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A Dama na Água (2006) — Crítica

Entre o ressentimento e a redenção: uma fantasia metalinguística ou uma fábula narcisista.

João Franco · 2025-06-30 23:39 · 0 claps · 4.2 min read
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A Dama na Água (2006) — Crítica.

Entre o ressentimento e a redenção: uma fantasia metalinguística ou uma fábula narcisista.

Créditos: Warner Bros.

Créditos: Warner Bros.

Em meados de 2005, logo após o sucesso comercial de A Vila, M. Night Shyamalan brigava com a Disney para conseguir realizar seu próximo filme. Isto porque o roteiro — escrito por ele — era chamado de confuso e autoindulgente, além de não ter apelo suficiente para conquistar o público. Essas e outras “divergências criativas” entre o diretor e os produtores fizeram com que ele rompesse com a produtora, abrindo caminho para a concorrente Warner entrar na história e bancar seu projeto. Assim começa a história da produção desse filme, que despertou uma desconfiança por parte da indústria e do público sobre a real capacidade artística de Shyamalan como diretor. Ele, que vinha de uma sequência de relativos sucessos como Corpo Fechado (2000) e obras aclamadas como O Sexto Sentido (1999), após o lançamento de A Dama na Água, conheceu as consequências de estar rotulado pela indústria — e não de uma maneira boa.

O filme é uma fantasia moderna baseada em um conto / história de dormir que o próprio Shyamalan criou para seus filhos e transformou em roteiro e livro infantil, aproveitado pelo marketing para ser lançado junto com o filme. O protagonista é Cleveland (Paul Giamatti), um zelador de condomínio que, certa madrugada, encontra uma jovem chamada Story — interpretada por Bryce Dallas Howard — dentro da piscina e, após abrigá-la, descobre que se trata de uma criatura fantástica que precisa de ajuda para completar sua missão antes de partir.

A trama em si é bem menos interessante do que o resultado final alcançado por Shyamalan, graças à sua habilidade de como contá-la. A mitologia, junto das informações e regras do universo criado, é recitada por uma personagem de forma oral, propositalmente exposta de maneira conveniente, e os personagens aceitam a sobrenaturalidade dos fatos sem muita resistência. Em alguns momentos, parece que o roteiro está “roubando”, apresentando novas regras quando bem entende para nos guiar até onde ele quer. Na prática, esse é de fato o objetivo de todo roteiro — embora o considerado “correto” seja manipulá-lo para que atinja o público de maneira natural e quase imperceptível. E, novamente, há a clara intenção de romper com essas convenções que ditam o que é aceitável ou não na forma de como fazer isso cinematograficamente. Shyamalan quer romper com o cínico e, principalmente, com o previsível — isso é nítido já em seus filmes anteriores — entretanto, essa vontade de se realizar pode até engrandecer o filme, mas não o faz necessariamente bom.

Créditos: Warner Bros.

Créditos: Warner Bros.

O maior problema do filme é sua exposição em momentos de autoconsciência que, apesar de serem frontais por escolha, expressam obviedades que não enriquecem o filme e soam até um pouco infantis. Isso ocorre principalmente em cenas nas quais os personagens verbalizam, com todas as letras, a opinião de Shyamalan sobre os críticos de cinema e sua arrogância na forma como lidam com o objeto de análise dos seus trabalhos. Essa crítica é construída principalmente em torno do personagem que representa um crítico de cinema, alvo de falas como: “Que tipo de pessoa seria tão arrogante a ponto de presumir a intenção de outro ser humano?”. Nesses tipos de diálogo, o texto escorrega em sua intenção, abraçando um sarcasmo que muito se aproxima do cinismo que Shyamalan justamente rejeita.

Apesar dos problemas, a narrativa prende a atenção do espectador através do mistério presente na trama, somado às escolhas de planos imersivos, com câmeras posicionadas dentro dos cômodos e composições instigantes, utilizando reflexos e enquadramentos criativos. Essa imersão ocorre porque, a partir dessas escolhas, o diretor não apenas mostra as ações e diálogos dos atores, mas também o ambiente. O filme se passa inteiramente dentro do condomínio, construindo um espaço narrativo diegético tão familiar que, no, parece que sabemos qual é o apartamento de cada personagem — não importa onde a câmera esteja posicionada.

Créditos: Warner Bros.

Créditos: Warner Bros.

Outro ponto positivo — mérito compartilhado com os atores — são os dramas do protagonista e de Story, ambos construídos com pouco diálogo, mas entregues de forma contundente por meio da atuação e da sutileza de um roteiro cuidadoso com a maioria dos seus personagens. Se Cleveland tem um trauma a ser curado, Story carrega uma responsabilidade a ser aceita, e ambos se apoiam um no outro — e em um grupo formado por moradores do condomínio — para essa superação. Além desses dois arcos, existe um terceiro tema explorado por meio de Vick, personagem interpretado pelo próprio Shyamalan. Ele é um escritor cuja obra, segundo as previsões de Story — que também assume o papel de musa inspiradora de artistas — influenciará a história da humanidade. A escolha de escalar a si mesmo como esse personagem é o que abre margem para a crítica de que o filme seria autoindulgente. E, embora eu não ache que essa ideia seja interessante o suficiente para ser desenvolvida, também não me incomoda o fato de ele se colocar como representante dessa figura.

Como unidade fílmica, trata-se de uma obra ambiciosa, que quer — e consegue — transgredir as normas convencionais do cinema da grande indústria dos anos 2000, algo que se torna cada vez mais evidente com o passar do tempo. O filme também se propõe a criticar a crítica — ou, ao menos, parte dela — mas falha na forma como realiza esse comentário. Ainda assim, sua maior conquista é, sem sombra de dúvidas, estabelecer uma mensagem de renascimento e redenção através da arte, mais especificamente das histórias fantásticas. Relembra-se, assim, a importância que os contos têm de transformar — seja por meio de histórias de dormir, de um longa sobrenatural dramático sobre vida após a morte ou, até mesmo, de uma aventura fantástica que se passa nos fundos de um ordinário condomínio.

Nota: 7.5/10

Z.


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