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Minha Visita ao Museu do Ipiranga

No dia 11 de dezembro de 2024 visitei pela primeira vez o Museu do Ipiranga, em São Paulo. Sem dúvida foi uma experiência incrível. Meus…

Hélio Sales · 2024-12-22 20:09 · 1 claps · 6.8 min read
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Minha Visita ao Museu do Ipiranga

No dia 11 de dezembro de 2024 visitei pela primeira vez o Museu do Ipiranga, em São Paulo. Sem dúvida foi uma experiência incrível. Meus amigos e eu fomos na quarta-feira, quando a entrada é gratuita.

O Edifício do Museu

Desde a entrada, o Museu impõe sua presença multifacetada de grandeza material, arquitetônica e histórica, porém inseparáveis uma da outra. Em primeiro lugar, a face material. O prédio tem um volume que impressiona. Apesar de hoje ser fácil presenciar prédios muito maiores que o Museu (que julgo ter aproximadamente 35 metros de altura), não há prédios ao seu redor que concorram com ele. Além disso, sua dimensão horizontal também causa grande impacto. Tudo isso cria uma noção escala de que nos deixa em admirados e apequenados.

Em segundo lugar, a face arquitetônica nos levam para um tempo passado, onde o Estilo Internacional de Corbusier e van der Rohe — chatos, repetitivos e sem vida — não teriam vez diante do belíssimo estilo Neoclássico do italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844–1915). Eu poderia passar horas apreciando os muitos detalhes harmônicos que compõem aquele prédio e seu jardim.

Maquete presente no salão da bilheteria.

Maquete presente no salão da bilheteria.

Em terceiro lugar, obviamente, a face histórica, completamente condizente com a principal função do prédio: a de ser um Museu.

Como é conhecido, o prédio passou por uma grande restauração. Do ponto de vista arquitetônico, foi uma restauração muito bem-feita, sem grandes intervenções à obra original, mas trazendo muitas melhorias modernas que auxiliam a navegação pelo prédio.

A Exposição

Quanto às exposições, posso dividir, didaticamente, a exposição em duas partes. A focada na Independência, localiza na parte central do Museu, abrangendo os dois andares. E a focada na história de São Paulo, que se localizam nas alas esquerda e direita do prédio.

Sendo franco, a exposição da história de São Paulo não impressiona muito. Há ali vários belos quadros e esculturas que valem ser admirados bom um bom tempo. No entanto, a maior parte são de objetos da vida comum, como ferramentas, eletrodomésticos, pequenas (10 a 15cms) estátuas decorativas de porcelana, pratos decorativos e algumas peças de mobiliário.

Uma exceção, contudo, é a maquete do Museu feita por Bezzi no processo de concepção arquitetônico do projeto. Ela se faz digna de estar ali tanto pela grandeza artística demonstrada pelo arquiteto ao desenvolvê-la, mas também como peça histórica de concepção do projeto. Nela é possível ver diversos elementos que acabaram sendo modificados e outros que não foram construídos. As diferenças são numerosas demais para serem listadas, mas destaco as alas laterais que teriam uma continuação perpendicular, criando um pátio na frente do Museu que abraçaria metaforicamente seus visitantes, mas que não foi construído por falta de orçamento.

Já a exposição focada na Independência é realmente especial. Os idealizadores do Museu, seu arquiteto e as diversas obras de altíssimo nível que estão lá fazem essa exposição ser um primor artístico. As obras do Museu foram organizadas para demonstrar, simbolicamente, a história de São Paulo. No térreo há as pinturas que representam a história mais antiga, inclusive do Cacique Tibiriçá (1475–1562), figura importante no período da colonização e da fundação da cidade de São Paulo. Ao lado dessas pinturas, há duas grandes e belíssimas de estátuas de dois bandeirantes, esculpidos com poses gloriosas que destacam essas figuras como heróis.

Na frente há uma escadaria. No topo, uma bela estátua de Dom Pedro I figura como centro focal do espaço. Ao lado de Dom Pedro, cercando-o, estão outros bandeirantes. Acima deles, na sanca que circunda a claraboia, há o retrato de diversas figuras que contribuíram no processo de independência ou que tem alguma relevância histórica para o período. Ainda na escadaria, há 16 ânforas contendo águas de 18 rios brasileiros. 9 do Leste e 9 do Oeste. A água dos outros dois rios estão em um tanque localizado embaixo e por trás da estátua de Dom Pedro. Essa belíssima concepção arquitetônica simboliza a extensão territorial do Brasil mantida por Dom Pedro I.

Ao chegar no primeiro andar, entramos na sala da Independência, onde há a maravilhosa pintura de Pedro Américo. O tamanho da pintura por si só já impacta. A experiência só melhora ao observarmos os detalhes, a dinâmica das figuras, a composição, os soldados abrindo a mão e deixando cair o símbolo português. Confesso que tive uma verdadeira redescoberta da pintura ao perceber que eu estava onde aquele fato histórico tão importante havia ocorrido, o que aprofundou ainda mais minha experiência daquele local.

Sem dúvida, tudo isso foi uma experiência marcante e tenho dito a todas as pessoas que conheço que estão indo para São Paulo fazerem um esforço e separarem uma manhã para irem ao Museu do Ipiranga. Será uma experiência marcante.

Sobre a visita guiada

No entanto, tenho que fazer uma ressalva quanto a minha visita sobre algo que me decepcionou bastante. Que fique o leitor sabendo que eu não tenho conhecimento aprofundado de História do Brasil, portanto minhas críticas não são críticas neste nível, apenas relato o que aconteceu.

Como disse no início do texto, visitei o Museu no dia gratuito e tive a oportunidade de também fazer parte de uma visita guiada. Fico triste em dizer que, embora o guia falasse algumas informações interessantes e tenha me ajudado a entender o que explanei nos parágrafos anteriores, afirmo que a maior parte de suas interações cerceavam a história da qual estávamos cercados.

Ele constantemente nos fazia lembrar a ausência de mulheres, índios e negros nas pinturas. Reforçou anacronismos históricos (como o fato de Dom Pedro e os bandeirantes serem de tempos distintos). Em suas falas, ele não explorou a história contada ali, nem a biografia de nenhuma das pessoas importantes. Mesmo Dom Pedro I foi citado por nome apenas uma ou duas vezes, referindo-se mais a estátua ali presente do que a figura histórica.

O guia justificou diversas vezes de que ele levantava aquelas críticas (ele mesmo as chamava de interpretações) para chamar a atenção uma interpretação mais ética da história. Mas será que isso não poderia ser feito sem desprezar a importância do que está representado ali no Museu? Infelizmente, para quem está ouvindo, se tudo que se faz é falar das figuras ausentes (ou que estão ali, mas com menos destaque), perdemos aquilo que está na nossa frente.

Correções históricas certamente são bem-vindas, mas também cabe saber por que elas foram inseridas e o que elas simbolizam. Por exemplo, por que Dom Pedro e os bandeirantes estão juntos, como se fizessem parte do mesmo período? Será que o arquiteto não os juntou pela sua importância na expansão territorial?

Eu senti que, por causa dessa abordagem à história, procurou-se tirar até a o brilho artístico das obras. Repetidas vezes o guia mostrou referências artísticas que eram semelhantes às que estavam no Museu. Pergunto-me se o propósito era dizer que não eram originais, pois na própria sala da Independência havia um monitor que chama atenção à similaridade da obra de Pedro Américo com a 1807, Friedland, de Ernest Meissonier (1815–1891).

1807, Friedland, de Ernest Meissonier

1807, Friedland, de Ernest Meissonier

Por fim ainda fez uma dura crítica à pintura de Maria Quitéria presente na exposição, afirmando que era uma representação machista. Esta crítica me deixou perplexo. Maria Quitéria marca a história ao se vestir como homem e se alistar no exército brasileiro. Ela lutou na Guerra de Independência na Bahia. Ao ser descoberta, Dom Pedro I a condecorou com a mais alta distinção concedida pelo Império, a Ordem do Cruzeiro. Além disso, o quadro está na principal sala do Museu, à direita da Pintura de Pedro Américo. A justificativa de tal crítica pelo guia é por causa da forma pela qual ela foi representada, com feições femininas com maior destaque (como o volume dos seios e a representação bem feminina da face) e por causa da roupa que ela estava usando, que apresenta uma saia sobre a calça, destoando da roupa comum de soldado. Discordo veementemente do amigo guia, uma vez que os destaques a figura mostram um destaque muito maior à mulher do que qualquer demérito que isso poderia trazer.

À esquerda, quadro presente no Museu do Ipiranga. À direita, desenho no caderno de Augustus Earle, que conheceu Maria Quitéria pessoalmente. Como se pode constatar, o quadro no Museu do Ipiranga foi feito baseado no desenho de Earle.

À esquerda, quadro presente no Museu do Ipiranga. À direita, desenho no caderno de Augustus Earle, que conheceu Maria Quitéria pessoalmente. Como se pode constatar, o quadro no Museu do Ipiranga foi feito baseado no desenho de Earle.

Mesmo com essas ressalvas, vale a pena visitar no Museu, inclusive com visita guiada. Espero que no futuro a administração do Museu possa elaborar visitas que consigam fazer um discurso mais balanceado.


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