Lágrimas invisíveis no jardim de Eva
Aos sábados, logo cedo, vovó costumava regar as plantas do jardim. Eu adorava ficar por perto. Gostava do cheiro de terra molhada que…
Lágrimas invisíveis no jardim de Eva

Foto gerada por IA
Aos sábados, logo cedo, vovó costumava regar as plantas do jardim. Eu adorava ficar por perto. Gostava do cheiro de terra molhada que tomava conta do ar, de sentir a grama verdinha escorregando sob os pés descalços. e de observar o cuidado com o qual ela matava a sede de cada plantinha. Cada uma tinha uma história, plantada por ela ou pela irmã. Às vezes, uma regava de manhã e a outra à tarde, em dias de semana. Era quase um ritual, desses que fazem o tempo parar.
Eu ficava observando, esperando o momento que mais amava: quando vovó, com um sorriso discreto, me dava um banho de mangueira ali mesmo, entre as plantas. Eu tirava minha roupa e pulava de alegria, livre como a água que dançava no ar. Era um dos meus maiores prazeres, quando sentia seu carinho em forma de espuma e sabonete. Era dos poucos momentos que ela mostrava seu afeto. Mas uma certa manhã, mudou tudo. A última vez que tomei banho de mangueira no jardim ficou marcada de um jeito que nunca esqueci.
Eu devia ter uns cinco anos. Enquanto vovó foi buscar a toalha, fiquei sozinha, brincando. Peguei a mangueira e deixei a água escorrer pela cabeça, como se estivesse numa bica ou cachoeira. Foi então que olhei para o lado e vi dois rostos estranhos espiando por cima do muro baixo. Duas mulheres, desconhecidas, com olhares desconcertantes..
Naquele instante, algo mudou em mim. Eu, que até então não sabia o que era vergonha, senti uma pontada estranha, um desconforto. Os olhos delas eram dilacerantes, cheios de censura, e eu não entendia ao certo o porquê.
As duas cochichavam algo que não lembro bem, e riam, debochavam de mim. Mas algumas palavras ficaram. Uma delas me chamou de “sem vergonha”. Instintivamente, cobri meu corpo com as mãos, tentando me esconder, tal como Eva no jardim do Éden após comer a maçã.
Vovó voltou com a toalha e percebeu minha expressão. Olhou para o muro e, como uma galinha protegendo seus pintinhos, me envolveu por baixo de suas asas e disse algo às mulheres. Mas já era tarde. Aquele olhar maldoso tinha roubado algo de mim.
Depois disso, os banhos de mangueira nunca mais foram os mesmos. Vovó me chamava, mas eu recusava. Quando ia, permanecia de roupa. A alegria pura daqueles momentos havia sido tomada e transformada em algo proibido, que eu não compreendia e levei anos para entender. Como se a criança tivesse culpa de alguma coisa.
Por muito tempo, esperei o dia em que a inocência da minha criança iria se recuperar, mas ela foi ficando cada vez mais distante. O tempo não apaga certos olhares e julgamentos. O corpo tornou-se alvo de outros olhos e mãos, e a marca da maldade humana foi invadindo, pouco a pouco, a minha infância e violando minha pureza, de outras formas, tantas vezes. Aos poucos, aprendi que algumas marcas não são visíveis, mas estão dentro de nós, silenciosas, até que se tornam parte do que somos.
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