O inesperado: A queda do avião da Chapecoense
Por: Gabriela Coelho
O inesperado: A queda do avião da Chapecoense
Por: Gabriela Coelho

Criador: Bruno Alencastro | Crédito: Zero Hora | Direitos autorais: Agência RBS
Na rotina corrida do cotidiano tudo tem data e hora marcada. Temos horário para dormir, para acordar, para sair de casa, para trabalhar, para almoçar, para jantar; e no dia seguinte toda essa engrenagem se repete.
Vivemos totalmente acorrentados à uma agenda fixa, em que não há espaços para mais nada. Outros compromissos e encontros devem ser previamente informados para que possam ser encaixados sem que atrapalhe o fluxo constante do dia a dia. Cada passo é milimetricamente calculado e cronometrado; problemas no trânsito ou um atraso ao acordar são impensáveis, a agenda não admite deslizes como esses. Temos a doce ilusão de pensar que é possível prever tudo o que irá ocorrer em nossas vidas e, quando algo foge a esse padrão e impacta no planejamento previamente definido, a sensação de caos é imediata.
Situações inesperadas têm esse poder. Rompem com a normalidade e a periodicidade da vida, já que são imprevisíveis e abruptas. Um acidente de trânsito é inesperado, uma chuva torrencial é inesperada, a queda de um avião é inesperada. Agora, a queda do avião de um time de futebol a caminho da disputa da primeira final do campeonato internacional da sua história é imensamente mais inesperada. Nem a mais pessimista das pessoas, o mais louco sensitivo ou o mais negativo vidente seria capaz de prever tamanha tragédia, dor e sofrimento. E essa é a história do dia 28 de novembro de 2016.
Chapecó é uma cidade do interior do estado de Santa Catarina, localizada a 550 km da capital, Florianópolis. Com uma população de aproximadamente 225 mil habitantes, é um importante centro industrial, financeiro e educacional, além de um grande exportador de produtos alimentícios industrializados. Foi lá, nessa cidadezinha de apenas 103 anos, que nasceu a Associação Chapecoense de Futebol.
O clube foi fundado em 1973 por um grupo de desportistas e admiradores do futebol com o objetivo de trazer representatividade ao futebol da região, que possuía alguns times amadores e pouco expressivos. Representantes do Clube Independente e do Clube Atlético de Chapecó se juntaram e deram origem à Chapecoense.
A ideia da criação de um clube regional agradou muito a população e as lideranças locais e, desde a sua fundação, a Chapecoense contou com apoio financeiro de empresários da cidade e da região. O clube virou o xodó de Chapecó, era o lazer e o que ditava o ritmo da cidade. Todo mundo queria ir ao estádio ver a Chape jogar.
Como um típico clube de cidade pequena, não eram apenas os jogadores que eram conhecidos. Comissão técnica, roupeiros, assessores, diretores, todos que vestiam as cores verde e branca eram lembrados e saudados pelos torcedores, que se identificavam com o carinho e cuidado que estes também demonstravam sentir pelo clube.
Aos poucos, a Chape deixou de ser um time regional e passou a ser reconhecida como uma grande força do futebol nacional. Ganhou seu primeiro Campeonato Catarinense em 1977, apenas quatro anos após sua fundação, e levantou o troféu em mais cinco ocasiões: 1996, 2007, 2011, 2016 e 2017. Mas, foi a partir de 2009 que tudo mudou. Foi ali que a Chapecoense despontou e começou a trilhar seu caminho em busca da elite do futebol brasileiro.
Nesse ano, o clube disputou a Copa do Brasil e garantiu acesso à série D do Campeonato Brasileiro de Futebol. Disputando sua primeira edição, se classificou e, em 2010, jogou a série C. Dois anos depois, em 2012, a Chapecoense chegou à final da série C e conquistou o campeonato, além do direito de disputar a série B no ano seguinte. Foi necessário apenas um ano para que o time de Chapecó alcançasse a glória ao chegar à série A do Campeonato Brasileiro de Futebol. Em 2014, simbolicamente no mesmo ano da Copa do Mundo no Brasil, a Associação Chapecoense de Futebol estreou na elite no futebol brasileiro, campeonato que frequentou ininterruptamente até o fim de 2019.
Após o acesso à primeira divisão do brasileirão, voos ainda mais altos eram o objetivo da Chape. E, depois de ganhar reconhecimento nacional, era a hora de se apresentar no cenário continental. Em 2015, um ano após seu debut da série A e em sua primeira participação em um torneio internacional, a Chapecoense chegou às quartas de final da Copa Sul-Americana, quando foi eliminada pelo argentino River Plate em um placar agregado de 4 a 3. Mas o sonho não tinha acabado, ele apenas tinha sido interrompido.
No ano seguinte, a 14a colocação no brasileirão de 2015 garantiu ao clube sua volta à competição continental e desta vez seria para levantar a taça. Passo a passo, a Chapecoense ia vendo cada vez mais perto o sonho de conquistar o título de campeão sul-americano e estabelecer seu nome entre os mais respeitados da América do Sul. A classificação para a final em cima dos argentinos do San Lorenzo foi assistida por mais de 17 mil torcedores e contou com uma carga alta de emoção, sendo definida pelo critério de gol fora de casa. Era oficial, a Chapecoense estava na final da Copa Sul-Americana de futebol. Iria disputar um título continental e tinha grandes chances de ganhar.
O clima em Chapecó era de final de Copa do Mundo, não tinha um torcedor que não estivesse confiante com a conquista. Era visível como a torcida e os jogadores estavam em sintonia, eles sentiam que dessa vez o troféu seria conquistado.
O primeiro jogo da final era em Medellín, na Colômbia, no estádio do adversário, Atlético Nacional. E o jogo de volta seria na Arena Condá, na casa da Chape, junto aos milhares de torcedores apaixonados. É, seria. Porque esse jogo, infelizmente, não aconteceu. O apito final foi na Colômbia.
“O voo LaMia CP2933 em aproximação. Solicitamos prioridade para a aproximação, pois enfrentamos um problema de combustível.”
“Entendo. Solicita prioridade para sua aterrissagem por problema de combustível. Correto?”
“Afirmativo.”
“Ok. De acordo. Lhe darei instruções para efetuar a aproximação. Em aproximadamente sete minutos ini- ciarei a confirmação.”
“Tenho uma aeronave abaixo de você, efetuando a apro- ximação, além de sermos afetados por uma revisão de pista. Quanto tempo tem para permanecer em sua apro- ximação, LaMia?”
“Com emergência de combustível, senhorita. Por isso lhe peço de uma vez um trajeto final.”
“Avianca 9356… Inicie a aproximação agora.”
“Solicito descida imediata.”
“LaMia 2933, você pode efetuar um desvio à direita para iniciar uma descida? Há tráfego 1 milha abaixo de você.”
“Solicitamos nos incorporar de uma vez a outro vetor.” “Tem trânsito à sua frente, a 18.000 pés.”
“Atentos, LaMia 2933. Continue a aproximação. Pista úmida. Precisa de alguma assistência na pista?”
“Lhe confirmaremos a assistência em pista.”
“Senhorita, LaMia 2933 está em falha total, sem com- bustível.”
“Está livre e esperando chuva sobre… Bombeiros estão alertas.”
“Vetores, senhora! Vetores!”
“O sinal do radar se perdeu. Não tenho você. Notifique o rumo agora.”
“Rumo 3, 6, 0. Rumo 3, 6, 0.”
“Você está a 8,2 milhas da pista.” “Jesus!”
“Você disse o que agora?"
“Não responde.” “Não.” “Já caiu. Já caiu.”
Era madrugada no Brasil, aproximadamente 4h da manhã quando começaram a surgir as primeiras notícias da queda do avião da equipe Chapecoense. “Logo que a gente soube do acidente, a princípio, se falava em um pouso forçado”, relata a jornalista Lívia Laranjeira, que estava em Medellín para cobrir o jogo para o canal SporTV. Infelizmente, não foi tão simples assim e, à medida que as informações iam chegando, a tragédia ia se tornando ainda maior.
Na manhã do dia 29 de novembro de 2016, o Brasil acordou mais triste e, em Chapecó, simbolicamente estava nublado e chuvoso. Parecia que a cidade entendia o que havia acontecido e estava chorando a perda de 72 vidas no que deveria ser a realização de um sonho.
O avião LaMia 2933 decolou de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, com destino a Medellin, e transportava a delegação da Chapecoense, jornalistas e alguns convidados. Todos estavam a caminho da cidade colombiana com um único objetivo: a final da Copa Sul-Americana.
“Tinha uma questão ao longo do dia, um aspecto da chegada da viagem da Chapecoense. Era meio complexa e a gente estava abordando ao longo de todo o dia que eles tinham tido um problema no transporte. Eles iam viajar de voo fretado, São Paulo — Medellin, a ideia original era essa. Porém, a companhia aérea, a LaMia, era boliviana e a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) não autoriza voos fretados, a não ser que a companhia aérea seja ou do país de origem ou de destino do voo. O voo era Brasil — Colômbia e a LaMia era boliviana, então não pôde. Aí eles tiveram que fazer um voo São Paulo — Santa Cruz de la Sierra, aí sim na Bolívia, para depois fazer Santa Cruz de la Sierra — Medellin. Então, ao longo do dia já tinha essas notícias de problemas na logística e voo atrasado. Eu lembro que a última entrada ao vivo que eu fiz era para falar ‘o voo está atrasado, já era para eles terem chegado. Teve problema de logística durante todo o dia, daqui a pouco eles chegam’”, relata Lívia.
Mas eles não chegaram. Às 21h58 no horário local e 02h58 no horário de Brasília, a aeronave que transportava 77 pessoas caiu em uma região chamada Cerro El Gordo, a 35 quilômetros do aeroporto de Medellin. Segundo análise da caixa preta do avião, a causa da queda foi a falta de combustível e cerca de 40 minutos antes a situação já era de emergência.
As normas internacionais de aviação exigem que todo avião tenha combustível acima do necessário para o trajeto programado, para que em situações adversas seja possível se manter no ar por pelo menos mais 30 minutos e alcançar o aeroporto mais próximo. Foi confirmado pelo relatório da Aeronáutica Civil da Colômbia que os quatro motores da aeronave pararam de funcionar, o que resultou na queda. O motivo para a pane nos motores foi a escassez de combustível, que tinha sido calculado para uma viagem direta entre São Paulo e Medellín e não contava com a escala em Santa Cruz de la Sierra.
O voo LaMia 2933 caiu em uma região montanhosa de difícil acesso, o que acabou sendo ainda mais desafiador devido às condições climáticas do dia: chovia muito na Colômbia. Logo, a decisão tomada por Lívia Laranjeira ao saber do acidente foi ir imediatamente para um hospital local, de onde fez sua primeira entrada ao vivo para noticiar o ocorrido:
“Naquela madrugada, o SporTV estava transmitindo um jogo da Copa do Mundo de futebol feminino sub-20 e os jogos eram na Ásia. Ia ter um jogo de madrugada e como tinha um jogo rolando ao vivo, tinha um narrador, tinha um comentarista, tinha tudo isso montado para transmissão do jogo. Eu já estava operacional e estava na porta do primeiro hospital que eu fui.”
Foi a partir das informações passadas por Lívia que Mateus Montemezzo ficou sabendo do acidente ao ligar a televisão após acordar: “Estava todo mundo dormindo, porque foi de madrugada. Eu recebi a notícia às 05h40, já era um pouco tarde. Eu estava em casa, então a primeira coisa que eu fiz foi ligar a televisão. Então, já tinha algumas informações na Globo”. Mateus é repórter da Rádio Oeste Capital de Chapecó, mas na época do acidente fazia estágio no jornal Voz do Oeste. Assim que ficou sabendo do ocorrido, o jornalista se dirigiu ao centro de eventos da cidade, que fica ao lado do estádio da Chapecoense, a Arena Condá, onde os familiares, esposas dos jogadores e imprensa estavam reunidos em busca de informações sobre sobreviventes e feridos.
O jornal em que Mateus trabalhava estava acompanhando o desenrolar da tragédia a partir de informações de veículos locais: “A nossa logística de acompanhar foi com a rádio Caracol da Colômbia, eles estavam na frente da cobertura”, afirma Mateus. O catarinense ainda contou sobre quando caiu a ficha sobre a gravidade do acidente:
“A primeira informação foi que tinha sido um pouso forçado. Quando veio a notícia do acidente e quando a Caracol deu a informação que era na região das monta- nhas, já foi um negócio mais punk. Só que eu não ima- ginava que fosse do tamanho que foi. Eu lembro que a terceira leva de informação foi que quase todo mundo tinha morrido e que algumas pessoas estavam sendo le- vadas para o hospital. Sinceramente, nós não imaginá- vamos que ia ser tanta gente que iria falecer. Quando a gente teve a dimensão, vimos que foram milagres as seis pessoas que sobreviveram”.
Enquanto isso, Lívia Laranjeira estava pulando de um programa a outro. Como ela era uma das poucas jornalistas que estavam em Medellín, nas primeiras 24 horas a carga de trabalho que ela enfrentou não foi pequena: “Eu estava muito sobrecarregada. Estava entrando ao vivo na Globo, no SporTV, na Globo News e na RBS, que era afiliada da Globo em Santa Catarina. Além da Rádio Globo, Rádio CBN e Rádio Gaúcha, que é a rádio do Grupo Globo no Rio Grande do Sul. Então, assim, era muita coisa”. À medida que a tragédia ia se desenhando, a emissora enviou mais profissionais para a Colômbia para auxiliá-la na cobertura, que acabou se estendendo.
Uma cobertura de tragédia, inicialmente, sempre é algo impreciso. O acontecimento está se desenrolando, a todo momento as informações vão sendo atualizadas e novos elementos surgem. Na queda do voo da LaMia não foi diferente e isso era uma grande preocupação de Lívia, que tinha sempre o cuidado de destacar que naquele momento aquelas eram as informações disponíveis. “Uma informação que a gente deu foi que haviam sido encerradas as buscas por sobreviventes, não havia mais sobreviventes. Era uma informação errada? Não. Naquele momento, aquela era a informação. Só que depois chegou mais um sobrevivente, acharam mais um. São duas informações corretas dentro do momento em que elas foram colhidas e passadas”, ressalta a jornalista paulista.
Toda situação inesperada possui um quê de surpresa e a primeira reação que se tem é o choque. É natural uma certa demora até entender realmente o que está acontecendo e a ficha cair. Segundo Mateus, quando se está incluído na tragédia o comportamento é o mesmo:
“Você não pensa muito, na hora, no impacto que isso vai causar, você só quer saber quem vai sobreviver e o que está rolando no momento. A ficha demora para cair, você não tem a dimensão do que é uma tragédia como essa, você estando no meio dela. Por mais que você ligue a TV, você não consegue ter a real dimensão do que é o mundo inteiro voltado para onde você está, naquele momento para Chapecó.”
Outra dificuldade em uma hora como essa é lidar com a emoção. Como conciliar sentimento com profissionalismo, é possível que os dois andem juntos? Para Lívia, atualmente as pessoas confundem parcialidade com profissionalismo. Foi uma tragédia que abalou a todos, inclusive os jornalistas, afinal você se coloca no lugar das vítimas e ali muitas eram conhecidas:
“Ninguém era a favor ou contra alguma coisa, mas todo mundo estava mexido com aquela situação e pra mim foi muito natural que isso transparecesse na minha forma de reportar. Eu não pensei ‘ai, preciso falar desse jeito’. Eu estava daquele jeito. Eu estava sentindo e o que eu es- tava sentindo se refletiu na minha maneira de reportar.”
Para Mateus, o buraco era ainda mais embaixo. Renan Agnolin foi uma das 71 vítimas do acidente e era um grande amigo do jornalista, que afirma que a parte mais difícil foi cobrir a tragédia e lidar com a perda de colegas:
“O Renan era meu conterrâneo, nascido em Erechim, então a gente se conhecia há bastante tempo. Ele era a minha grande referência de TV e Rádio e foi muito com- plicado entender que ele não tava mais ali de uma hora para a outra.”
Assim que a poeira baixou, a realidade bateu na porta e a maior preocupação que se tinha era o que iria ser da Chapecoense dali para frente. O clube perdeu presidente, dirigentes, empresários apoiadores, isso sem falar no grupo de jogadores que estava dizimado, “Na hora todo mundo pensou que a Chapecoense já era, não existia mais clube”, conta Mateus.
Entretanto, ela se reergueu. Grandes clubes brasileiros se uniram e cederam gratuitamente atletas para que a Chape pudesse disputar as competições de 2017. Nesse ano, o clube disputou oito competições, sendo uma delas o Troféu Joan Gamper contra o FC Barcelona, disputado no próprio Camp Nou em Barcelona. O time foi declarado campeão da Copa Sul-Americana e com isso disputou pela primeira vez a Copa Libertadores, a maior competição continental da América do Sul.
A Chapecoense contou também com ajuda financeira da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que, além de doar cinco milhões de reais, organizou um amistoso contra a Colômbia com o intuito de arrecadar fundos para os familiares das vítimas. Isso sem mencionar os sete milhões de reais que o clube recebeu pela conquista do título da Sul-Americana e os seis milhões pelas partidas disputadas na Libertadores de 2017.
O ano seguinte à tragédia foi marcado pela reestruturação e reconstrução do clube e pode-se afirmar que o resultado foi positivo. Quando o acidente completou um ano, o time já projetava como seria seu 2018, com a intenção de exercer a opção de compra dos jogadores que foram emprestados por vários clubes brasileiros e que estavam atuando em Chapecó, além de buscar reforços no mercado.
Após um 2019 turbulento, que levou o clube ao seu primeiro rebaixamento na história, a Chapecoense se reergueu mais uma vez. O clube foi campeão do Campeonato Brasileiro da Série B de 2020, conquistando assim seu primeiro título nacional, além da tão sonhada vaga de retorno à elite do futebol brasileiro.
Neste ano de 2021, a Chape está disputando a série A do Brasileirão. Olhando de fora, é difícil imaginar tudo que esse time passou em tão pouco tempo, mas, analisando friamente a história e tradição do clube, não é uma surpresa o sucesso e superação tão rápidos.
메타데이터
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