CRÍTICA | A Noiva (2026)
Direção Maggie Gyllenhaal | Com Jessie Buckley e Christian Bale
CRÍTICA | A Noiva (2026)
Direção Maggie Gyllenhaal | Com Jessie Buckley e Christian Bale Nota: 08/10

Frankenstein (Christian Bale) deseja uma companheira, alguém à sua imagem e semelhança com quem (re)viver. Não lhe passa pela cabeça aplacar a dor da solidão ou ter a primeira experiência sexual com qualquer uma. Precisa ser com alguém igual a ele. Logo, A Noiva tudo começa seguindo o ideal romântico da completude conseguida por meio de um relacionamento. Do outro lado de Chicago está Ida (Jessie Buckley), a destoante do aparente recato das demais mulheres num bar nos anos 1930. Ela morre, mas não demora a renascer como o amor almejado por Frank. No entanto, antes da ressurreição vem a possessão pelo fantasma angustiado de Mary Shelley, a criadora de Frankenstein que, por meio dessa liberdade poética, ajuda a moldar a versão feminina do monstro antes mesmo que uma cientista satisfaça os desejos da criatura solitária.
A diretora e roteirista Maggie Gyllenhaal lida diretamente com mitos, personagens e situações cristalizados no nosso imaginário, os utilizando como matéria-prima. Esse é o princípio norteador de sua abordagem, não apenas a realização de outra variação de uma das histórias mais importantes do terror mundial. Frankenstein é uma espécie de paradigma do indivíduo fadado ao fardo existencial, aquele que não pediu para nascer num mundo em que inevitavelmente será visto como aberração. Sua noiva é a contraparte feminina da mesma sina grotesca, pois está igualmente condenada a ser uma estrangeira perseguida. Maggie menciona o cinema constantemente, extraindo dele inspirações e ecos criativos. Os caçadores de referência ganham um prato cheio, pois aqui as alusões são inúmeras.
Correndo o risco de ser piegas e/ou óbvio demais, podemos estabelecer um paralelo entre Frankenstein e o próprio A Noiva. Ambos, personagem e filme, são feitos de frações costuradas em prol de um todo com emendas visíveis. Assim como vemos as costuras da pele de Frank, é possível perceber as do filme. O longa-metragem começa como uma tragédia romântica, rapidamente assumindo contornos de filmes de gângsteres populares na Hollywood dos anos 1930/40. Os protagonistas habitam um mundo controlado por homens poderosos que exercem influência nos bastidores, como o temido chefão (à lá Al Capone) que conserva as línguas de suas vítimas à mostra para servir de exemplo. Por sua vez, Frankenstein mente à Ida sobre ser seu noivo antes de um suposto acidente que teria lhe causado amnésia. Com isso garante a companhia de que tanto precisa.
Ida acredita e embarca numa jornada que logo desloca o enredo do domínio dos gângsteres para os típicos road movies com casais perseguidos em fuga. Não à toa Frank e Ida se assemelham tanto a Bonnie e Clyde, especialmente às versões retratadas no clássico Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (1967) — note que a semelhança é confirmada na cena da polícia atirando em Ida, quando a câmera lenta torna ainda mais dramático o corpo alvejado. Maggie Gyllenhaal monta esse conto romântico macabro como fruto de uma colagem de influências e mitos de fontes heterogêneas. Os mais recorrentes são os cinematográficos. Para se ter uma ideia, na medida em que a história avança, surge uma prótese de Fred Astaire, além de menções a Ginger Rogers e a um sem número de astros e estrelas. Desse modo, o cinema é uma fonte de inspiração e um referencial poético.
Ida é uma personagem fascinante, pois reage quase instintivamente a esse mundo para o qual foi devolvida sem um pingo de consentimento. O foco nem é tanto a busca por identidade, como em Pobres Criaturas (2023) — para citar outro filme em que o mito de Frankenstein é feminino. Ida é o monstro possuído que vai se adequando às mentiras e à hostilidade circundante, respondendo a ambas como pode. Lá pelas tantas, seu comportamento libertário inspira outras mulheres que não aguentam mais viver numa dinâmica de submissão. Porém, Maggie Gyllenhaal não desenvolve isso ao ponto da personagem ser lida como grande inspiração feminista involuntária — uma vez que não há consciência política, mas ação por reflexo. A cineasta mantém o foco na jornada dos monstros que, ao se distanciarem de Bonnie e Clyde, tornam-se versões de Romeu e Julieta.
Voltando às tramas do tecido narrativo. Maggie Gyllenhaal segue evocando figuras bastante presentes no nosso imaginário, vampirizando o potencial simbólico delas. Quando os protagonistas parecem as versões revividas dos amantes criados por William Shakespeare, mantem-se a tragédia no horizonte. Quando eles mais se assemelham aos dois bandidos que se tornaram lendas nos Estados Unidos, a sensação principal é a da necessidade de subverter as lógicas vigentes. Já comportamentos alusivos às estrelas do musical significam a exuberância e o glamour emprestados do cinema. E por aí vai. O pulo do gato está no desdobramento a partir de tantas fontes, por exemplo da conjugação de um personagem de Herman Melville com algumas das figuras marcantes da Era de Ouro de Hollywood.
A possessão de Mary Shelley poderia ser um pouco melhor trabalhada, até porque essa criativa liberdade poética possui um potencial enorme. A necessidade de transitar entre distintas situações alusivas às vezes compromete o tempo necessário para algumas coisas se tornarem importantes — como o levante feminino após Ida se transformar num símbolo. No entanto, A Noiva é um deleite pela ousadia estética e narrativa, um objeto cinematográfico estranho, sobretudo, pensando no elenco recheado de nomes importantes e no orçamento considerável. Maggie corre riscos incomuns tendo em vista todas essas características, como na cena dos personagens consumando o seu amor cativante e algo sinistro. Numa terra tão carola sexualmente como Hollywood, dois monstros revividos reafirmam a sua vontade de viver por meio do tesão sentido.
Falando ainda em riscos, a diretora flerta com a incompreensão ao introduzir personagens arquetípicos, tais como a dupla de detetives interpretada por Penélope Cruz e Peter Sarsgaard. Mas é justamente por conta da presença de ambos que fica ainda mais clara a construção narrativa a partir de fontes literárias e cinematográficas. Ter detetives estereotipados não é fruto de um erro de concepção, pelo contrário, é a confirmação de que estamos vendo um filme feito de outros filmes, de outras versões anteriores de personagens e situações. A ideia é exatamente utilizar esses estereótipos para se chegar à percepção de que o filme está sendo montados com blocos feitos de modelos, ícones e tradições ressignificadas. Com um visual criativo e bonito, além das interpretações poderosas de Christian Bale e Jessie Buckley, Maggie elabora um conto de fadas tenebroso e apaixonado cuja fórmula é: cinema, literatura e mito.
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- 2026-06-20 20:29:01