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A água baixou, mas a lama ficou

Um ano após tragédia climática histórica, alagamentos ainda dificultam a rotina de estudantes da UFRGS

Diandra Conchy in No Ponto Cego · 2025-06-30 13:30 · 140 claps · 5.6 min read
#reportagem #educação #ufrgs #enchente #meio-ambiente
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MEIO AMBIENTE

A água baixou, mas a lama ficou

Um ano após tragédia climática histórica, alagamentos ainda dificultam a rotina de estudantes da UFRGS

A enchente de 2024 deixou lama para trás que ainda permanece no sistema de esgoto da cidade de Porto Alegre e pode agravar a situação em novas tempestades | Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini

A enchente de 2024 deixou lama para trás que ainda permanece no sistema de esgoto da cidade de Porto Alegre e pode agravar a situação em novas tempestades | Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul foi devastado pela enchente que afetou 478 cidades, incluindo elas a capital. Passado um ano, Porto Alegre e a região metropolitana ainda sentem o impacto da lama trazida pela água e que permanece em seus bueiros. Entre a população que continua enfrentando recorrentemente os alagamentos na capital dos gaúchos, estão os estudantes da principal universidade do estado.

Com cerca de 44 mil alunos, somando graduação e pós-graduação, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mantém quatro campi em Porto Alegre, além do campus no Litoral Norte. Os estudantes da capital se deslocam todos os dias de seus bairros para estudar. Há também os que moram nas cidades vizinhas e que precisam transitar por Porto Alegre até chegar na sala de aula. Porém, isso vem sendo dificultado e muitas vezes até impossibilitado pelos constantes alagamentos na cidade.

Desde maio de 2024, ocorreram pelo menos seis cheias significativas em Porto Alegre. Esses alagamentos são causados, entre outros motivos, pela lama que ficou acumulada durante uma enchente e que bloqueou o escoamento de água no sistema de esgoto da cidade. Apesar de terem ocorrido incidentes de menor proporção do que ocorreram no ano passado, esses temporais ocasionaram problemas no sistema de transporte público, incluindo as linhas de trem da região metropolitana.

A Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre (Trensurb) ficou paralisada por 27 dias durante a enchente de maio de 2024, retomando suas atividades somente em dezembro do mesmo ano. No dia 31 de março de 2025, no entanto, após forte temporal, teve sua operação novamente interrompida nas estações de Canoas e no Mercado Público de Porto Alegre. Em nota à imprensa, a empresa afirmou que a queda de uma árvore ou de um galho na rede gerou um curto-circuito.

Nesse dia, o estudante de publicidade e propaganda da UFRGS Aricson de Mendonça Costa, morador de Esteio, a 23 quilômetros da capital, relatou que pegou o último trem antes da estação do mercado, localizada no centro de Porto Alegre, para funcionar. Aricson utiliza dois ônibus e um trem para chegar à universidade. O trajeto dura em média duas horas. Quando o trem não funciona, ele não consegue ir para aula, ou voltar para casa. "Choveu, Porto Alegre alaga, e o trem para. Parou o trem, como eu vou pra casa?", questiona.

Já o estudante de engenharia cartográfica Leonardo da Silva, morador de Canoas, também na região metropolitana, relata que tem enfrentado dificuldades psicológicas causadas pelos constantes alagamentos na rua onde mora. “Tu tem que esperar a água baixar, até lá tu não consegue fazer nada e, depois que a água baixar, é necessário limpar a casa, organizar as coisas, ver o que danificou”, conta. Ele explica que já aconteceu de limparem uma casa depois de um tempo e, na outra semana, entrarem em água de novo. “Isso gera insegurança, querendo ou não, você fica mais ansioso”, diz. Além disso, essa situação tem afetado seus estudos: "Hoje, por exemplo, eu acordei com o barulho da chuva. As pessoas estão um pouco traumatizadas com isso. Você não consegue focar em estudar porque está chovendo". Canoas foi uma das cidades mais atingidas pela enchente do ano passado.

Busca dos alunos por melhorias

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRGS publicou em seu perfil no Instagram, no dia 1° de maio de 2025, seu posicionamento sobre os alagamentos que ocorrem na cidade e sugestões para o Protocolo para Eventos Climáticos Extremos, que foi definido pela universidade no mês de junho, mais de um ano após a enchente. O coordenador geral do DCE, Wellington Luan Porto, destaca que as principais medidas sugeridas para constar no protocolo, na opinião do diretório, foram a flexibilidade nas faltas e nas avaliações nos dias de temporais, um acompanhamento melhor dos alertas da defesa civil e o auxílio a alunos que estão em vulnerabilidade social o que demonstram muito, segundo Wellington, o papel da universidade de se comunicar melhor com a sua comunidade.

Wellington critica a demora da UFRGS ao emitir comunicados sobre as atitudes que serão tomadas em episódios que podem resultar em alagamentos e reivindicar uma melhor comunicação da reitoria com a comunidade estudantil. “A universidade, desde a última reitoria, nunca teve uma política institucional. Então o protocolo nasce no intuito de ser um mecanismo de proteção aos estudantes”, explica. O coordenador geral do DCE ainda destaca que uma universidade não está preparada para um novo alagamento. "Ela só vai estar preparada quando conseguirmos enfrentar o problema como ele deve ser encarado. Enquanto a universidade não para e observar como isso impacta a vida dos estudantes e da sua comunidade, nunca vai estar preparada.

“Os nossos bueiros estão entupidos de lama, qualquer chuva vai ter alagamento na cidade” Márcia Barbosa, reitora da UFRGS

A reitora Márcia Barbosa, eleita pela comunidade acadêmica após a enchente, diz que a reitoria tem dificuldade de comunicar com rapidez se houver ou não aula nos dias de chuva. "Eu não consigo prever o alagamento, ele é mais complexo que a chuva, porque ele não tem a ver só com a chuva, ele tem a ver com a lama no esgoto. Eu posso dizer que nós vamos manter a aula, e, como algumas regiões da cidade podem alagar, a gente libera as faltas", explica. “Os nossos bueiros estão entupidos de lama, qualquer chuva vai ter alagamento na cidade.” A reitora diz que as empresas de ônibus não interrompem seu serviço por qualquer chuva. “Então é isso que vamos monitorar”, completa.

Como a reitoria está lidando com os alagamentos

Antes da definição do protocolo oficial para eventos climáticos extremos pela UFRGS, a reitora afirmou que a universidade estava organizando as informações permitidas para sua aplicação. “Primeiramente eu vinha sendo informado por um grupo de meteorologistas de todo o estado, mas agora organizamos um setor no laboratório localizado no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS para fazer esse monitoramento para nós.” Márcia explica que é preciso saber, a cada tempo, se o transporte público da cidade vai funcionar ou não. A reitora ainda ressalta que compreende a preocupação dos alunos em cancelar as aulas quando a cidade alaga, mas diz que a UFRGS só vai suspender as atividades quando ninguém puder chegar na universidade. "Claro que, se pessoas não conseguirem vir, nós vamos fazer com que elas não sejam penalizadas com faltas. Se não tiver trensurb, não faz sentido eu dar falta. Se não tiver algumas linhas de ônibus funcionando, não faz sentido eu dar falta, mas eu não posso fechar a universidade toda vez que tiver uma rua alagada", afirma.

A UFRGS fez a publicação oficial da definição do protocolo para atuação em alertas meteorológicos no dia 5 de junho de 2025. Ele está sendo acionado a partir de alertas emitidos pela Defesa Civil, que serão avaliados pelo Comitê de Avaliação Técnica para Eventos Climáticos que é composto por três docentes do IPH, Alfonso Risso, Fernando Mainardi e Fernando Dornelles; uma docente do Igeo, Rita Alves; um técnico administrativo meteorologista, Gabriel Bonow Munchow;, além de meteorologistas e pesquisadores em nível de doutorado e pós-doutorado vinculados ao Centro Estadual de Pesquisas em Sensoriamento Remoto e Meteorologia (CEPSRM) da UFRGS, conforme a Portaria 3903/2025 . Para a tomada de decisão, serão considerados critérios como a operação do transporte público, as condições de acesso, a infraestrutura disponível, o fornecimento de energia elétrica, a conectividade com a internet e o abastecimento de água nos campi da UFRGS, levando em conta as particularidades de cada campus.

O Protocolo da UFRGS orienta ações conforme o nível de alerta meteorológico:

Fonte: UFRGS

Fonte: UFRGS

A partir desse protocolo, a universidade visa auxiliar sua comunidade em eventos meteorológicos extremos que vem ocorrendo com cada vez mais frequência nos últimos anos, como resultado do aquecimento global e falta de ação do poder público. A enchente ocorrida em 2024 no Rio Grande do Sul e a sequência de alagamentos que vem ocorrendo servem de alerta para que se perceba que a vida está mudando de forma radical e que será necessário conviver cada vez mais com eventos climáticos extremos.

Reportagem produzida para a disciplina de Fundamentos da Reportagem do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS.


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