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A influência das telenovelas brasileiras na cultura africana

Pedro Florencio · 2025-08-07 18:37 · 1 claps · 10.1 min read
#jornalismo #angola #ufrrj #novela #cultura-brasileira
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A influência das telenovelas brasileiras na cultura africana

O mercado de Roque Santeiro, em Luanda (Crédito: Getty Images)

O mercado de Roque Santeiro, em Luanda (Crédito: Getty Images)

As Telenovelas são objetos culturais?

As ficções seriadas, dentro das quais se engloba a telenovela, são produtos esnobados no campo de análise antropológico, visto que esse objeto é encarado quase que inteiramente como um produto da indústria da cultura de massa que não é culto ou erudito o suficiente para necessitar de uma análise teórica.

O pensamento dos acadêmicos, muitas vezes, percorre a ideia de que essas narrativas se adequam a esferas simples, estruturadas apenas para o entretenimento e inaptas de constituir uma produção artística complexa. Tal suposição deriva principalmente dos teóricos da Escola de Frankfurt, que trabalham com o conceito da cultura de massa e da sua utilização para a padronização e massificação do conteúdo buscando a alienação da sociedade.

No entanto, a proposta a ser seguida nesse texto se refere ao estudo das telenovelas que assumem esse papel dentro da indústria cultural, porém que também produzem bens simbólicos para a sociedade através da sua capacidade representativa do cotidiano social podendo ser observada como um bem cultural.

Além disso, há de se levar em consideração, o contexto em que o estudo da Escola de Frankfurt seguia, tendo em vista que retratava a Alemanha Nazista de meados do século 30 a 40. Toda a questão da autonomização concebida na Europa era praticamente inexistente no Brasil em razão dos baixos índices de escolaridade, analfabetismo e pouco investimento nos campos do audiovisual ocasionando na construção de uma indústria cultural a par com a produção artística.

Dessa forma, o meio televiso cresceu de forma orgânica e sem ser degradado, ao contrário do exterior, onde o teatro e o cinema eram vistos ou como obras de maior apelo e complexidade ou com orçamentos e níveis de produção melhores.

Assim utilizando da concepção de Martín-Barbeiro, “as produções do espírito no estilo da indústria cultural não são mais também mercadorias, mas o são integralmente” em relação ao núcleo da televisão não ser rechaçado no Brasil como em outras partes do mundo e contar com a participação e atuação direta de grandes artistas e autores que veem da área teatral, contrastando com a ideia de uma inexistência cultural nesse meio. A aceitação do público a essa mercadoria da indústria não se passa apenas pelas estratégias do mercado para que isso aconteça, mas também com a capacidade da obra de dialogar com os valores e o repertório cultural dos telespectadores.

Logo, as telenovelas podem ser enxergadas como um elemento da identidade nacional do país, transcendendo a fronteira nacional e exportando a cultura brasileira para todo o mundo através de sua característica descritiva e de representação.

O surgimento e a expansão

Em 1963, a TV Excelsior promoveu a estreia da novela “25499 Ocupado”, estrelada por Tarcísio Meira e Glória Menezes, que era dividida em capítulos diários exibidos em horários nobres, inaugurando assim, um período que declamaria umas das maiores paixões do brasileiro: Consumir as telenovelas. A década de 60 serviu como um preparativo para um mercado que se expandiria de forma rápida e ampla.

A emissora Excelsior foi uma das grandes pioneiras nesse processo investindo na profissionalização dos funcionários e na estruturação do setor motivando suas outras concorrentes como a TV Tupi, Rede Globo e Record a seguir o mesmo exemplo. Tamanha movimentação no mercado e a produção cada vez maior de conteúdo ocasionou em uma alta na compra de aparelhos televisivos para os lares brasileiros, o que apenas intensificou o trabalho das emissoras no esforço da criação desse produto.

(Crédito: Arquivo/FolhaPress)

(Crédito: Arquivo/FolhaPress)

As obras que faziam sucesso durante esse período remetiam as aventuras fantasiosas e histórias mirabolantes das novelas do rádio. A exemplo disso, no ano de 1964 um dos maiores campeões da audiência era “O direito de nascer”, escrita pelo Cubano Félix Caignet para o rádio em 1946. O enredo abordava elementos distantes da nossa sociedade, explorando a trama de princesas e sultões e se passando em desertos e florestas. Apenas em 1968 que houve uma revitalização desse pensamento para uma ideia mais próxima ao gênero observado atualmente com a obra “Beto Rockfeller”. A trama apresentava personagens verossímeis e situações cotidianas, se passando em uma cidade brasileira contemporânea. O enredo realista e a facilidade de se relacionar com os cenários representados na ficção geraram grande comoção e empatia por parte do público que começou a acompanhar fervorosamente a história.

Após o estrondoso sucesso de “Beto Rockfeller”, emissoras como a Rede Globo planejaram novos projetos que tivessem os olhos dos telespectadores, mas também que abordassem temáticas diferentes para alcançar diversos setores desse público. Esse foi o caso de novelas como “Irmãos Coragem” lançada em 1970 com um grande foco nos grupos jovens e masculinos. A prática se estendeu, emplacando resultados inegáveis de público até o final da década de 70 e início da década de 80, quando o mercado brasileiro televisivo tinha se consolidado e decidiu por ampliar seu nível de influencia e impacto.

Estima-se que a rede Globo, em 1985 já havia comercializado suas obras e produtos com cerca de 130 países e que cerca de 10% de sua renda descendia do lucro dessa exportação. A indústria dramatúrgica havia se estruturado tanto em seu país de origem como internacionalmente e a real dimensão de sua penetração em mercados exteriores poderia ser observado no continente africano.

Angola e sua relação com as Novelas Brasileiras

Angola é um país localizado no continente africano dividido administrativamente em 18 províncias e abrigando cerca de 25 milhões de habitantes. Marcada por um turbilhão de eventos recentes, Angola é um país que é reconhecido internacionalmente pela sua pobreza e miséria gerada pela guerra contínua que se estende por mais de quatro décadas de combate. A nação ocupa a 160° posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas, além de ocupar a segunda posição na classificação que avalia as maiores taxas de mortalidade infantil.

O cenário caótico é resultado de uma Independência conturbada de Portugal em 1975 e a Guerra civil que vigorou após isso, com diversos grupos políticos tentando preencher o vácuo de poder deixado pelo país colonizador. Os confrontos além de ceifarem cerca de 1 milhão de vidas, provocaram uma onda de refugiados de guerra que, ou saíram do país, ou se estabeleceram nos principais centros comerciais e sociais da região como a capital, Luanda. Esse êxodo forçado e sem controle gerou uma superpopulação, cujo os recursos e a infraestrutura da cidade não comportavam. A crise nos setores de abastecimento, saneamento básico e energia foram complementadas com uma paralisação forçada das principais atividades econômicas como a agropecuária, a indústria pesqueira e a mineração.

Com o país vivendo uma desestabilização geral em todas áreas de maior interesse para a administração do Estado, era inexistente a possibilidade de criação de obras audiovisuais sejam elas os tradicionais telejornais ou ficção. Ainda assim a TVA (Televisão de Angola), criada pelo governo em 1973, se apoderou dos pequenos esforços dos portugueses para montar uma imprensa e utilizou dessa estrutura para abrir esse mercado no país produzindo conteúdo, por mais que sua programação durasse apenas 3 horas e inicialmente, só fosse dissipada através de cabos para Luanda.

Com o tempo, a TVA se tornou TPA (Televisão Popular de Angola), em razão da passagem de Angola de um modelo capitalista para um regime de orientação socialista e com isso o alcance da televisão melhorou, no entanto, a programação antes composta em sua grande parte de noticiários, tornou-se um canal de propaganda política e ideológica, reproduzindo conteúdos produzidos na União Soviética.

A transformação lenta, porém, gradual da televisão de Angola começou, aos poucos, a mudar os costumes dos moradores da cidade que idealizaram a TV, como um objeto de luxo, visto que o preço desse produto era extremamente caro pelo estilo de vida presenciado ali e raro de se encontrar, sendo observado apenas em lojas seletas ou a partir de sua importação de outros mercados.

Mais tarde, foi inaugurada nas cidades de Luanda e Huambo, uma fábrica que produzia esse eletrodoméstico, porém não em uma frequência o suficiente para saciar a demanda. Mesmo com o acesso restrito, a presença desse aparelho nas casas angolanas foi o suficiente para mudar a dinâmica daquela sociedade. Grandes reuniões com destino a casa de pessoas que possuíam a Tv eram organizadas diariamente. A arquitetura de várias casas também foi alterada com a construção de um cômodo como a sala de estar para assistir as atrações exibidas no dia a dia.

Em 1975, estreou na emissora, a primeira novela exibida em Angola e a primeira obra brasileira a chegar no país africano, “Gabriela” passou na tv aberta e conquistou imediatamente o público. Devido ao controle estatal estabelecido pela TPA, os programas que eram mostrados tinham um teor formal e político, e a exibição de uma telenovela foi a primeira vez que os angolanos tiveram um contato com esse meio de comunicação como um instrumento de lazer e entretenimento. A novidade percorreu todo o país e, em pouco tempo, às 9 horas da noite, milhares de telespectadores se reuniam para acompanhar mais um capitulo da simples moça do sertão baiano.

Sônia Braga interpretou a personagem “Gabriela”. A novela de mesmo nome ousou ao misturar sensualidade com comentários políticos na época (Crédito: Divulgação/TV Globo)

Sônia Braga interpretou a personagem “Gabriela”. A novela de mesmo nome ousou ao misturar sensualidade com comentários políticos na época (Crédito: Divulgação/TV Globo)

A chegada de “Gabriela” não teve apenas um impacto mercadológico, mas sim social. Angola estava chegando ao seu 2° ano após a independência, e havia um clima de incerteza pairando em relação as reformas de bases prometidas pelas autoridades e o destino daquela nação. Uma obra ficcional exportada por um país estrangeiro causou um certo estranhamento e repulsa devido ao histórico com os portugueses, porém abriu um caminho de discussões para utilizar a narrativa contada na televisão como uma válvula de escape para falar sobre a identidade nacional e a representatividade de uma nação.

Essa experiência imaginária transcrita na novela, impulsionou cidadãos da Angola a transformarem as temáticas discutidas no audiovisual em debates sobre os comportamentos públicos e privados exercidos de formas legais ou ilegais. Em um campo com uma grande escassez que impossibilitavam uma comunicação integrada, a ficção permitiu um processo de conscientização coletiva em relação a questões sociais e culturais a partir de elementos como a oralidade que permitiu a transmissão de uma mensagem para uma população de cerca de 70% de analfabetos.

As marcas culturais de Roque Santeiro

Cerca de 10 anos após a exibição de “Gabriela”, um outro marco cultural chegava ao território angolano: “Roque Santeiro”. Além da popularidade e dos assuntos abordados por essa novela, “Roque Santeiro” deixou uma marca mais expressiva na história de Angola, pois diversas localizações de Luanda, por exemplo, acabaram sendo referenciadas em sua homenagem.

O texto de “Roque Santeiro” se atentava a uma crítica as instituições políticas, sociais e religiosas e materializava a sua indignação e explosão contra esse sistema na imagem de personagens verossímeis as pessoas comuns o dia a dia, gerando assim um espirito coletivo brasileiro que se unia contra o modelo presenciado. Mesmo que essa história se inspirasse no interior do nordeste brasileiro, esse enredo comunicava-se com o telespectador angolano, frustrado e cansado de conquistar uma independência utilizando das próprias armas e ainda assim, não conquistar a paz. Mesmo depois de mais 30 anos de sua exibição, a trilha de “Roque Santeiro” ainda é murmurada ou cantada como forma de protesto em manifestações para demonstrar não só a indignação, mas também a esperança desse povo.

Assim, por ser representado como um símbolo para esse povo, uns dos maiores estabelecimentos do país foi batizado com o nome da série por conta da relação que eles estabeleciam. O mercado Roque Santeiro é o maior mercado aberto de Luanda e tem esse nome devido as características que compartilha com a narrativa. Ambos se apresentam como lugares de lutas, trocas e lazer acima de tudo. Lá são presenciados o nascimento de figuras políticas e a tradição e os valores do povo de Angola são preservados com um comércio aquecido pela produção interna, mas também pelos importados pelas sacoleiras.

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

As sacoleiras são em sua grande parte mulheres que atravessam o Atlântico e desembarcam em São Paulo à procura de produtos para serem revendidos em seu país de origem. Esse comércio informal movimenta os estabelecimentos do centro paulista, tendo em mente que por seguir um hábito muito bem estabelecido em Angola, as sacoleiras veem ao Brasil em busca das tendências exportadas pelas novelas. Após completar seus estoques, essas mulheres retornam ao mercado Roque Santeiro para comercializar esses produtos.

Um modo de vida brasileiro em Moçambique

Além de Angola, as novelas brasileiras se proliferaram com sucesso pelos países que falam a língua portuguesa. Consequentemente, Moçambique foi afetada por esse fenômeno e desenvolveu um estilo de vida que se correlaciona com o Brasil. Por mais que separados por quilômetros de distância, as semelhanças entre os povos são inegáveis, pois os seus antepassados participaram de forma direta no processo de formação da sociedade brasileira. Dessa forma, a correspondência identificada pela hospitalidade, alegria, relação com a cultura por meio de expressões artísticas como a dança, a música permitiu uma absorção mais intensa e rápida da produção audiovisual.

A cerca de 37 anos, a novela “O Bem Amado” foi exibida e desde então, a influência é percebida de maneira pesada, principalmente na música e na maneira de se falar e de se vestir.

E uma das primeiras claras interferências foi no horário noturno, quando são exibidas as novelas. Criou-se uma tradição por parte dos habitantes de valorizar o momento, priorizando a exibição dos episódios acima de outras tarefas. “A novela é um momento absolutamente sagrado da vida moçambicana” afirmou o sociólogo Carlos Serra, pesquisador do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane.

Além de uma alteração nos hábitos, moçambicanos relatam uma utilização cada vez maior de gírias brasileiras que são exemplificadas nessas obras mostradas em TV aberta. Serra afirma que o português de Moçambique vem sendo afetado com a corriqueira utilização do gerúndio ao infinitivo, principalmente por um público mais jovem. Expressões como “comendo” e “fazendo” assumem o lugar das suas formas de pronúncia corretas “a comer” e “a fazer”.

Com a aproximação cada vez maior entre as duas culturas por meio dos instrumentos da comunicação, pastores evangélicos neopentecostais começaram a surgir, afiliados da Igreja Universal do Reino de Deus em Moçambique. As ações gradualmente estão convertendo um maior número de fiéis e assumindo um papel de força dentro da sociedade, com um aumento na construção de templos, como na área histórica de Maputo, capital do país.

A música também é ume eixo comprovadamente famoso nesse eixo, visto que a baiana Ivete Sangalo é extremamente famosa e já realizou diversos shows no país da África. O sucesso desses artistas é refletido em suas participações nas novelas, cujas as músicas são replicadas intensamente pelas rádios. Cantores como Alcione e Martinho da Vila, aproveitaram desse sucesso para visitar a região e iniciar diversos projetos sociais que impulsionaram e popularização de gêneros brasileiros como o samba e o axé em outro continente, que não a América do Sul, no Brasil.

Martinho da Vila em show do grupo “Canto Livre de Angola” no Circo Voador, que celebra sua conexão com o país africano (Crédito: Reprodução)

Martinho da Vila em show do grupo “Canto Livre de Angola” no Circo Voador, que celebra sua conexão com o país africano (Crédito: Reprodução)


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