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Crônicas dos Reis — Noites Sangrentas

Capítulo 1

Filipe Olegário de Carvalho · 2024-06-20 00:59 · 0 claps · 9.3 min read
#medieval #vampiros #fantasia #lobisomem #elfos
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Wiki topics: HIS · History

Crônicas dos Reis — Noites Sangrentas, Cap. 1 — Sora

Em algum lugar das terras do lorde Markov, no meio duma floresta próxima ao castelo, a aurora traz um novo dia, e para Sora, a irritante sensação de acordar com a cegante luz do sol em sua face.

  • Arrrg… caralho…

Diz, e levanta titubeante.

  • Puta que pariu…

Terminando de levantar ele se senta em uma pedra próxima e, estando agora tão próximo ao seu objetivo, começa a pensar em como tem sido a sua vida nos últimos anos. Vivendo como um mendigo, sem um lugar para onde ir ou para onde voltar e sem ninguém que o fizesse companhia, sentia-se um tanto depressivo, muito embora tenha se habituado à solidão e agora encontrasse nela alguma satisfação. A privação do convívio humano de alguma forma trazia-lhe uma profunda sensação de liberdade. Não devia nada a ninguém; seu comportamento não estava submetido à qualquer julgamento; nada do que fizesse podia agradar ou desagradar a pessoa alguma. Mas, era uma sensação com a qual já estava acostumado e da qual, sinceramente, já se sentia cansado.

Agora, no meio de um lugar desconhecido, e tendo já refletido sobre os aspectos mais sutis de sua existência, acometeram-no as sensações mais primitivas. Fome; há dias não comia algo que se pudesse chamar de comida. Sede; as escassas fontes de hidratação consistiam na eventual água de chuvas e de riachos. Dor; dos calos, dos cortes, e da fatiga.

  • É… realmente eu tô na merda. E o pior é que eu nem sei se essa porra desse boato é verdade.

Apenas uma coisa o levara a persistir, ou, falando mais francamente, a existir até agora: os profundos desejos de vingança e de poder que tanto o consumiam como lhe davam forças para continuar.

Levantou: não tinha mesmo alternativa. E continuou: não que agora ele pudesse voltar. Poderia procurar alguma coisa para comer ou para beber; mas a proximidade de seu objetivo o deixava agora ansioso; mais fácil suportar a fome e a sede.

Três anos atrás, em circunstâncias trágicas, Sora perdera seus pais. Utilizados como sacrifício em algum ritual macabro, sabe-se lá com quê objetivo, Zatara e Liana o abandonaram na imensa vastidão do mundo. Sozinho, pensara em se matar; mas encontrou nos mesmos motivos que o levariam à morte, as razões para viver.

Após algumas horas de caminhada Sora viu ao longe, por entre as copas dos pinheiros que o rodeavam, a vaga silhueta de um castelo.

  • É… pelo visto não tô perdido.

Prosseguiu. Mas eis que se aproximando do castelo, a ansiedade e a dúvida o acometeram. Não era como se o plano fosse dos mais razoáveis; boatos ouvidos numa taverna o levaram até ali; supostamente, o Lorde Markov seria um vampiro; em outras palavras, uma chance única de obter poder, tão necessário à vingança. Mas porque diabos ele deveria realmente acreditar nisso? Os camponeses bêbados inventavam toda sorte de histórias idiotas e mirabolantes sobre seus nobres senhores. Qual era a probabilidade daquilo ser realmente verdade? E justamente naquele reino, de todos o que tinha em seu povo a maior devoção religiosa. Somente o cúmulo desespero levaria alguém a acreditar nisso, e não somente acreditar, mas percorrer metade do reino, à pé, para ir de encontro a esse tal Lorde Markov.

  • Caralho, que merda eu fui fazer!

Sora agora tinha a certeza de que tudo aquilo fora uma ideia imbecil. Procurou um tronco caído para se sentar. Estava agora angustiado e desolado.

  • Tudo isso pra nada! Que plano estúpido! Como é que eu vim até aqui sem me dar conta disso!

Jogou-se no chão, olhando pro céu; seus olhos umedecidos não ousavam chorar; há muito tempo decidira que não havia em sua alma espaço para a fraqueza. Mas de súbito, levantou.

  • Foda-se! Caminhei a metade do reino pra chegar até aqui, não vai ser agora que vou voltar.

E com esse ânimo caminhou mais um quilômetro, somente para parar novamente.

  • Puta que o pariu!

De repente Sora considerou o que seria se tudo fosse realmente verdade. Por que motivo Markov o transformaria? Por que não o mataria? Por que não o jogaria nas tais fazendas humanas? Na verdade, era improvável que sequer o recebesse. Sentiu um desânimo, mas continuou a caminhar.

  • Agora eu vou ter que falar com ele de qualquer jeito!

Caminhou, e caminhou, e chegou por fim ao fim da floresta. Diferente dos outros castelos, esse era distante da vila dos camponeses; nada havia no entorno. Era agora cerca de duas horas da tarde.

  • Se esse cara for realmente um vampiro, não é agora que ele vai me receber.

Disse, e decidiu procurar na floresta alguma coisa para comer, sabendo que essa poderia ser sua última refeição. Comeu o de sempre, uns cogumelos que sabia não serem venenosos.

  • Se tudo der certo, a partir de hoje minha alimentação vai ser sangue!

Comeu, sentou-se em um canto qualquer, e esperou o anoitecer. Veio o crepúsculo e se foi; Sora levantou. E aproximando-se do castelo, a ansiedade deu lugar ao nervoso. Chegando ao portão, ouviu um guarda do topo da muralha dizer:

  • Pare onde está! Quem é você?
  • Sora.

Gritou.

  • Sora? Esse nome não me diz nada!
  • Mas em breve dirá.
  • Hahaha… muito audaz para um mendigo faminto! O que quer aqui?
  • Falar com o senhor seu lorde.
  • Há! Tua audácia não para de me impressionar! Por que ele o receberia? Um verme como você!
  • Por quê? Boa pergunta. Para falar a verdade eu não sei… mas tenho a impressão de que o Lorde Markov tenha algum uso para alguém que mataria e que morreria pelo poder.

Os guardas, que eram dois, se entreolharam. E então o que estivera em silêncio pôs-se a dizer:

  • Não o compreendo meu amigo. Explique-se.
  • Não compreende? Não mesmo?! Pois eu acho que o senhor me entende muito bem.

O guarda esteve a pensar um instante, e então observou o audaz viajante. Por fim, retirou-se sem dizer nada. Sora, imaginando que ele fora falar com o Lorde, esperou que o guarda voltasse, como de fato voltou.

  • O nobre Lorde Sorin Markov o receberá. Apenas sugiro, meu amigo, que tenha com ele a língua um pouco menos afiada.

Os portões se abriram descortinando uma visão impressionante, e de certa forma, atemorizante. Poucos metros à sua frente, o aguardavam os grandiosos portões do salão principal, feitos de arabescos rebuscados sobre um amplo vitral, e de dentro do salão emanava uma luz vermelha e sombria; isto e a arquitetura gótica do castelo causavam uma impressão profundamente sombria e grandiosa.

Diante desta vista, apenas um pensamento lhe ocorreu: ”Fudeu!”. Atravessou o pátio e escoltado por dois guardas, adentrou o amplo salão onde ao fim de uma longa mesa, o Lorde sentava-se, fumando lentamente um cachimbo de prata e bebendo, de quando em quando, o que parecia ser uma taça de vinho. Tinha um ar tanto curioso como desinteressado. Sentadas à esquerda e à direita, encontravam-se três belas mulheres, todas muito pálidas, como seu nobre aliás. “Esse com certeza não é dos mais devotos”, pensou. Os guardas se retiraram. “Só tem um motivo pra esses caras deixarem um completo estranho sozinho com o seu nobre… e é se eles tiverem certeza de que eu não ofereço qualquer perigo.”, pensou novamente, e de repente teve a certeza de que todos os boatos eram verdadeiros. Seu coração disparou. Todo o seu corpo se arrepiou. Estar diante de um poder incompreensível que tanto o poderia matar com lhe dar a imortalidade de repente lhe deu uma profunda sensação de imersão na realidade, uma realidade densa que agora pesava sobre ele, e somente agora lhe ocorreu que talvez ele nunca tivesse realmente acreditado em tudo aquilo; talvez tudo não passasse de uma desculpa para se manter vivo, para adiar o inevitável; no fundo, alguma parte especialmente cínica do seu ser esperava chegar às portas do castelo, dar com os burros n’água, enfrentar a dura realidade e então finalmente se matar. Mas quis o destino que fosse tudo verdade! Verdade! Essa história ridícula! “Esse tal de Destino é realmente um otário”, pensou.

  • Uma longa vida, meu caro, eventualmente o presenteia com umas situações realmente curiosas. Como essa por exemplo. Bem, eu não costumo empregar meu precioso tempo com todo viajante que bate às portas do meu castelo; o senhor queria uma audiência com o Lorde, e agora, incrivelmente, a conseguiu; diga-me o que tem a dizer.
  • Eu tenho caminhado há quase um ano para estar em tua presença; caminhei ao largo de mares e pelas profundezas de vales, por florestas e por planícies; conheci o rigor do frio e a intrepidez das tempestades. A fome e a morte me assolaram. Creia-me, meu lorde, não suportei a tudo isso por motivos levianos. E não será por motivos levianos que tomarei o teu tempo.
  • Hum… você me parece bem determinado. Mas determinado a quê? O que exatamente acreditas que eu posso te dar?
  • Em uma palavra? Poder. Em quatro, poder para obter vingança!
  • Eu perguntaria que vingança seria essa… mas para ser bem franco, isso de fato não me interessa, e tenho a leve impressão de que você não gostaria de compartilhar… então, a pergunta que eu te faço é, o que eu ganharia com isso?
  • Um servo, inescrupuloso e leal. E acredite, meu Lorde, eu não me entrego à servidão com duas razões.

O Lorde Markov não respondeu; parecia refletir por uns instantes… e então, falou:

  • Que assim seja.

Pela primeira vez em alguns meses, Sora não acordou com a luz do sol. Ao invés disso, acordou com o gotejar das estalactites da gruta onde se encontrava.

  • Que porra é essa?

Levantou-se e tentou em vão lembrar como havia parado ali. Uma fome insuportável o acometeu. Mas não era essa a sensação de fome habitual; trazia consigo uma certa ansiedade, e a ansiedade produzia (ou era o contrário?) nítidas imagens em sua mente, nas quais Sora se via matando, esquartejando, e a agonia das vítimas causava-lhe imenso prazer. O desespero, em particular, das vítimas que se debatiam e tentavam em vão fazer o que quer que lhes permitissem sobreviver; matar nesse exato momento era o que proporcionava o maior prazer, talvez pela sensação de poder e de superioridade, afinal, era no auge do desespero que Sora sabia que elas fariam de tudo, absolutamente tudo, para sobreviver, um desejo que ele podia simplesmente negar. A ansiedade se transformara numa ânsia que o fazia tremer e que o levou a sair da gruta a toda velocidade. Tinha que achar alguém para matar. Ao sair, reconheceu o local; já tinha por ali passado. “Olha, ele se deu ao trabalho de me colocar no caminho de volta. Poderia me deixar na porta de casa, mas aqui já tá bom também”, pensou, sarcasticamente. E recordou-se que havia uma vila próxima. Ajustou seu rumo para lá. Corria já há algum tempo quando percebeu que a sua velocidade aumentara consideravelmente, e que há muito tempo já deveria estar cansado. “Eu deveria ter virado vampiro há mais tempo…”. Em poucos minutos chegou ao local. Aproximando-se da vila reduziu a velocidade, e sentiu um forte receio de ser visto. Correu para um canto em uma viela, e tendo percebido algumas janelas abertas, cuidou para que por elas não passasse. Olhando sorrateiramente por uma delas percebeu que não havia ninguém no cômodo, e se perguntou quantas presas haveria lá dentro. O desejo de matar subiu para níveis estratosféricos; mas percebeu que algo o impedia de pular a janela e entrar. Desistiu. Continuou a perambular pelas vielas. Lembrou-se que havia naquela vila uma taverna, e então se dirigiu para lá. Chegando, escondeu-se num canto de onde podia ver o entrar e sair dos camponeses. A ansiedade sumiu e converteu-se a sua mente num lago de águas tranquilas; nenhum pensamento lhe ocorria. Observava e aguardava como um paciente predador, e então percebeu que naquele exato momento não agia por deliberação, mas por instinto. “Eu deveria ter virado vampiro há mais tempo…”. Não saberia dizer por quanto esperou. Muitos camponeses entraram e saíram da taverna; mas não era o momento oportuno. Em algum momento da noite, quando as velas dos casebres já haviam se apagado e o movimento tornara-se mais escasso, Sora soube que o momento se aproximava. E então, sai da taverna um bêbado com o andar trôpego típico dos que beberam muito mais do que o fígado pôde aguentar. A vítima perfeita. Sora o seguiu sorrateiro; seu andar não produzia som. Num canto particularmente escuro o instinto converteu-se num ímpeto irracional. Sentiu suas garras e dentes crescerem. E numa velocidade sobre-humana cravou suas garras no pescoço do homem. Poderia já se alimentar de seu sangue; mas preferiu observar a vida se esvair do pobre homem que se debatia, desesperado. E então parou. “Só?”. Sora estava decepcionado. “Matei rápido demais… ereção precoce é foda.” Cravou seus dentes no pescoço e sugou o quando pôde. Terminando, largou sua presa sem vida e evadiu-se silenciosamente do local. Saindo da vila, correu a toda velocidade. De repente, sentiu-se mal; lembrava-se do homem se debatendo e sentia um mal-estar entre o peito e o estômago. A sensação intensificou-se e converteu-se numa dor física; sentia agora um profundo remorso pelo que acabara de fazer. Sora adentrou a gruta e jogou-se num canto, deitado. Aquele homem nada fizera para merecer seu destino; mas pior que a injustiça era o fato de que o ato hediondo lhe havia proporcionado um prazer indescritível. Sora compreendeu naquele momento que havia se transformado num monstro. Sentia uma dor angustiante na boca do estômago, e a memória do fato, da qual tentava em vão se esquivar, só fazia piorar a dor. Levantou-se, e tendo compreendido que não merecia e que não deveria viver, buscava um meio de suicidar-se; mas uma forte sonolência abateu-se sobre ele, e assim adormeceu.


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