A primeira vez
por Armando Maximo.
A primeira vez
por Armando Maximo.

Armando e sua filha Luísa.
O ano era 2001. Em uma tarde de sábado ensolarado, eu debutava em um jogo da Portuguesa, e o palco era o nosso Estádio Dr. Oswaldo Teixeira Duarte. Mas eu volto ao jogo daqui a pouco. Vou contar o início do meu amor pela Associação Portuguesa de Desportos até chegar neste tão sonhado dia.
Como filho de português, comecei a torcer pela Lusa devido a meu pai. Ele sempre foi um torcedor contido. Nunca me obrigou ou cogitou que eu fosse mais um sofredor Lusitano.
Ao contrário de meu patriarca, meu tio Paulo, são-paulino e meu Padrinho Gamarra, corintiano, disputavam ferrenhamente meu coração, que já era rubro-verde. Valia tudo. Desde promessas de me levar a jogos, compra de camisas dos clubes, cachorros, periquitos, papagaios e até chantagens emocionais.
Com minha opinião construída e decisão tomada, não houve santo que me fizesse ceder, afinal meu time havia sido Campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1991 e além do mais: eu queria ser um jogador igual ao craque Dener.
A fase mais complicada — vamos chamar assim — foi a adolescência, por ter de enfrentar as gozações. Frases feitas como: “time pequeno”, “isso não é time”, “fora a Portuguesa você torce mais para quem?”, “coitado, só conheço você de torcedor da Lusa”. Trazendo para os dias atuais, classificaria como bullying, todas aquelas falas pejorativas a que todo lusitano é exposto.
Todos os meus colegas de escola já haviam provado o gostinho de ser campeões com seus times. Mas nunca me importei com todas estas desqualificações e na minha concepção, o melhor estava por vir. O gigante adormecido haveria de acordar.

Estádio do Canindé em jogo da Portuguesa.
O ano em que mais me orgulhei de nossa Portuguesa, quando ela foi vice-campeã Brasileira, também foi o ano mais trágico pra mim. Perder meu Pai, minha referência na vida, com apenas quinze anos, foi de uma tristeza tão profunda, que eu desejava apenas que 1996 terminasse logo, para poder virar a página. Mas, em campo a Lusa me ajudava a enfrentar as dificuldades e depois de uma classificação tão sofrida, as finais do Campeonato Brasileiro foram o ápice de felicidade e orgulho.
Cruzeiro e Atlético Mineiro sucumbiram a um time determinado e coeso. O entusiasmo só crescia. Veio o primeiro jogo, da final. Um bom resultado, 2 a 0 dava para segurar. No jogo do Olímpico, lembro-me de assistir na casa de minha vó materna. Aquele gol aos dois minutos iniciais causou um desconforto, mas a confiança ainda prevalecia.
Já no segundo gol, não aguentei e chorei pela primeira vez por minha Lusa. Eu não podia acreditar que faltava tão pouco para sermos Campeões Brasileiros e tudo desmoronou sem que eu pudesse reagir. Ficou a sensação que podíamos ter voado mais alto. Ficou a sensação que podíamos ser grandes. Mostramos ao Brasil, porém, que a Associação Portuguesa de Desportos quando queria poderia incomodar. Mas vamos voltar ao inicio.
A data era 13/10/2001. Campeonato Brasileiro, primeira Fase, 18º Rodada. Portuguesa Desportos 2 a 0 Palmeiras. Este foi o primeiro jogo que assisti em um estádio. Como moro em Santa Isabel, cidade distante 60 km de São Paulo, vesti minha única camisa da Lusa na época, pequei o ônibus intermunicipal junto com minha namorada, hoje esposa, e meu cunhado na época.
Depois de uma hora de viagem, descemos no ponto de ônibus da Rodoviária do Tietê, atravessamos a pé a Ponte das Bandeiras e tomamos rumo ao Canindé pela Marginal. A cada metro percorrido, fomos ficando assustados, visto que era enorme o numero de torcedores palmeirenses passando nos carros e caminhando a nossa frente. Resultado: o inevitável aconteceu. Uma enxurrada de adjetivos não tão decorosos nos foi direcionado.
Com o único propósito de chegar o quanto antes ao estádio, eis que surge um “iluminado” torcedor alviverde e nos questiona: “Vocês estão loucos? Tem milhares de torcedores do Palmeiras mais a frente e você português, com a camisa da Lusa!!? Tira a camisa, coloca por dentro da bermuda, senão quiser morrer”. Não hesitei.
Segui caminho até o portão principal e adquiri nossos ingressos para as cadeiras. A cada passo dentro do clube eu me maravilhava. Começamos a subir a rampa das cadeiras, e em um instante já estava postado para assistir o espetáculo. A arquibancada estava cheia. Os palmeirenses eram maioria e ditavam os cantos em apoio ao seu time.
Porém, Fabiano e Ricardo Oliveira, ainda no primeiro tempo fizeram a alegria da Nação Lusitana e minha. Comemorei como se o amanhã não existisse. Não poderia ter sido melhor. Vitoria no Clássico das Colônias e a certeza que a paixão por assistir jogos no Canindé havia apenas iniciado.
Tive muitas tristezas no Canindé. Jogos que culminaram em derrotas humilhantes perante adversários frágeis, brigas, eliminações improváveis, rebaixamentos dentro e fora do campo. Sim, eu estava, naquele jogo contra o Grêmio, e me lembro como se fosse hoje o questionamento que fiz para minha esposa, parceira de todas as horas: “Para que colocar o Hevérton faltando tão pouco para o jogo acabar?” Pois bem. Depois de tantas decepções, prometi a mim mesmo por diversas vezes que não colocaria mais os pés no Canindé.
Mas como descrevi anteriormente, a paixão iniciou desde o momento em que assisti aquele Clássico. Sentia falta de ir ao Canindé. Mal sabia que minhas maiores alegrias e emoções ainda estavam por vir.

Luísa, torcedora mirim da Lusa.
A primeira, ao apresentar “Nossa Casa” a minha filha, Luísa, (o nome não foi escolhido aleatoriamente: Lusa, Luísa) com apenas um ano e seis meses de idade. O jogo era parte da Copa Rubro-Verde 2018. Portuguesa de Desportos x Portuguesa Londrinense. Quanta expectativa. Iriamos correr por aquela arquibancada de cimento. Apresentei todo o Estádio. Ensinei que a torcida organizada fica atrás do gol que dá aos fundos do antigo arreião e que somos a única torcida itinerante. Caminhamos de gol a gol, para ficarmos juntinho de nosso ataque, para darmos aquela força. Ganhamos o jogo e pude sentir dupla alegria naquela noite. Minha filha em meu colo e o Zé Roberto retornando aos gramados do Canindé.
No ano do Centenário, 2020, no jogo válido pela 7º rodada do Campeonato Paulista A2, entre Portuguesa x Monte Azul, a segunda e o ápice da alegria e emoção.
Minha filha Luísa entrou em campo com os jogadores. Debaixo de chuva, não se fez de rogada e toda determinada, concretizou toda a cerimônia de abertura. Ao vê-la caminhando na relva, não contive as lágrimas. Voltei dezenove anos no tempo e as lembranças refrescaram em minha mente.
Com o coração mais calmo e com a razão recuperada apenas agradeci por ter unido as Minhas Duas Paixões.
메타데이터
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