🍽️ Quando o Mate Substitui o Prato: A Nova Face da Pobreza Argentina
É difícil imaginar uma roda de conversa na Argentina sem um mate circulando de mão em mão. Com seu gosto terroso, aroma marcante e o…
🍽️ Quando o Mate Substitui o Prato: A Nova Face da Pobreza Argentina

É difícil imaginar uma roda de conversa na Argentina sem um mate circulando de mão em mão. Com seu gosto terroso, aroma marcante e o conjunto tradicional, o mate e bombilla, eles representam muito mais que um simples chá: é um símbolo nacional de união, afeto e cotidiano.
O mate é mais do que uma bebida na Argentina, é um símbolo de encontro, partilha e identidade. Mas sua história remonta muito antes da criação do Estado argentino.
Os primeiros a consumir a infusão da Ilex paraguariensis foram os povos guaranis, que usavam a erva por suas propriedades energéticas, digestivas e até espirituais. Com a chegada dos colonizadores no século XVI, os jesuítas adotaram o costume indígena e passaram a cultivá-la sistematicamente nas Missões, promovendo sua difusão por todo o território.
Ao longo dos séculos, o mate se consolidou como parte do cotidiano rural e urbano, atravessando classes sociais e regiões. Ele é consumido pela elite portenha nos cafés sofisticados, por trabalhadores nos canteiros de obra, por estudantes em bibliotecas e por famílias em bairros populares.
Em muitas casas, principalmente nas regiões do interior e nos bairros populares, o mate é compartilhado com açúcar, e em alguns casos, com adoçantes industrializados. Adoçá-lo é um costume tão antigo quanto o próprio ritual, e para muitos, uma forma de tornar a infusão mais agradável ao paladar, especialmente para crianças e jovens.
Contudo, especialistas alertam: esse hábito cultural, embora carregado de afeto, pode estar diretamente ligado ao avanço da deterioração dental em comunidades de baixa renda. Segundo o Colégio de Odontologistas da Província de Buenos Aires, cerca de 8 em cada 10 crianças argentinas têm cáries antes dos 12 anos, sendo a maioria em famílias com menos acesso a produtos de higiene bucal e atendimento odontológico. Em regiões como o norte do país, os índices de perda dentária precoce em adultos jovens superam os 35%.
A odontóloga Lorena Quiroga, que trabalha em centros de saúde de bairros periféricos, confirma a preocupação. “O mate doce é consumido em pequenas doses durante todo o dia, o que significa que o açúcar está constantemente em contato com os dentes. Isso cria um ambiente ácido constante, altamente prejudicial para o esmalte dentário”, explica.
O problema se agrava com a dificuldade de acesso a atendimento preventivo. Nas filas dos hospitais públicos, consultas com dentistas chegam a demorar mais de 4 meses em alguns bairros populares de Buenos Aires. Além disso, o alto custo de cremes dentais fluoretados e escovas de boa qualidade dificulta o cuidado diário.
Marta Suárez, moradora da Villa 31, ilustra o dilema. “A gente toma mate o dia inteiro. Com açúcar, sim. É como minha mãe fazia. Eu sei que pode fazer mal, mas também é o que temos. Escova boa é cara, e dentista a gente só vai quando dói”.
Além disso, há a questão da partilha. O mate é coletivo. É raro que cada pessoa tenha sua própria cuia, normalmente, um só recipiente passa por várias mãos. Esse costume, embora afetuoso, levanta também questões de higiene, especialmente entre crianças em idade escolar que compartilham mate doce com frequência e sem supervisão adequada de escovação.
Segundo dados do Ministério da Saúde, a educação em saúde bucal ainda é frágil nas escolas públicas de muitas províncias. Apenas 28% das escolas primárias têm programas regulares de higiene bucal, e a distribuição de kits de higiene é insuficiente.
Em resposta, ONGs como a “Sonrisas del Sur” e campanhas municipais tentam combater o problema com ações educativas. Em bairros como San Fernando, oficinas ensinam crianças a escovar corretamente os dentes e explicam os efeitos do açúcar no organismo. Algumas iniciativas propõem o uso de stevia natural como substituto — mas o custo e a aceitação ainda são obstáculos.
“Nosso objetivo não é demonizar o mate, nem mudar a cultura”, diz Juan Ignacio López, coordenador de um projeto de saúde comunitária. “Queremos que as pessoas possam manter suas tradições, mas com informação e cuidado. Cultura e saúde podem caminhar juntas.”
Enquanto isso, nas praças, nos coletivos e nas casas simples das periferias, o mate doce continua sendo símbolo de calor humano e resistência cultural. Mas, sem acesso à prevenção, muitos desses sorrisos carregam as marcas invisíveis de uma tradição que, embora doce, também pode ferir.
Na Argentina de hoje, o mate deixou de ser apenas um ritual de encontro para, em muitos lares, ocupar o lugar de uma refeição. O que antes era uma pausa para o afeto, hoje muitas vezes é a única alternativa diante do vazio da despensa.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), mais de 57% da população infantil vive abaixo da linha da pobreza, e a insegurança alimentar atinge níveis que o país não via há décadas. A inflação acumulada ultrapassa os 270% nos últimos 12 meses, e os preços dos alimentos básicos aumentaram muito mais do que os salários.

INDEC (www.indec.gob.ar), UNDAV (observatoriopublico.undav.edu.ar), Ministério da Economia da Argentina, Casa Rosada
Nessa realidade, o mate — barato, acessível e tradicional — virou um “recurso de sobrevivência”. Muitos argentinos tomam mate doce para enganar a fome, especialmente em comunidades vulneráveis onde faltam políticas públicas eficazes. Com um pouco de açúcar e água quente, a bebida preenche o estômago, mesmo que por pouco tempo.
“Quando não tem café da manhã ou merenda, a gente toma mate. Dá uma segurada até a noite”, conta Soledad, mãe de três filhos no bairro de Moreno. A frase, comum em centenas de entrevistas com famílias em situação de vulnerabilidade, mostra como o mate assumiu um papel que nunca lhe pertenceu: o de alimento substituto.
Essa realidade, embora simbólica da resistência cultural argentina, também denuncia uma falha estrutural: quando o símbolo da união se transforma em paliativo da fome, há algo mais profundo e urgente a ser resolvido. A pobreza não é apenas estatística — ela se manifesta nos dentes das crianças, no estômago vazio dos adolescentes e na exaustão das mães que compartilham um mate como se fosse jantar.
Ainda que o mate continue sendo um ícone de identidade e laço social, ele também escancara a desigualdade: em um país com recursos naturais abundantes, nenhuma criança deveria precisar escolher entre um pão e uma infusão com açúcar.
“Na roda do mate, todos compartilham a mesma bombilla — mas fora dela, nem todos têm o mesmo prato à mesa.”
Fontes: Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC). “Indicadores de pobreza e indigencia.” 2024. Disponível em: https://www.indec.gob.ar • Colegio de Odontólogos de la Provincia de Buenos Aires. “Estudios sobre salud bucal infantil.” 2023. Disponível em: https://www.copba.org.ar • Ministerio de Salud de la Nación Argentina. “Informe sobre programas de salud escolar y bucal.” 2023 • Quiroga, Lorena. Entrevista concedida em fevereiro de 2025, Buenos Aires • ONG Sonrisas del Sur. “Campañas de prevención en salud bucal.” Acesso em março de 2025 • López, Juan Ignacio. Coordenador de projeto de saúde comunitária em San Fernando. Entrevista realizada em março de 2025 • Testemunhos coletados em campo nas regiões de Villa 31 e Moreno, Buenos Aires, entre fevereiro e março de 2025 • Diario La Nación. “El mate, entre la tradición y la subsistencia.” Reportagem de janeiro de 2024 • Biblioteca Nacional Argentina. “Historia del mate en el Río de la Plata.” Arquivos históricos. Acesso em 2024 • Fundación Favaloro. “Efectos del consumo prolongado de azúcar en la salud dental.” Estudo técnico, 2022.
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