Algumas palavras sobre o Projeto de Vida
ou memórias de uma dissertação morta
Algumas palavras sobre o Projeto de Vida
ou memórias de uma dissertação morta

esse é mais um texto reavivado do substack de 2023
A partir do golpe jurídico-empresarial lá em 2016, que culminou no impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, lançando o ex-presidente Michel Temer ao poder, muita coisa mudou, muita coisa mesmo. E uma das principais coisas foi algo que hoje nós chamamos de Novo Ensino Médio.
Hoje eu vou compartilhar um pouquinho com vocês sobre o tema da minha dissertação — que não foi. Ninguém pediu, mas eu vou dar minha opinião sim. Mas tentando entender o que é isso de Projeto de Vida? E por que a Psicologia está um pouco enfiada nisso.
Lá em 2016, pós golpe (mas um pouco pré golpe também), por meio da MP nº 746/2016, uma série de reformas no Ensino Médio começaram a ser gestadas no Congresso Nacional, em 2017, essa MP tomou forma na Lei nº 13.415 de 16 de janeiro de 2017, que embasou o que hoje nós chamamos de Novo Ensino Médio. Dentre essas mudanças, as principais a se destacar são: 1. o aumento da carga horária, instituindo a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio de Tempo Integral; 2. Introdução dos Itinerários Formativos, alterando o núcleo integrador das disciplinas do Ensino Médio à luz da BNCC. E por que isso é uma coisa? Eu poderia literalmente escrever uma dissertação sobre.

Nessa história toda, se insere uma coisinha que é tanto um princípio pedagógico, quanto um componente curricular. O tal do Projeto de Vida. A rigor, a proposta do Projeto de Vida parte do princípio de desenvolver nos adolescentes um desenvolvimento pessoal, espera-se que eles sejam capazes de empreender e pensar de forma inovadora seu futuro. A ideia é que os jovens reflitam sobre seus próprios objetivos, aspirações e valores, e desenvolvam um plano para o futuro baseado nessas reflexões. Tudo lindo, muito bonito, exceto que…
Se analisarmos o núcleo integrador de algumas secretarias de educação, ou mesmo da própria BNCC, vamos observar um Princípio Pedagógico totalmente liberal e um componente curricular muito, mas muito mal pensado. Se a gente fizer uma capoeira argumentativa, a habilidade a ser desenvolvida é a capacidade do jovem em pensar, planejar e organizar seu futuro. O que, ok, é uma habilidade desejosa. Todavia, o que implica o jovem que falha na consecução do seu Projeto de Vida? O que implica, quando aquele menino que queria ser engenheiro de software, se ver com 28 anos trabalhando de entregador do ifood? Ele falhou no projeto de vida dele? O que aconteceu?
Esses questionamentos que coloco aqui são muito fáceis de ser debatidos, apesar de ser importante trabalhar capacidades socioemocionais, organização, entender que a vida anda, o que significa colocar isso na cabeça de jovens entre 14 até 18 anos? Por que é importante que amadureçam tão rápido? E quando seu projeto de vida não é empreender, virar CEO, ou nada do gênero? Quem avalia isso? E como avaliar a habilidade de o jovem planejar seu futuro?
Enquanto componente curricular isso também chama atenção. Não há necessariamente uma formação em licenciatura para que as aulas de Projeto de Vida sejam dadas, espera-se que o professor lance mão de Metodologias Ativas.

Mas tá, e a Psicologia nessa história toda? Pensar em questões sobre empreendedorismo, autoconhecimento, inteligência socioemocoional, traçar Projeto de Vida e esse convite para olhar para si, traz consigo todos os aspectos psicologizantes que a os interesses liberais na educação carregam.
A Psicologia e a Educação caminham juntas? Sim, claro! Mas psicologizar escolhas, essa economização do comportamento, ser capaz de ensinar o sujeito como ele deve pensar seu futuro de forma organizada e estruturada, é uma coisinha que o nosso querido careca de óculos veio da chamar de governamentalidade. Em última análise, o Projeto de Vida é uma prática de governo de futuros, dentro de uma forma de existir específica. Domar essas subjetividades, através do sujeito policiar seu próprio futuro e que isso só cabe a ele, o aliena de tudo que existe ao seu redor de condições materiais.
E aí, como nós vamos nos responsabilizar quando esses projetos de vida falharem?
메타데이터
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