o espelho
Hoje eu vou começar com um a história bem familiar. Na Mitologia Grega, Narciso nasceu a união (não consensual) do deus fluvial Cefiso e da…
o espelho
Hoje eu vou começar com um a história bem familiar. Na Mitologia Grega, Narciso nasceu a união (não consensual) do deus fluvial Cefiso e da ninfa Liríope lá na Grécia Antiga. Narciso cresceu e virou um galãzão, talvez um Cauã Reymond ou um Henry Cavill daquela época. O negócio é que ele não dava moral pras ninfas e ninfes e passou a dispensar todo mundo, vai ver na cabeça dele, ninguém era tão bonito e bastava.
O cara era orgulhoso e frio com todas as pretendentes, que possivelmente foram reclamar com a deusa Nêmesis (a fada da vingança), e ela possessa acabou punindo o bonitão com a ideia dele se apaixonar por ele mesmo quando olhasse seu reflexo no lago, e ai você já sabe, ele não conseguiu sair de lá e morreu de exaustão. Segundo a mitologia grega, onde Narciso morreu, nasceu uma flor, a Narcissus poeticus, que por sinal é tóxica tanto para humanos quanto para animais (era de se esperar).
Aqui, nesse meu texto, o personagem principal não será Narciso e seus narcisismos, mas o espelho criado pelas águas cristalinas do lago, esse sim será o nosso protagonista. O espelho de Narciso, na psicanálise, traz a ideia de incapacidade de se relacionar com o outro, o centro do mundo voltado para o ego daquele que se vê refletido. E eu vou além, não vou nem usar desse conceito psicanalítico. O espelho será realmente tratado como um espelho, como qualquer outro que você tem em casa ou como a câmera frontal do seu celular.
Assim como Narciso, hoje há uma grande preocupação na ação de ser ver, em como eu sou visto pelo outro, que também é o meu espelho e reflexo ao mesmo tempo. Ah, pensem na rainha má de Branca de Neve. Em ambos os casos, o espelho é um símbolo da identidade e da relação destes personagens com a própria imagem e com a sociedade. Enquanto Narciso se perde na contemplação do próprio reflexo, a rainha má se torna escrava da confirmação da sua beleza e superioridade oferecida pelo espelho mágico. E o ponto que une as duas histórias é: os dois buscam por validação.

“Specchio magico” do ilustrador Marco Palena
Agora, imagine que a rede social é um espelho e nós somos Narcisos ou rainhas más. Quantas personas a gente vem criado para obter a validação externa? Vamos chamar Jung pra nossa conversa. No seu livro “Eu e o Inconsciente”, Jung cria o conceito de persona e fala assim: “a palavra persona é realmente uma expressão muito apropriada, porquanto designava originalmente a máscara usada pelo ator, significando o papel que ia desempenhar (…) Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva”. Ou seja, a persona não é o verdadeiro “eu”, ela é apenas um aspecto da nossa personalidade. E para Jung, ela é necessária nos nossos diversos papeis na sociedade, é uma forma de adaptação, sabe?
O problema acontece mesmo quando a pessoa passa a se identificar totalmente com sua persona, e nesse contexto, a necessidade de validação se transforma em uma questão presente e conflituosa, fazendo com que os indivíduos dependam do reconhecimento alheio para sustentar sua identidade. Quando assim, o valor pessoal se torna dependente da confirmação externa e a validação vira uma necessidade constante. E sabe o mais doido? Todo esse comportamento ativa o sistema de recompensa do cérebro e descargas de dopamina. Narciso e a rainha má eram especialistas nesse tipo de recompensa.
Trazendo essa realidade para as redes sociais, a gente começa a criar personas digitais, e sem perceber, podemos estar produzindo aceitação e a manutenção dessa imagem numa constante vigilância de quem realmente não somos. Ainda para Jung, toda vez que a gente se afasta no nosso verdadeiro eu, a espontaneidade diminui e o processo de individuação (nas palavras do autor: o caminho de nos tornarmos quem somos em nossa totalidade) é interrompido ou retardado. É um desequilíbrio que pode trazer a alienação de si mesmo, e também o surgimento de doenças mentais como ansiedade e depressão. E eu volto a dizer para que os psicólogos não briguem comigo: a persona não é culpada por nada disso, ela apenas pode participar da manutenção desse comportamento. Não vamos demonizá-las, elas são fundamentais, o que problematiza é a ausência de equilíbrio.
E eu te fiz chegar até aqui só para dizer que, por mais que nós precisamos das nossas personas para sobreviver, nada pode ser mais libertador do que descobrir quem você é para além das máscaras. É o teatro da sua vida, o palco é seu, as falas são suas, pois, o personagem central é você. Em determinados espaços não há necessidade de interpretação, a máscara pode descansar e você simplesmente ser aceito por quem é. Em épocas onde tudo é performance, talvez o verdadeiro (a nudez da alma) bem declarado é o que vai nos salvar de uma loucura coletiva e da padronização.
E eu te digo mais: ser puramente você te dá coragem para fazer o que se tem vontade, e não se preocupar com o que o outro vai pensar. Tem uma música do cantor Felipe Cordeiro que diz: “você pra mim é problema seu”. A coisa deve funcionar nessa linha, porque quem domina o palco e o roteiro é você. O outro é só um mero expectador, ele aplaudindo ou não, o show tem que continuar. Abrace o espelho, abrace seus todos os seus diferentes reflexos, mas não deixe que eles te comandem e encaixotem num padrão esperado.
A vida acontece fora do reflexo, quando o espelho volta a ser apenas um objeto. Narciso morreu porque ficou preso nesse ciclo, e a rainha má enlouqueceu quando a realidade se fez presente. O espetáculo começa mesmo quando o palco deixa de ser a única forma de existir e você não precisa descobrir quem é pelo olhar do outro, mas consegue se reconhecer nas imperfeições do dia a dia, no máximo que você deu quando achou que daria o mínimo e nas escolhas que ninguém aplaude. A vida é mesmo feita de domingos preguiçosos, de cafés coados, de conversas demoradas e sem pretensões, de cabelos bagunçados, de roupas velhas, de pequenas vitórias e de afetos silenciosos. É onde nada viraliza ou dá bilheteria, e nem todo momento precisa ser extraordinário para merecer ser vivido. O desafio é aprender a olhar sem depender e existir sem a necessidade de provar nada.
Será que a gente consegue?
Livro citado: Jung, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis, Vozes, 2014.
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