com perdas desprezíveis e padrões perfeitos. A gravidade artificial ignora as únicas soluções aceitas (aceleração ou rotação). Os amortecedores inerciais anulam a própria noção de inércia.

Nada disso é acidente. É arquitetura narrativa consciente.

Se essas tecnologias fossem levadas às últimas consequências sociais, econômicas e culturais, o mundo resultante seria tão distante do nosso que o drama humano deixaria de ser reconhecível.

A existência dos replicadores, por exemplo, implicaria no fim da manufatura tradicional, no colapso das cadeias produtivas e na dissolução da escassez material como princípio organizador da vida social. Amortecedores inerciais universais e gravidade artificial independente de aceleração ou rotação alterariam de forma igualmente radical a relação com o corpo, com o risco, com o impacto e com o próprio sentido de limite humano.

Um mundo assim poderia existir como construção especulativa, mas seria tão distante da nossa experiência histórica que dificilmente funcionaria como palco para dilemas humanos reconhecíveis.

Suspender a escassez material não elimina o conflito; apenas desloca o eixo em torno do qual ele passa a se organizar.

Star Trek sabe disso e recua deliberadamente. Introduz tecnologias fortíssimas, mas neutraliza suas consequências estruturais.

O resultado é um futuro em que a escassez material foi suspensa, mas a escassez simbólica permanece: prestígio, comando, influência, decisão. Não é economia; é experimento moral.

Escassez, economia e utopia controlada

Aqui surge uma tensão explícita com um dos fundamentos da vida social: o princípio da escassez. Desde o início da civilização, necessidades superam disponibilidades, forçando escolhas — e gerando desigualdade, exploração, conflito, insatisfação.

Star Trek suspende esse princípio no plano material para poder perguntar outra coisa:

O que sobra do humano quando sobreviver deixa de ser o problema central?

Essa não é uma descrição do mundo. É uma proposição normativa. Um ideal iluminista tardio. A Federação é apresentada como relativamente meritocrática, orientada por valores compartilhados, institucionalmente estável.

Hoje, isso pode soar ingênuo. Mas não é ingenuidade acidental. É condição de possibilidade do projeto narrativo.

Sem essa suspensão, a série deixaria de discutir ética, diplomacia e convivência entre diferentes — e passaria a girar, como quase tudo, em torno de sobrevivência e poder bruto.

The Expanse: quando a física escreve a política

The Expanse faz o movimento inverso. Tudo o que é humano permanece dentro de limites físicos rigorosos. Não há FTL humano. Não há gravidade “mágica”. Não há corpos imunes à aceleração. O espaço não perdoa.

E as consequências são assumidas integralmente.

Os Belters não são apenas uma classe explorada; são corpos moldados pela microgravidade, com identidades, línguas e ressentimentos que emergem diretamente do ambiente. Marte não é apenas um antagonista político; é uma sociedade construída em torno de um projeto técnico de séculos, com disciplina e sacrifício como virtudes centrais. A Terra não é vilã nem heroína; é o poço gravitacional original, com população demais e horizonte curto.

Aqui, a política nasce da física. Ar, água, energia e delta-v são recursos disputados. A tecnologia existe, mas cobra preço. Nada é dado; tudo tem custo.

Quando a série introduz sua grande licença — o Anel, a protomolécula — ela a concentra fora da humanidade. É alienígena, opaca, não normalizada. O absurdo existe, mas não se banaliza. Isso preserva a coerência do mundo e mantém a tensão trágica.

Dois modelos, dois objetivos, a mesma função ancestral

Comparar Star Trek e The Expanse como se disputassem “quem é mais científico” empobrece ambas. Elas respondem a perguntas diferentes — como respondiam, cada uma a seu modo, a tragédia grega e o mito.

Star Trek pergunta:

Quem seríamos se já tivéssemos resolvido os problemas materiais?

The Expanse pergunta:

O que acontece quando levamos nossos defeitos históricos para um ambiente que amplifica consequências?

Uma constrói uma utopia controlada para explorar valores. A outra constrói um realismo trágico para expor conflitos.

Ambas usam o futuro como os gregos usavam os deuses: não para explicar o mundo, mas para entender o humano.

Conclusão: o amanhã como espelho

Talvez seja por isso que a ficção científica continue tão necessária. Ela não tenta nos dizer onde chegaremos. Ela tenta esclarecer quem somos agora.

Mudam os palcos. Mudam os deuses. Mudam as máquinas.

Mas continuamos discutindo:

  • liberdade e limite,
  • poder e responsabilidade,
  • progresso e sentido,
  • convivência e violência.

No fim, há mais de uma maneira legítima de usar o amanhã para pensar o hoje. E reconhecer isso não enfraquece nenhuma obra — ao contrário, nos permite apreciá-las com a profundidade que merecem.

Sobre o autor

Meu nome é Ubirajara Costa. Sou brasileiro, casado, pai de menino e aposentado da área de informática após 35 anos de carreira. Moro em uma casa de dois andares em Campinas, uma cidade universitária — e, ultimamente, uma verdadeira fornalha — no interior de São Paulo, Brasil.

Divido meu tempo entre os passeios com nossa Golden, Amora; a leitura do jornal Estadão; o estudo de francês — esse idioma de sonoridade inebriante que um dia falarei decentemente, je le jure! — ; programar em Python, para não enferrujar; e bater papo com meus “amiguinhos”: as IAs generativas.

Foram eles, aliás, que me incentivaram a mergulhar no fascinante mundo dos blogs.

E, como bom apreciador de Jack Daniel’s com Coca Zero, a todos os amigos puristas que torcem o nariz ou protestam, eu digo, simplesmente: “Keep Walking!” 😎


메타데이터
post_id
6cecd7bb9df4
slug
duas-maneiras-de-usar-o-amanhã-para-pensar-o-hoje-6cecd7bb9df4
url
https://medium.com/@miniemax/duas-maneiras-de-usar-o-amanh%C3%A3-para-pensar-o-hoje-6cecd7bb9df4
canonical_url
https://medium.com/@miniemax/duas-maneiras-de-usar-o-amanh%C3%A3-para-pensar-o-hoje-6cecd7bb9df4
author_url
https://medium.com/@miniemax
status
ok
fetched_at
2026-08-02 16:39:03