← Back to list

A Teologia do Corpo de São João Paulo II (2/7)

Pe. Celso Pôrto Nogueira

Padre Celso Pôrto Nogueira · 2023-04-18 02:13 · 0 claps · 19.4 min read
#teologia-do-corpo #joão-paulo-ii #pe-celso-pôrto-nogueira #ecc #primeiro-ciclo
Open on Medium ↗

A Teologia do Corpo de São João Paulo II (2/7)

Pe. Celso Pôrto Nogueira

2. PRIMEIRO CICLO

O Primeiro Ciclo se refere ao ensinamento de Jesus dirigido aos fariseus, que encontramos em Mateus 19, 3 ss. O contexto é a resposta de Jesus e a colocação da sua doutrina diante das doutrinas dos diversos grupos e facções que existiam em Israel. Dentre eles, aparecem os herodianos, os fariseus e os saduceus. Cada um faz uma pergunta para pôr Jesus à prova e as respostas de Jesus ficam registradas no Evangelho.

Essas leituras geralmente são colocadas dentro da semana que antecede à Paixão de Cristo. A pergunta que os fariseus fazem a Jesus é a seguinte: “É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo?”. Como podemos perceber, eles não perguntam se é lícito repudiar a mulher porque, para eles, estava claro que era lícito. Eles não tinham dúvida sobre isso. A pergunta deles é: “Qual o motivo?”. Eles queriam saber se poderia ser por qualquer motivo ou se precisaria ter algum motivo especial.

Dentro do judaísmo existia uma escola rigorista de um rabino que se chamava Shamai, que tinha a tendência de interpretar a lei da forma mais rigorosa. Segundo ele, o único motivo que um homem tinha para mandar a mulher embora era o adultério. Mas, tinha também, dentro da tradição dos fariseus, uma escola mais liberal: a escola do rabino Hilel. Para essa escola, bastava que o homem, num determinado momento, achasse que sua mulher estava muito feia, por exemplo, que já era motivo suficiente para despedi-la.

Eram dois ensinamentos que contrastavam e, por isso, os fariseus queriam saber qual era a posição de Jesus diante dessas duas escolas rabínicas: se ele era mais rigorista ou mais liberal. Mas Jesus surpreende. Ele responde, citando a escritura: “Não lestes que desde o princípio o Criador os fez homem e mulher? E que disse: Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne? De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar.’’ Eles, porém, objetaram: “Por que, então, ordenou Moisés que se desse carta de divórcio quando repudiasse?” Ele disse: “Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas, no princípio não era assim.” (Mt 19, 3 ss)

Moisés havia permitido ao homem dar carta de divórcio à sua mulher porque conhecia a dureza de seus corações e sabia que eles poderiam, simplesmente, mandá-la embora “sem eira nem beira”, vendê-la como escrava ou fazer qualquer outro tipo de coisa. A carta de divórcio foi uma forma que Moisés encontrou de não deixar a mulher totalmente desamparada porque, com um documento de repúdio, ela poderia se casar novamente e ter um marido que a sustentasse, evitando que ela precisasse se prostituir ou que morresse de fome. Por isso, o homem deveria dar uma carta, dizendo que estava livre das obrigações com ela e que ela poderia se casar outra vez.

Esta era uma solução contingencial, dentro de uma situação muito dura e que, no fundo, tinha uma consideração pela dignidade da mulher. Muito imperfeita, mas num patamar ético um pouco mais elevado do que simplesmente deixar que abandonassem a mulher de qualquer jeito, sem que ela tivesse como se sustentar. Dava certa condição para a mulher, respeitando, de forma imperfeita, a sua dignidade.

Mas Jesus não se atém a isso e dá uma resposta muito mais radical. Ele se refere ao princípio: “Não lestes que desde o princípio o Criador os fez homem e mulher…”. Mas o que quer dizer essa palavra dita por Cristo: “o princípio”?

2.1. SIGNIFICADO DO PRINCÍPIO

BERESHIT

O princípio é o nome do primeiro livro da Bíblia, que nós chamamos de Gênesis, mas que os judeus chamam de Bereshit, ou seja, no princípio. Os judeus chamam os nomes da Bíblia pela primeira frase. Nós pegamos um pouco dessa tradição, pois damos os nomes das encíclicas dos papas pelas primeiras palavras do texto.

A primeira frase da Bíblia e, portanto, do primeiro livro da Bíblia (Gênesis), é aquela frase tão famosa e tão bem escrita, que é o modelo ideal para um redator começar um texto, por causa do impacto que causa: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Bereshit bara Elohim et hashamaym ve’et ha’aretz).

RELATOS COM LINGUAGEM MÍTICA E SIGNIFICADO TEOLÓGICO

O texto do Gênesis, principalmente em seus primeiros capítulos, é um relato que usa uma linguagem mítica (tirada dos mitos), poética, profundamente teológica e, com um significado teológico. Os dois relatos da criação do mundo e do homem contidos no Gênesis não têm a mínima intenção de informar sobre a origem da humanidade do ponto de vista científico. Isso é algo completamente ausente do pensamento do autor. Tanto do autor humano, quanto do autor divino.

O que o livro do Gênesis quer nos transmitir é algo muito mais profundo do que um relato meramente científico sobre a origem do mundo. Deus quer nos comunicar através dessa linguagem arcaica, mítica, poética, simbólica, mística e espiritual algo que é definitivo para nós.

OS DOIS RELATOS DA CRIAÇÃO

Existem, portanto, dois relatos da criação no Gênesis: um, no Capítulo Primeiro e o outro, no Capítulo Segundo. Os dois relatos não concordam um com o outro na forma.

O primeiro relato é o relato dos seis dias, no qual Deus diz no primeiro dia: “Faça-se a luz”. Neste relato, primeiramente Deus faz a obra de separação e depois a obra de ornamentação no mundo. Ele separa a luz das trevas, as águas do firmamento das águas do mar (pois eles achavam que o céu também era feito de água). Em seguida, ele separa a água da terra firme e cria as plantas, as estrelas, o sol, a lua e os animais. No final de tudo ele cria o homem. Esse é o primeiro relato.

No segundo relato não existia nada sobre a terra. Não existia erva do campo, nem animal, apenas uma fonte de água. Deus pega o barro feito com essa água e a terra e molda o homem. Em seguida, sopra sobre ele o espírito de vida e o homem se torna um ser vivente. Só a partir daí Deus começa a criar as outras coisas.

Percebemos que no segundo relato o homem é, praticamente, a primeira coisa a ser criada, enquanto que no primeiro relato, é a última. Como podemos observar, os dois relatos não concordam na forma, mas concordam profundamente no seu conteúdo.

O papa São João Paulo II não se detém muito sobre o primeiro relato da criação. Ele só vai aprofundar um pouco mais no versículo 27: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou”. Ele também destaca que existe uma diferença de verbos entre a criação das outras coisas e a criação do homem. Quando Deus cria as outras coisas, ele cria dizendo uma palavra: “Faça-se”, e as coisas se fazem por si mesmas.

Mas, quando Deus cria o homem, ele não diz “Faça-se”, ele diz “Façamos”: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). É um plural que, na linguagem hebraica, significa uma especial intensidade porque no hebraico, o plural é usado para intensidade também.

O texto do primeiro relato da criação chama Deus de Elohim, que também é uma palavra no plural e que, literalmente, significa deuses. Mas os hebreus não eram politeístas. Esse “Elohim” (deuses), é um plural de intensidade, que significa: aquele Deus que é Deus mesmo; não são aqueles “deusinhos” dos pagãos que não são nada, mas é aquele Deus de verdade. Assim, para dizer que era um Deus verdadeiro, eles usam “Elohim”, no plural.

Elohim diz: “Façamos”, ou seja, Deus se coloca inteiro. Ele “arregaça as mangas” e se foca totalmente na criação do homem. “Façamos” é algo forte, que indica uma intensidade especial, uma dedicação e um amor especial.

GN 1, 27: “DEUS CRIOU O HOMEM À SUA IMAGEM, À IMAGEM DE DEUS ELE O CRIOU, HOMEM E MULHER ELE OS CRIOU.”

Logo depois, vem esse breve poema com três versos: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou” (Gn 1, 27). Vejam que ele usa três vezes o verbo criou e, na língua hebraica, dizer uma coisa três vezes tem um significado especial. O número três indica uma plenitude, uma intensidade. Por exemplo, quando dizemos: “Santo, Santo, Santo”.

Existe também um paralelismo neste poema. Primeiro ele fala do homem: “Adam”, portanto, “o ser humano”. Nesse caso, ele se refere ao ser humano como um todo e não especificamente ao homem ou à mulher. Em seguida, ele diz “à imagem de Deus ele o criou” e depois “homem e mulher ele os criou” (ou “macho e fêmea ele os criou”, como está escrito no texto original). Foi feito esse paralelo, ou seja: o ser humano é macho e fêmea e como macho e fêmea, é imagem de Deus.

O texto parece indicar, segundo a explicação do papa, que, de uma forma especial, o casal é imagem e semelhança de Deus enquanto casal, enquanto macho e fêmea.

Mais adiante, ele vai aprofundar sobre essa ideia de que a imagem de Deus está inscrita na corporeidade humana. Esse é um pensamento que não costumamos ter. Geralmente nós só explicamos que o ser humano é imagem e semelhança de Deus porque ele tem uma alma espiritual e, portanto ele é dotado de inteligência e vontade livre. Mas assim nós esquecemos o corpo.

Por isso, o papa afirma que o homem é imagem e semelhança de Deus já desde o seu corpo, como veremos.

O SEGUNDO É ANTERIOR

Outra coisa que o papa nos chama a atenção é que o segundo relato da criação foi escrito antes do primeiro, sendo, portanto o relato mais primitivo. Este é um ponto pacífico entre os estudiosos da Bíblia: o segundo relato foi escrito alguns séculos antes do primeiro. Quando o primeiro relato foi feito, o segundo já era bem conhecido.

Dentro de uma antiga classificação que o papa menciona brevemente fala-se que o primeiro relato, que é o mais longo, é um relato sacerdotal e Eloísta. É Eloísta porque dá o nome de Elohim para Deus e é Sacerdotal por causa do seu esquematismo: aquela divisão em sílabas iguais e divisão dos dias numa ritualística que é típica da mentalidade do sacerdote.

E o segundo relato, que é o mais antigo, é o chamado relato Javista, porque usa o nome Javé para Deus. O relato Javista é um relato colorido e muito humano. É um relato cheio de uma imaginação viva. É aquele relato que nós lemos com facilidade porque é uma prosa fácil, simples e que chega facilmente ao coração.

O papa vai se deter, principalmente, nesse segundo relato: o relato da criação do homem e do surgimento da mulher.

2.2. A SOLIDÃO ORIGINAL

A primeira abordagem que o papa faz a respeito do segundo relato é sobre o tema da solidão original do homem. O papa afirma que antes da Bíblia mencionar as palavras homem e mulher, ela menciona o ser humano. Antes do surgimento da mulher não se fala de homem. Usa-se o termo genérico. Mas deve-se tomar cuidado para não fazer uma leitura muito cronológica a respeito dessa afirmação do papa e cometer o erro de achar que antes do surgimento da mulher havia o ser humano sem sexo. Não é isso. O que o relato bíblico coloca em ordem cronológica nós temos que colocar em ordem ontológica, ou seja, buscando saber qual é o extrato mais profundo do ser. Antes de falarmos em homem e em mulher, nós falamos do ser humano enquanto tal. O que é o ser humano, independentemente do fato de ser homem ou mulher? É disso que se trata.

O HOMEM PERCEBE QUE É ÚNICO NA CRIAÇÃO

Deus diz: “Não é bom que o homem fique só” (Gn 2, 18) e mostra os animais a Adão (que é um nome genérico) para que ele dê nome aos animais, mas Adão não encontra nenhum que seja auxiliar a ele.

Vale fazer uma observação a respeito dessa palavra “auxiliar” (ou “ezer”, no hebraico). A palavra “ezer”, hebraica, é que dá origem a alguns nomes como Eliezer (ou a forma mais curta: Lázaro), que significa: Deus auxilia, Deus é meu auxílio, meu auxiliar.

Portanto, essa palavra “auxiliar” não deve ser entendida com nenhuma conotação depreciativa ou de segunda categoria, pois até para Deus se dá esse atributo de ser auxiliar. O papa diz que nós devemos fazer a leitura de que um é auxiliar para o outro, justamente porque estamos no âmbito do ser humano genérico. Nesse sentido, o ser humano enquanto tal precisa de um auxiliar porque ele está sozinho.

É muito interessante que o homem, nesse segundo relato, descobre que está sozinho olhando os animais. Aqui, novamente há a tendência de desprezarmos o dado do corpo, achando que o ser humano se deu conta de que estava sozinho ao perceber que os animais não tinham alma e ele tinha. Com relação a isso, São João Paulo II diz: “Não, o homem se deu conta de que estava sozinho justamente vendo o corpo dos animais.”

Tem algo no corpo do ser humano que indica que ele não faz parte do mundo dos animais, do mundo animalia, ou seja, das outras criaturas. O papa diz que é porque o corpo humano é um corpo próprio de um ser livre. Ele tem um condicionamento de ser livre que é diferente do corpo dos outros animais.

A própria antropologia percebe essa diferença entre o corpo do homem e o corpo dos animais, porque o nosso corpo vai ao contrário da linha evolutiva. Os animais sempre evoluem para uma forma mais específica e melhor adaptada ao seu ambiente. Quanto mais adaptado e mais específico for o animal para o seu ambiente, melhor será esse animal, pois ele ficará acima na cadeia alimentar. Se o animal for carnívoro, será melhor aquele que for o melhor caçador. Se for um herbívoro, o melhor será aquele que for o melhor digestor. E quanto mais o animal estiver adaptado ao clima do seu habitat, mais sofisticado será. Os animais inespecíficos são os mais primitivos, como as amebas, por exemplo.

Mas o ser humano está no contexto dos mamíferos superiores e é totalmente inespecífico. Basta notarmos que vivem pessoas nos mais diversos lugares do mundo. Além do que, o ser humano come qualquer coisa. E também com relação aos instintos, observamos que certos instintos básicos são frouxos no ser humano.

O ser humano não tem propriamente uma fase de cio, como os outros animais. Embora existam alguns mecanismos de cio no ser humano, eles não são determinantes para o seu comportamento. Existe uma liberdade do ser humano agir diante do seu cio, pois este é tão fraco que se o indivíduo não presta atenção nem o percebe.

Dessa forma, ao olhar os corpos dos animais e o seu próprio corpo, o homem já percebe que está sozinho desde o corpo. Ele percebe que o ponto de referência determinante e específico do seu ser não é o mundo dos animais, mas é Deus, de quem ele carrega a imagem e a semelhança, porque não existe nenhum animal do qual se diga que foi criado à imagem e à semelhança de Deus além do homem.

Mas esse ser humano ainda tem alguma coisa incompleta. O homem percebe que é único na criação e Deus diz que essa solidão não é boa, porque falta algo que é fundamental no ser humano: a comunhão.

2.3. A UNIÃO ORIGINAL

O SONO DE ADÃO

Deus faz Adão cair num profundo sono. Esse sono é o chamado torpor, que não é o sono de sonhos. É quase um transe, um sono profético, de revelação, pois Deus vai revelar ao ser humano uma coisa profunda sobre ele. Esse sono também é comparável à morte, tanto que isso permitiu aos Padres da Igreja entenderem de modo alegórico algo que S. João já dava a entender. O soldado abriu o peito de Cristo e dele jorrou sangue e água. Cristo é o novo Adão. No sono da morte em que abrem o seu peito é retirada a Igreja, sua esposa. Essa é uma realidade muito profunda, da qual o papa também falará bastante depois.

Assim, no sono de Adão (ou torpor), Deus o prepara para uma revelação. É uma espécie de morte que antecipa uma nova criação, uma recriação.

A DESCOBERTA DO OUTRO “EU”

É muito interessante como o primeiro relato simplesmente diz: “macho e fêmea ele os criou”, enquanto o relato mais antigo cria todo um suspense. Os tambores ficam rufando antes de aparecer a mulher. Quando Adão desperta do seu torpor ou do seu sono profético, ele descobre esse outro “eu” e diz: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!” (Gn 2, 23). Esse é justamente o sentido da retirada da costela: a unidade profunda que existe entre o homem e a mulher — uma só carne.

Muitas vezes nós temos que ler os relatos da Bíblia ao contrário. Quando o homem morre, ele exala o último suspiro, esvazia o pulmão de ar e vira pó. Se isso acontece no fim é porque no início Deus pegou o pó, juntou e soprou em cima do homem. Ou seja, é o final que explica o início. É o que acontece neste caso: o homem olha para a mulher e diz: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!”. É porque Deus pegou a carne dele, um pedaço do seu osso (da sua costela) e fez a mulher. O significado é que entre o homem e a mulher existe uma unidade profunda.

IMAGEM DA TRINDADE NA COMUNHÃO

Depois, São João Paulo II nos apresenta um significado ainda mais amplo, que junta as duas narrativas. “À imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou” ele junta com esse poema de Adão “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!”, que é chamado o primeiro poema nupcial da história humana. Ele emparelha os dois e diz que o ser humano, a partir do momento que é homem e mulher, tem inscrito em todo o seu ser, a partir do corpo, a marca da comunhão.

O ser humano é alguém para o outro, e esse “ser alguém para o outro”, “ser alguém em relação com o outro” não é uma coisa acidental ou um detalhe supérfluo, mas é constitutivo. Existir, para o ser humano, é sempre coexistir. Portanto, no ser humano, ser é sempre “ser para”. Mas isso não quer dizer que o ser humano é um meio ou um instrumento para o outro. Ao contrário, o ensinamento de São João Paulo II vai justamente contra essa ideia. Mas o ser humano é um ser em comunhão.

É o seu próprio corpo sexuado que vai lhe dizer que ele é um ser para a comunhão. E o que isso tem a ver com a imagem de Deus? Deus é comunhão. No íntimo de Deus existe uma comunhão: a comunhão de Pai e Filho e Espírito Santo. Se existe essa comunhão entre as pessoas divinas e se o ser humano é imagem e semelhança de Deus, então ele também é um ser aberto à comunhão. Ele também é pessoa, portanto é aberto à relação, à comunhão.

Assim a criação de Deus fica perfeita e o homem se revela a si mesmo, porque quando Adão vê a mulher ele também diz para ela: “Ela será chamada ‘mulher’, porque foi tirada do homem!”. Isso não faz o mínimo sentido em português, porque não existe relação nenhuma entre a palavra homem e a palavra mulher. As traduções mais antigas do português tentavam consertar essa ausência de relação entre as palavras, usando umas palavras arcaicas: “Ela será chamada ‘virago’, porque foi tirada do varão!”.

Mas no hebraico fica bastante claro. A palavra que designa homem é ish e a palavra que designa a mulher é isha. Assim, “Ela será chamada ‘isha’, porque foi tirada do ish!”. O homem dá o nome para a mulher, mas não dá qualquer nome. Ele dá o seu próprio nome para ela. Fazendo isso, ele reconhece essa igualdade, essa igual dignidade e esse chamado à relação, à comunhão.

2.4. A NUDEZ ORIGINAL

São João Paulo II aprofunda muito sobre esse dado da nudez original. Que significado ela tem? Ele descarta qualquer significado de primitivismo ou de infância psicológica. O que a Bíblia está querendo nos dizer a respeito disso é algo muito importante que nós ainda não entendemos. Por que o homem e a mulher andavam nus e não se envergonhavam? O que isso significa?

O “SIGNIFICADO ESPONSAL” DO CORPO

Primeiramente São João Paulo II vai falar do significado esponsal do corpo (ou significado nupcial ou conjugal do corpo). O corpo sexuado humano é um corpo glorioso, que glorifica a Deus, porque reflete o Deus comunhão, reflete a comunhão de Deus. Justamente no corpo sexuado fica refletido o estar em relação. Ser homem é ser para a mulher, ser mulher é ser para o homem — estar em relação com o outro, ser para o outro. Nós somos um dom para o outro.

O corpo tem um significado nupcial no qual nós somos um dom, um presente. Nós somos um presente que Deus fez para nós mesmos. Deus não nos criou para sustentar a vida de outro ser ou dar sentido a outro ser que nós consideramos maior do que nós. Nós não fazemos parte da cadeia alimentar de nenhum outro bicho.

Em algumas culturas os homens se consideravam escravos de outro ser que era Deus (ou dos deuses). Eles achavam que viviam para sustentar os deuses. Os astecas faziam sacrifícios humanos porque acreditavam que se eles não dessem o sangue deles para Deus, Deus não iria aparecer no dia seguinte e o mundo acabaria. Eles achavam que tinham que morrer para que o Deus deles vivesse. Depois, apareceram os cristãos ensinando que era ao contrário: Deus que morreu para que nós vivêssemos; ele que deu o sangue dele para que nós vivêssemos. Esse é o grande Evangelho.

O ser humano é um presente para si mesmo. O homem é um presente para a mulher, a mulher é um presente para o homem e, de uma forma mais ampla, todos nós somos presentes uns para os outros.

TOTAL LIBERDADE DO DOM DE SI

Nós somos dons uns para os outros. Quando falamos de dom, excluímos qualquer significado de obrigatoriedade ou de comércio. A troco de quê Deus nos criou? A troco de nada. É um pouco difícil entendermos isso. Tem gente que passa a vida toda e não entende isso: a liberdade do dom, o dar alguma coisa com liberdade.

Imaginemos que nós déssemos um presente para uma pessoa e essa pessoa desconfiasse da nossa intenção, achando que queríamos algo em troca. Ficaríamos muito ofendidos, porque isso iria contra toda a lógica do dom, do presente.

O homem e a mulher, no plano original de Deus, tinham total liberdade do dom de si mesmos. E isso significa uma total liberdade diante do próprio impulso sexual.

Portanto, ninguém é obrigado a se entregar. A nossa entrega não deve ser arrastada por nada, mas deve ser com total liberdade. Esse é o plano original de Deus. Afinal, se nos entregamos obrigados, já nos tornamos um instrumento, um objeto. Já não somos mais um sujeito na frente do outro. Já nos tornamos uma coisa, porque a nossa liberdade não está presente ali. E se a nossa liberdade não está presente, nós também não estamos presentes. Então, o que está sendo entregue ali é um resíduo de nós, um nada.

O significado esponsal do corpo tem a característica de uma entrega livre. E São João Paulo II já introduz um assunto do qual ele vai falar de forma mais demorada depois: as pessoas que se consagram a Deus. As pessoas consagradas mostram de uma forma muito eloquente essa liberdade do dom do seu corpo, porque elas mostram que a entrega do corpo não é uma coisa obrigatória, mas uma coisa livre.

Assim, o corpo não tinha nenhum motivo para causar vergonha ou medo. A pessoa não se sentia constrangida nem obrigada (nem pelo seu próprio corpo, nem pelo corpo da outra pessoa) a uma união desconectada do dom total da pessoa livre.

2.5. A DIMENSÃO DO DOM

EU ME ACEITO COMO DOM DE DEUS

O que significa essa lógica do dom, que envolve o ser humano como um todo e, de forma especial, a sua sexualidade? Significa, em primeiro lugar, que nós nos aceitamos como dom de Deus. Nós aceitamos que Deus nos deu um grande presente, que somos nós mesmos, que é a nossa vida. Deus nos deu a nós mesmos como um dom, nos deu a vida como um dom gratuito, por uma vontade livre e soberana dele. Ele não foi obrigado a nos criar. Criou-nos por amor.

EU ME ACEITO COMO DOM PARA O OUTRO

E depois, nós nos aceitamos como um dom para o outro. Aqui, falamos de uma forma ampliada. Não simplesmente o homem como dom para a mulher ou a mulher como dom para o homem, mas nós como dom uns para os outros. Nós somos um presente para os nossos semelhantes.

Na relação entre homem e mulher, o homem se aceita como dom para a mulher e a mulher se aceita como dom para o homem. Mas como dom, não como algo empurrado ou obrigatório, ou algo em que a pessoa está condenada a fazer, porque a lógica do dom não é essa. A lógica do dom é a lógica da gratuidade.

EU ACEITO O OUTRO COMO DOM PARA MIM

Está escrito no nosso corpo que nós somos um dom, que nós somos um presente. E nós também aceitamos o outro como um dom, como um presente para nós. E é um presente marcado também pela lógica do dom, para ser dado na plena liberdade e no amor.

DOAR E ACEITAR O DOM PASSA A SER UMA SÓ COISA

São João Paulo II chega a afirmar que doar e aceitar o dom passa a ser uma só coisa e que isso acontece de uma forma específica, especialmente eloquente e radical na união entre o homem e a mulher, na união conjugal, na união pela qual os dois se tornam uma só carne.

Essa união traz em si justamente essa lógica do dom, onde doar e aceitar o dom passa a ser uma só coisa. É um só ato. Numa relação conjugal, ao mesmo tempo em que uma pessoa entrega o seu corpo, ela recebe também o corpo da outra e não só o corpo, mas a pessoa inteira. Nessa união, o dar e o receber se torna uma coisa só, um ato único.

GN 4, 1: CONHECIMENTO E PROCRIAÇÃO

Por fim, São João Paulo II encerra toda essa consideração falando sobre uma frase do Gn 4,1: “O homem conheceu Eva, sua mulher; ela concebeu e deu à luz Caim”. Em algumas traduções está escrito: “se uniu à sua mulher”, mas, o termo literal hebraico é “conhecer” e significa a relação sexual em vários textos da Bíblia. Como na cena da anunciação, onde Maria diz ao anjo: “Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?” (Lc 1, 34).

No hebraico, conhecimento não é algo intelectual, é uma experiência, é fazer a experiência. Adão conhece Eva, no sentido de que ele tem uma profunda experiência com ela. Aliás, ela vai ser chamada Eva justamente por ter um filho. Adão deu a ela o nome de Eva, ou seja, a mãe de todos os viventes.

O homem e a mulher já sabiam que tinham sido criados como dom um para o outro, já conheciam que esse dom era a imagem e semelhança de Deus, mas ainda faltava saber uma coisa. E um é que vai revelar isso para o outro.

A mulher revela para o homem que ele é pai e o homem revela para a mulher que ela é mãe. É nessa relação que entra a “imagem e semelhança” de Deus Criador. Inclusive, existe o seguinte paralelo no texto “Adão gerou um filho à sua imagem e semelhança” (Gn 5, 3) e a mulher diz, ao dar à luz “Eu gerei um homem com a ajuda de Deus” (Gn 4, 1), que é o significado do nome Caim.

Ela percebe que o gesto criador de Deus aconteceu de novo ali, porque o que surgiu naquela geração foi um ser humano. Um ser humano que é um dom, que tem de novo essa experiência da solidão original, ou seja, ele não é comparável a nenhum animal, porque ele é a imagem e semelhança de Deus. Assim, o milagre acontece de novo. Surge um novo ser humano. O ser humano descobre que ele pode se autocriar e a cada ser humano que surge, surge de novo essa experiência do homem sozinho e voltado para Deus, a experiência do homem como dom, chamado à comunhão.

Como podemos observar, essa geração do primeiro ser humano acontece depois do pecado original. Ela é apontada como um sinal de esperança e está ligada com aquilo que Deus já havia dito para a serpente: “Eu porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela” (Gn 3, 15). Naquele momento, Deus já anuncia que a mulher vai ter uma descendência e que essa descendência um dia vai ser a responsável pela vitória sobre essa serpente.

Muitas pessoas tem raiva de Eva por causa do pecado original, mas não podemos esquecer que sem Eva não haveria Maria, sem Maria não haveria Jesus e sem Jesus não haveria salvação.

É muito interessante notarmos que o pecado original, antes de mais nada, foi um ato espiritual. O pecado entrou no mundo por causa de uma atitude espiritual de desobediência e de orgulho, mas a salvação entrou no mundo por causa de um ato carnal: o ato de gerar descendência. Porque a descendência da mulher vai esmagar a cabeça da serpente. Essa serpente que a fez pecar no espírito pela desconfiança de Deus vai ser vencida pela carne. Por isso, o antigo autor Orígenes, dizia que “a carne é o eixo da salvação”.

Nesse primeiro ciclo de catequese, a intenção de São João Paulo II é nos colocar no princípio, ou seja, nos levar para o jardim do Éden e nos fazer contemplar um pouco como era esse jardim e qual era o plano original de Deus para o homem.

**PARTE 1 PARTE 3**


메타데이터
post_id
6dac4fc7e224
slug
a-teologia-do-corpo-de-são-joão-paulo-ii-2-7-6dac4fc7e224
url
https://medium.com/@padrecelsoportonogueira/a-teologia-do-corpo-de-s%C3%A3o-jo%C3%A3o-paulo-ii-2-7-6dac4fc7e224
canonical_url
https://medium.com/@padrecelsoportonogueira/a-teologia-do-corpo-de-s%C3%A3o-jo%C3%A3o-paulo-ii-2-7-6dac4fc7e224
author_url
https://medium.com/@padrecelsoportonogueira
status
ok
fetched_at
2026-08-06 21:32:45