Recomeçar pelos ouvidos
uma crônica de Lara Galvão
Recomeçar pelos ouvidos
uma crônica de Lara Galvão

(colagem de Juliana Pina com fotografia de Juh Almeida)
esqueci o que significa começar. mais uma vez perdi o caminho de casa. toda vez eu me lembro e penso que nunca mais. nunca mais vou me esquecer como colocar uma palavra depois da outra. uma letra luminosa depois enter-espaço-ponto. toda vez esqueço e me assombro com o passar das horas-dias-meses, mas não é sempre o mesmo tempo? ser luminoso, grande árvore entidade, lei da vida inteira. sim, o tempo de mil canções. já estou me lembrando.
qual a diferença entre uma canção, as pausas de uma fala, uma rima ritmada? há ritmo e há poesia nas horas do dia. respiro e continuo, uma palavra depois da outra. aprendi a falar poema com Valeska Torres (1), antes era um declamar-recitar engasgado na garganta. até tenho apreço por palavras antigas, saem na minha escrita vocábulos nunca antes proferidos em vida. apreços e vocábulos inclusos, mas recitar? declamar? era estranho sair da boca assim uma sílaba depois da outra. quando aprendi que podia “falar poema” falei, falei muito, falei tanto que agora dei pra cantar.
fonema, verbo, fraseado. o dó, o ré, o mi. entre uma nota e outra me pergunto as diferenças sem saber se isso é mesmo necessário. separar as coisas, isso, aquilo outro. isso é rap, aquilo é canção, spoken word é outra coisa. não persigo São Paulo, mas já fui até lá, São Paulo é outra coisa, como cantava Itamar (2). ainda canta em meus ouvidos poemas ritmados com seu timbre de um veludo tal. não quero separar nada, ainda assim me pego pensando na voz e suas delicadezas. não é exatamente amor, é identificação absoluta.
gosto de imaginar, fecho os olhos no que dizem ser uma canção, ali ela entra pela melodia, dá voltas. no beat escuto uma voz que dança pelo ritmo. boom-bap-boom-bap-boom-bap, escutou? há ritmo e há poesia. na palavra falada é mesmo outra coisa, ela flutua, uma voz ali no meio do som. objeto não identificado. outro tom. me pega muito essa coisa da voz, instrumento musical inerte único. nasci com a minha, você com a sua, soa diferente, faz ruído. no fundo é tudo som, poesia, mistério. no fim não sei mesmo nada, sou só uma poeta e estou tentando fazer algum estrondo. recomeçar pelos ouvidos, voltar pra casa, quem sabe.
1 Valeska Torres é poeta, escritora e educadora carioca. Procurem saber. Está no substack em valeskatorres.substack.com
2 Me refiro a música Persigo São Paulo, trecho de uma carta de Mário de Andrade musicada por Itamar Assumpção. “Não, não / São Paulo é outra coisa / Não é exatamente amor / É identificação absoluta / Sou eu”



Conheça o trabalho de Juh aqui
메타데이터
- post_id
- 6d8b9880ae57
- slug
- recomeçar-pelos-ouvidos-6d8b9880ae57
- url
- https://medium.com/desvario/recome%C3%A7ar-pelos-ouvidos-6d8b9880ae57
- canonical_url
- https://medium.com/desvario/recome%C3%A7ar-pelos-ouvidos-6d8b9880ae57
- author_url
- https://medium.com/@desvario
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-23 06:34:20