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Mulheres a serem mulheres — Medo (1)

“A paragem de autocarro está vazia. Ainda bem”. Assim é melhor. Detesto que olhem para mim. Procuro o discman no meu saco da escola. No meu…

André Coelho · 2026-07-20 08:10 · 0 claps · 7.8 min read
#infancia #adolescencia #familia #emancipação #amor
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Wiki topics: RAG · RAG & Retrieval

Mulheres a serem mulheres — Medo (1)

Foto de Zoritsa Valova na Unsplash

Foto de Zoritsa Valova na Unsplash

“A paragem de autocarro está vazia. Ainda bem”. Assim é melhor. Detesto que olhem para mim. Procuro o discman no meu saco da escola. No meu saco de tudo. No meu buraco. A música é melancólica; tudo me soa melancólico. Talvez seja porque sempre procuro isso, porque sinto isso…sempre. “’Cause I’m a creep…I’m a weirdo / What the hell I’m doing here? I don’t belong here”. É o que ouço ao entrar no autocarro, depois de mostrar o passe ao motorista, que nem vira a cabeça. Tanto melhor. Eu também não viro a cabeça em direção a nenhum dos restantes passageiros. Um sem todos e todos por nenhum. O que é que importa, realmente? Ninguém gosta de mim, mesmo… Na escola, com sorte, ignoram-me; com menos sorte, chamam-me “bicho”, ou “sonsa”, quando não é algo pior. Os professores, esses, são umas bestas, sempre maldispostos e aos gritos, ou são uma seca, sempre a repetir as mesmas coisas num tom monocórdico. Salvo a professora de Filosofia, que é a única que parece gostar de alguma coisa em nós. Foi ela que me falou de Camus. Em casa, é um suplício. Ou estou enfiada no quarto, ou estou a levar na cabeça, por algum motivo. Não admira que me acusem de nunca sair do quarto. A minha mãe trata-nos, a mim e ao meu irmão, como atrasados mentais. E o meu pai…acaba sempre por lhe dar razão. Ou, pelo menos, não se opõe.

  • Meninos, venham jantar! — A sua voz, estridente, ouve-se claramente em todos os cantos da nossa pequena casa.

Nós ouvimos, obviamente, mas vontade de estar com ela não há, pelo que adiamos ao máximo esse momento. Pelo menos para mim é assim.

  • Meninos!!

  • Schh!… Mais baixo, Edite. Eu vou chamá-los.

O meu pai sempre tentava amaciar a fera, mas, geralmente, chegava tarde e com pouca eficácia.

  • Vanda, vem comer — Disse ele, num tom normal, entreabrindo a porta do meu quarto e deixando-a nessa posição.

Enquanto ele seguia para o quarto do meu irmão, lá me levantei a contragosto, largando os fones e o caderno. Não era feliz, e a minha cara mostrava isso precisamente.

  • Vá, sentem-se lá — Numa tentativa de sorriso, o meu pai fez o possível para reunir a família à mesa.

Uns segundos depois, aparece a minha mãe com uma travessa de croquetes e um tacho de arroz. A restante mesa já estava posta, incluindo com uma taça de salada. A minha mãe vinha ruborizada da cozinha, com um olhar cansado, mas sorria. De forma relativamente ordeira, assaltámos os croquetes. A minha mãe tinha problemas, era impossível que não tivesse, mas cozinhar…era impossível não lhe reconhecer esse talento. Na cozinha ela era rainha e senhora. Aqueles croquetes estavam absolutamente divinais, e o arroz de grelos acompanhava-os na perfeição. Tinha muito por onde me queixar relativamente a ela, mas era difícil não gostar da sua comida. Após um primeiro “round” de croquetes, lá vieram as perguntas usuais à refeição.

  • Então, meninos, esse dia na escola?

O meu irmão debatia-se com uma boca cheia de arroz, pelo que só ficou a olhar através dos seus enormes óculos, mastigando. Recaíram os olhares sobre mim, para meu desconforto. Só queria que me deixassem em paz.

  • Normal — Foi o máximo que consegui responder, chegando-me à frente para tirar um pouco mais de salada, rezando para que a conversa passasse para o meu irmão.

Ele terá dito algo igualmente inócuo e inconsequente. O problema era que, para ela, isso não chegava.

  • Vá, meninos, não têm nada para contar do vosso dia na escola, hoje?

Tivesse ou não acontecido algo relevante nas nossas escolas, nesse dia, nenhum de nós tinha vontade de partilhar. Isso só parecia irritá-la ainda mais.

  • Tó, achas isto normal? — O meu pai preferia concentrar-se nos croquetes e no arroz — É que eu não acho. Estes miúdos não percebem a importância da escola, a sério. Olha se eu não tivesse dado importância…hoje estaria a lavar escadas algures.

  • Está bem, Edite, mas eles estão na escola — A voz dele transparecia tristeza, mas também uma ponta de irritação — E ninguém falou em desistir.

  • Perturba-me esta moleza, esta indiferença — Também as suas sobrancelhas adquirem um arco triste — E depois, o que é que eles vão fazer? Eles não sabem fazer nada…

  • Edite!…

Não que fosse propriamente uma novidade. Para ela, não sabíamos fazer nada e, sendo assim, nada nos deixava fazer. Ainda por cima, ambos tínhamos tendências artísticas: desenhar, pintar, escrever, tocar música…tudo menos algo que ela considerasse “de jeito” para enfrentar a vida. Às vezes, depois do jantar, depois de termos sido dispensados e termos regressado aos nossos quartos, ficávamos a ouvi-la a encher os ouvidos do meu pai com uma conversa muitas vezes repetida.

  • Sei lá, Tó, pode ser qualquer coisa — Supõe-se que o meu pai ia lavando a loiça, em silêncio — Arquitetos, advogados, médicos… ou mesmo coisas mais práticas como eletricistas, assistentes sociais, enfermeiras, qualquer coisa. Mas eles só gostam de rabiscar, escrever sabe-se lá o quê e tocar na guitarra…

O meu pai lá se ia aguentando, sabe-se lá como. Se calhar era porque se tinha formado na Marinha, logo ensinado a aguentar com qualquer coisa. Eu é que já não podia com ela e já desejava, secretamente, ir-me embora dali assim que possível. Passei o curso inteiro nessa ânsia. Mas fui teimosa o suficiente para escolher o que queria, e não uma das coisas “úteis” sugeridas pela minha mãe. Terá contribuído para isso o facto deles, os meus pais, quererem mais que tudo que nós tirássemos cursos superiores, algo que eles nunca tinham tido oportunidade para fazer. O curso em si, confesso, até foi giro. Ao contrário da escola secundária, que obstinadamente odiei, ali sentia-me mais livre. Os professores confiavam muito mais na nossa autodeterminação e responsabilidade, coisa que eu não tivera nunca, nem na escola nem em casa. E estava a explorar coisas novas, como fotografia e grafismo, coisas que me apaixonavam, por ser muito visual. Até fiz um par de amigos. Continuava a ser, em grande medida, um bicho do mato, mas havia um respeito mínimo, na generalidade, pelo que cada um era. No dia em que percebi que tinha acabado o curso, os meus colegas mais próximos deram-me os parabéns e ofereceram-me o lanche. Objetivamente, não foi nada de especial, até porque todos éramos finalistas e todos estávamos a fazer os últimos exames e a entregar os últimos trabalhos. Mas fiquei sensibilizada, e chorei. Não estava habituada a calor humano, também porque fazia questão de afastar tanto das pessoas, sem disso me aperceber. Tinha tanto medo de me magoar que esculpia a minha própria solidão e, nesse momento, senti verdadeiramente necessidade de contacto. Aguentaria tudo na vida, mas não mais solidão.

Fiz questão de procurar emprego fora de Lisboa. Tinha um medo que me pelava, mas não ia continuar a levar com a minha mãe. Era liberdade, ou morte. Fui então paginar um jornal, em Leiria. Ficava longe o suficiente de Lisboa para me sentir confortável, e perto o suficiente para não me sentir emigrada. Dividi casa com mais duas colegas do jornal. Tinha o meu quarto, as minhas coisas, o meu trabalho e o meu dinheiro. Não era perfeito, mas, para começar, era excelente. E uma das colegas, também chamada Vanda, estava a tornar-se uma amiga. Para distinguir, eu era apenas Vanda, e ela Vanda “Lavanda”. Nunca cheguei a perceber de onde tinha surgido a “Lavanda”, mas funcionava. Foi através dela que o conheci. Ela, ao contrário de mim, tinha uma vida em Lisboa, e fora aí que andara enrolada com um polaco que estagiava numa empresa em Portugal. Esse estágio desenvolvia-se na mesma empresa onde o Rogério trabalhava. Portanto: o Rogério era colega do polaco, que conhecia a Vanda Lavanda, que me conhecia a mim. Segundo percebi, o polaco convidara a Lavanda e o Rogério para o irem visitar à Polónia, pelo que este último tinha de tratar de umas papeladas em Leiria, para poder viajar. Para mim, em todo o caso, foi como se tivesse caído do céu. Não como se fosse um anjo, ou um rei mago ou alguma dessas parvoíces associadas à igreja católica, mas mais como algo completamente inesperado que, assim do nada, chegou até mim.

Foi estranho, o momento em que nos conhecemos. A Vanda Lavanda era hospedeira por natureza, e andava com o Rogério de um lado para o outro, a ajudá-lo a tratar das burocracias. Até que o trouxe à nossa casa, só para ver o espaço e nos conhecer. Olhámo-nos e houve logo um “WTF” qualquer. Notei logo que ele estava interessado, e não sei bem o que é que fiz, ou disse, ou não disse, mas terá sido o suficiente para ele me dizer, antes de sair para ir tratar de uma última assinatura, “Gostava de almoçar contigo”. Fiquei parva a olhar para ele, mas não consegui responder-lhe que não. Para mim, era uma situação completamente nova, inesperada, bizarra até. Como era possível alguém querer almoçar comigo, ou só querer estar comigo? Traçava uma imagem feia e desinteressante de mim própria, mas a curiosidade levou a melhor, dessa vez, e aceitei.

Ele não conhecia nenhum restaurante nas redondezas, sendo que eu só os conhecia pela esplanada e pelas montras, porque andava a poupar para tirar a carta. Fomos andando pelo centro e, assim que apontei para um que não assustava nem parecia ser muito caro, ele disse-me “Pode ser”. Também não foi esquisito com a comida; aliás, a impressão que dava era que tanto lhe fazia tudo o resto, desde que estivesse comigo. E mantinha um sorriso misto de incredulidade, curiosidade e boa disposição. Aquele estava a ser, definitivamente, um dia atípico.

  • Então, e gostas de trabalhar no jornal? O que é que fazes lá? E dás-te bem em Leiria?

Ele olhava para mim numa espécie de encantamento, como se o meu olhar fosse o ponto focal de um campo magnético. Mal conseguia devolver-lhe esse olhar, embora fosse respondendo às suas perguntas, toda contente. Afinal, sabia bem ser o centro da atenção de alguém. Não falou muito sobre si próprio, mas fiquei a saber que trabalhava em engenharia civil, morava no Intendente em Lisboa e ainda participava no grupo de teatro da faculdade. Sentia aquele momento como se tivesse acabado de abrir a janela do quarto escuro e bafiento onde vivia enfiada: uma lufada de ar fresco passava à minha volta e através de mim num fluxo estonteante. A seguir ao almoço, quis passear um pouco comigo, que ainda havia tempo antes do autocarro de regresso a Lisboa. Eu não estava a tomar nenhuma iniciativa, mas era bom ser embalada na iniciativa de outra pessoa. Ele também não estava a inventar muito: um almoço, um passeio; lá está, nada que eu pudesse recusar num Sábado à tarde. Demos uma volta pelo castelo de Leiria, nada de especial, mas eu já só pensava que ele se ia embora e nunca mais voltaria. “Porque ele vai logo perceber que não valho nada, e não vai querer voltar”. O meu monólogo interior só traçava cenários catastrofistas, e a minha alma sombria não conseguia ver em mim nada que outra pessoa pudesse gostar… mesmo face à evidência de que havia em mim, definitivamente, algo que a outra pessoa gostava.

  • Gostei muito de estar este bocado contigo — O sorriso dele era genuíno, o que só aumentava a minha confusão — Achas que poderei voltar a ver-te cá, noutro fim-de-semana?

Eu, efetivamente, não sabia o que lhe havia de dizer. Queria que ele voltasse, mas… para me ver? O que é que ele via em mim? Certamente que estaria enganado, e estar mais comigo só iria aprofundar mais esse engano.

  • Se quiseres…

No entanto, não conseguia, não queria, recusá-lo. Só achava, sinceramente, que facilmente arranjaria algo melhor, bastando para isso olhar um pouco à volta.

  • Quero muito. E, olha, adorei esse cabelo curto.

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