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A Almofada

De manhã, depois de se vestir e de se tratar, a Avó Natércia tem o hábito de deixar as janelas abertas e a roupa de cama para trás. Diz que…

José Martins · 2025-05-07 08:23 · 0 claps · 2.3 min read
#escrita #contos #infantil #aldeia
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A Almofada

Photo by ROMAN ODINTSOV

Photo by ROMAN ODINTSOV

De manhã, depois de se vestir e de se tratar, a Avó Natércia tem o hábito de deixar as janelas abertas e a roupa de cama para trás. Diz que é para deixar o quarto respirar.

Nos dias de verão, quando a Lara fica a dormir uns dias em casa da Avó, o gato malhado costuma entrar e aninha-se na almofada da Lara, e fica ali, até a Avó ir fazer as camas ao final da manhã. É um gato robusto — de certeza que não passa fome — com várias manchas amarelas, castanhas e alguns traços brancos, e um olhar esperto, com um pêlo liso muito suave.

— Oh Tobias! Estás aqui? — Pergunta a Avó Natércia, ao entrar no quarto para puxar as cobertas à cama da Lara. A facilidade com que o faz contrasta com a dificuldade dos movimentos do seu corpo, como se as cobertas fizessem parte do trabalho da Avó.

Num salto, o Tobias passa pelas pernas da Avó Natércia, para depois se colocar em “pose de bibelô” à janela, a observar a Avó nos seus movimentos lentos, a cuidar do quarto.

O Tobias não mora ali. É um gato que aparece e desaparece consoante a sua vontade, e muitas vezes encontra abrigo junto da Avó Natércia, principalmente quando a Lara não está na Casa da Avó.

Ganhou direito a um púcaro de comida, e outro de água, no alpendre, que o serve a ele e a tantos outros gatos da aldeia. Canecos que já andavam a estorvar pela cozinha, e que encontraram uma segunda vida à porta daquela casa.

Às vezes a Lara encontra o Tobias, e ela pega-lhe como se fosse uma das suas bonecas. Fica todo esticado, com as patas penduradas, enquanto a Lara o leva pela casa. E o Tobias aceita, desconfortável naquela posição, mas confiante que as brincadeiras da Lara são uma boa companhia.

Por vezes, o Tobias aparece pela janela da sala da Avó Natércia e procura a sua almofada, que a Avó Natércia ali deixou, numa cadeira que mais ninguém usa. É uma almofada velha, com padrão às flores, que comprou por engano numa feira, num leilão da “banha da cobra”, junto com um conjunto de cama e uns tapetes de casa de banho.

Quando a Avó Natércia se está a preparar para fazer o seu croché, deixa a janela do alpendre aberta, à espera que o seu Tobias apareça pela janela.

E conversa com o Tobias. Muito. Conta-lhe como teve de desmanchar uma fiada inteira do quadrado de croché que estava a fazer, porque se tinha enganado no sítio do alfinete. E como sabia que ia chover porque lhe doía um joelho, mazela de um acidente muito aparatoso que teve há mais de 35 anos.

A solidão da Avó Natércia era afastada pela conversas que tinha com o Tobias, ou com a presença invisível habitual da Lara. Ou pela vizinha Deonilde, que passava por lá só para dizer que já tinha estendido a roupa, mas que na verdade era só para dizer “Olá” à sua amiga de idade.

Qualquer desculpa serve para matar a solidão. E a Lara sabia disso, e por isso deixava ali o casaco em cima da poltrona, antes de ir brincar para o lavadouro da aldeia. Enquanto o casaco estivesse ali, a Lara também conversava com a Avó Natércia, mesmo que não estivesse ao lado dela.


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