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AC/DC, a turnê de alta voltagem finalmente passou pelo Brasil

A PowerUp Tour encheu o Morumbi em três noites inesquecíveis para os fãs do bom e velho rock’n’roll

Giully Regina · 2026-03-06 14:47 · 0 claps · 6.2 min read
#acdc #live-shows #music #rock #rock-and-roll
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AC/DC, a turnê de alta voltagem finalmente passou pelo Brasil

A PowerUp Tour encheu o Morumbi em três noites inesquecíveis para os fãs do bom e velho rock’n’roll

Desde 2024 eu ouço os boatos que a banda chegaria a se apresentar nas terras tupiniquins. Alguns sites chegavam a anunciar quantos shows seriam. E a expectiva crescia. Apenas para ser um balde de água fria quando a banda anunciava outra volta em outra parte do mundo.

A última turnê que trouxe o AC/DC para o Brasil foi para promover o álbum Black Ice, em 2009. E antes disso, em 1996. Foram datas que eu não pude comparecer — em 2009 porque era uma adolescente de 13 anos que nem sabia que o show ia acontecer, apesar de já conhecer a banda. E nos anos 90, bem, eu estava me preparando para chegar ao mundo. Até reclamei com a minha mãe, como ela não pensou em ir, grávida de oito meses, até a Pedreira Paulo Leminski para ver o show, ao que ela respondeu: “E como eu ia saber que você ia aprender a gostar de AC/DC?”

Nesse meio tempo, a banda por si só passou por várias turbulências. Em 2014, Malcolm Young, o irmão mais velho e companheiro inseparável de Angus, a guitarra base do AC/DC, foi diagnosticado com demência. Naquele mesmo ano, eles lançaram ainda o CD Rock or Bust, com Stevie Young, sobrinho dos dois, na guitarra.

Em março de 2016, Brian teve que se afastar do palcos, pois corria o risco de perder totalmente a sua audição. Devido a uma corrida de carros que participou sem tampões e teve o tímpano perfurado. Para completarem a agenda de shows, Axl Rose, do Guns’N’Roses, assumiu seu lugar temporiamente. Brian voltou aos palcos depois de um tratamento experimental.

Foram longos anos de espera, e mais alguns de expectativas frustradas com anúncios furados. Mas finalmente aconteceu. Uma única data. Em São Paulo. Em 2026. Parecia um sonho. O raio vermelho tatuado no meu braço chegou a formigar de antecipação.

Não sabia como, mas eu veria Angus Young e Brian Johnson ao vivo e a cores.

A compra dos ingressos foi uma aventura por si só. Um país inteiro para encher um estádio. Eu mal consegui acessar o site, ainda estava na fila virtual quando vi um novo link, avisando que a primeira data estava esgotada e estavam abrindo a venda para um segundo show, no dia 28 de fevereiro.

Foi menos de trinta minutos e mais de 80 mil ingressos esgotados. Essa é a força do AC/DC.

Troquei de link sem pensar duas vezes, e avisei meu namorado. Quando acessei, a pista A, que daria para ver eles tão de pertinho já não tinha mais ingressos. Fiquei com a pista B, que na minha opinião foi a segunda melhor opção. Selecionei e fui direto para o pagamento, antes que perdesse aqueles também.

Quando a compra foi aprovada eu comecei a tremer. Eu tinha conseguido!

Ainda parecia um sonho. Ainda faltavam meses, natal, ano novo, carnaval e só então o show. Tão perto e tão distante.

Mas tudo passou como um vulto. De repente estava em um avião, indo para São Paulo, prestes a realizar meu sonho.

O bar temático

Na sexta-feira, vespéra do meu dia de encontrar com o AC/DC, eu já estava em terras paulistas e aproveitei para turistar. O dia terminou com a visita no bar temático que foi aberto especialmente para os fãs da banda.

Além de itens clássicos, como um canhão utilizado nos anos 1980, um sino e uma homenagem ao seu primeiro vocalista, Bon Scott, também havia uma loja oficial.

Muito além de camisetas da turnê, o merchandising da banda era completo, com meias, chifrinhos oficiais, discos de vinil importados e muitas outras coisas.

A fila estava enorme, mas garanti meu copo do show para minha coleção particular, um par de meias para o dia seguinte e os famosos chifrinhos para brilhar com a multidão.

A entrada no estádio

Cheguei na fila às 9h da manhã. Por já ter mais de uma década de experiências em shows, eu sei que o lugar que ficamos é muito mais questão de sorte, mas não ia abusar chegando perto do horário dos portões abrirem.

Foram longas horas de espera. Um sol ardente. Confusão na fila. Pessoas tentando atravessar. Estresse. Dores musculares.

Mas o foco era um só: ficar no melhor lugar possível para ver o AC/DC.

Quando os portões abriram, às 16h, consegui me esgueirar e correr para frente. Peguei um lugar na grade, com vista para o meio do palco e direto para um dos telões. Era o melhor que conseguiria ali na pista B.

Depois, mais algumas horas de espera.

O show de abertura começou pontualmente às 19h30. A The Pretty Reckless está acompanhando toda a turnê do AC/DC e é uma posição mais do que merecida. A banda comandada por Taylor Momsen é relativamente nova, lançou seu primeiro CD em 2010, mas é rock puro, com uma guitarra e bateria muito marcantes, além é claro da voz inconfundível da Taylor. As músicas deles são incríveis. Sou suspeita a dizer, já que acompanho eles desde sempre. Foi maravilhoso ver eles ali antes do AC/DC.

Eles tocaram dez músicas, em uma hora de show, passando por um pouco de cada álbum e ainda estreiando ao vivo o último single: For I am death.

O público em geral não conhecia bem a banda, mas acredito que eles deixaram uma boa impressão.

Então as luzes se apagaram. Em meia hora, o tempo e o espaço mudariam.

Literalmente, Power Up

Às 21h, pontualmente, os telões ligaram. Um vídeo começou. Um carro de corrida avançando a toda velocidade na estrada, chegando a São Paulo — estacionando no Morumbi. Mostrando o público que aguardava ansiosamente por aquele momento.

Antes de ver, nós os ouvimos. Os primeiros acordes de If you want blood, you got it. Do álbum Highway to Hell.

Nesses primeiros minutos, não consegui cantar. Não consegui gritar. Eu chorei.

Ao ver Brian Johnson e sua iconica boina. Angus com seu uniforme escolar e seus cabelos agora todos brancos.

Eu estava ali, eu estava vivendo aquilo. Era um sonho de criança. Quantas vezes gritei aquelas músicas pela casa? Quantas vezes tentei imitar o duck walk com uma vassoura, antes de ter a minha própria guitarra?

Quantas vezes, eles me energizaram com o poder de suas músicas, quando eu estava me sentindo mal. Quando eu pensava: Estou precisando me animar, vou colocar AC/DC no último volume, os vizinhos que lutem.

E agora eles estavam ali.

Levei quase a música toda para me recuperar. Eu queria cantar. Queria pular. Queria aproveitar cada segundo.

Até o Brian concordou: São Paulo, it’s been too long!

A música seguinte foi um grito de guerra: Back in Black.

O álbum que foi lançado depois da morte trágica de Bon Scott, quando AC/DC estava começando a alçar voos mais longos, depois de muita luta para serem reconhecidos. A perda moldou a banda, mas também os fez dar uma volta por cima, sem nunca esquecer de onde vieram.

I’ve been too long, I’m glad to be back

A terceira ficou com Demon Fire, do último álbum, o Power Up, que deu nome a turnê que finalmente os trouxe de volta ao Brasil. Depois, deram uma nova volta ao Highway to Hell, com Shotdown in Flames.

E fizeram o estádio tremer com a força de Thunderstruck.

I look ‘round, and I knew there was no turning back (thunder)

Um dos momentos mais aguardados, no entanto, foi quando as luzes novamente se apagaram e o público ouviu o badalar de um sino, que desceu até o meio do palco. Hells Bells.

Eles correram de um lado para o outro, cantaram, pularam e fizeram com que nós nos sentíssemos ali no palco com eles. Eles estavam com a gente. cantando para cada uma das 80 mil pessoas presentes.

E Brian deixou um recado, que repercurtiu nas três noites de shows:

“Você sabe o que é isso? É apenas Rock’N’Roll. Está ligado em São Paulo, está no Brasil, curtindo — você sabe, isso é liberdade, ninguém pode tocar isso. Políticos não podem tirar isso. Essas pessoas não podem tirar isso de você. Esqueça!”

E claro, nós fomos direcionados para a autoestrada para o inferno, com a música do seu álbum divisor de águas.

Cantamos sobre como Dirty deeds done dirt cheap e ecoamos uma das canções que mais faz jus a banda, ao seu raio e suas canções: High voltage. Um rock de alta voltagem, uma energia passando por todos os lados, por cada setor, na luz das centenas de chifrinhos piscando em vermelho no Morumbi.

Quando chegou Let there be rock, e que assim haja rock, fomos presenteados por um solo magnífico de Angus, que durou vários minutos em uma plataforma que o levantou acima do palco e onde ele dançou, girou e tocou com toda a sua força. Até deitar-se no chão e girar, como sempre fez. Levando a multidão a gritos enérgicos.

A banda deu boa noite. Mas nós sabíamos que ainda não tinha acabado.

Logo eles voltaram para o extra. Explodiram o estádio com T.N.T. Para logo em seguida, saudar a nós, com os canhões de For those about to rock — o final clássico, mas muito aguardado de todos os shows do AC/DC.

Quando o último canhão estourou, os fogos de artificio tomaram conta e então eles realmente saíram do palco. Deixando a sua logo no telão. E lembranças para uma vida inteira.

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