← Back to list

A Arte Portuguesa Está Viva E De Boa Saúde, Obrigada

Até há muito pouco tempo, achava que, em Portugal, o que era bom era velho e, simultaneamente, cabumbo. Achava que a arte que te faz…

VENUS · 2026-07-05 13:49 · 0 claps · 4.4 min read
#teatro #portugal #art #arte #dead-poets-society
Open on Medium ↗
Wiki topics: CUL · Culture & Media 🔒 · Cybersecurity 🌐 · Society · General

A Arte Portuguesa Está Viva E De Boa Saúde, Obrigada

(fonte:Teatro da Trindade INATEL, O Clube dos Poetas Mortos)

(fonte:Teatro da Trindade INATEL, O Clube dos Poetas Mortos)

Até há muito pouco tempo, achava que, em Portugal, o que era bom era velho e, simultaneamente, cabumbo. Achava que a arte que te faz arrepiar, já tinha acontecido. Estava no passado. E na era do digital e do short attention span, quem é que quer fazer ou sequer ver teatro, cinema ou ler livros?

Até agora, a maior parte do conteúdo artístico que seguia era estadunidense. Achava que o palco bom era o de Nova York, as músicas boas eram de Londres, as pinturas que realmente transmitiam sentimento eram do centro da Europa, até porque nada me dizia o contrário.

O bom é feito lá fora.

Mas no passado dia 14 de junho, fui assistir à adaptação de palco do filme Dead Poets Society, de Tom Schulman, com a encenação de Hélder Gamboa, no Teatro da Trindade. Tive a leve impressão de que a arte portuguesa não morreu, mas permanece oculta, abafada pelo conteúdo estrangeiro que, cada vez mais, nos dá a ilusão de rejeitar o que é nosso.

O filme “Clube dos Poetas Mortos” é talvez um dos com que eu mais me identifico e vejo sempre que posso; por isso, ver uma adaptação em palco, perto de mim, foi como uma criança receber doces antes de ir para a cama. Chorei (a parte da birra) e não dormi (a parte do açúcar). Pela primeira vez fui ao Teatro da Trindade e sentei-me nas primeiras filas, pela primeira vez. Quem estava a ver a peça não era a Carolina de agora, era a Carolina de há um ano, que chorou com o filme e chorou com a peça um ano depois. Senti tudo na pele; não era o Neil a ser negado a vida que o faria realmente vivo — éramos nós.

Desde o cenário até à atuação do elenco — incrível, com todos os outros adjetivos possíveis de excelência — , nada me fez pensar que podia ser diferente ou sequer melhor do que foi apresentado. As minhas expectativas eram altas e saí de lá mais radiante do que nunca.

Atores que, sem me orgulhar do facto, ainda não tinha visto. O que me fez pensar: O que é que me fez não dar valor à nossa arte? Aos nossos? Onde é que eles estavam este tempo todo?

A resposta é simples: eles sempre aqui estiveram.

Hoje em dia, possuímos ferramentas que nos deixam observar o mundo. E, pensando bem, Portugal, em relação ao mundo, é ligeiramente pequeno (ainda que maior em espírito). Por isso, o conteúdo que vês é, na sua maioria, estrangeiro. O que não teria repercussões negativas se conseguíssemos assistir também aos nossos conteúdos sem que estivessem ofuscados.

Saber que há artistas portugueses que estão a apelar aos jovens para consumirem não só arte, mas também o nacional, e de formas tão diferentes e únicas, como a Bárbara Bandeira, com o EP “Lusa:ato II”; e artistas que estão a destacar-se cada vez mais na cena musical, como Francisca Borges, que recentemente lançou as músicas “Altar” e “Coitada”; Carolina Leite (Latte), descrita pelo Expresso como “uma das promessas pop em Portugal”, ou até mesmo os nossos encenadores e atores portugueses, que, de tanto talento, são pouco apreciados.¹

E, muitas vezes, é lá fora que se ganha o reconhecimento necessário para ter condições de vida favoráveis à vida da arte. O que é uma pena, porque, cantado em português, é diferente. Chorar em palco, em português, é diferente. E não é surpresa para ninguém que a vida vista pelos Portugueses também é diferente; não é esporádico que Fernando Pessoa, Saramago ou Florbela Espanca sejam autores com temas literários muitas vezes melancólicos. Ao mesmo tempo em que somos otimistas, temos a nossa vertente melancólica muito bem desenvolvida.

Tudo o que envolve a arte portuguesa é onde reside o mais alto nível de sentimento e coração. É algo que uma máquina nunca poderá substituir.”²

Por exemplo, com a Eurovisão, surgem debates sobre o que é preciso fazer para nos mostrar e provar lá fora, mas falta descobrir quem somos cá dentro de antemão. Obviamente, não nos devemos privar do que é internacional, visto que existem vários artistas que oferecem visões diferentes e estilos diferentes que agregam ao nosso conhecimento geral, à empatia e à tolerância, mas acredito que não devemos rejeitar a nossa arte nacional e procurar inteirarmo-nos completamente no que é nosso.

É verdade que o interesse pela leitura tem crescido ao longo dos anos, especialmente entre os jovens, e por isso mesmo é que devemos também lecionar os nossos autores portugueses cada vez mais. Não só Saramago ou Camões, mas também tantos outros autores que, cada vez mais, se mostram dignos desse tipo de reconhecimento, ou que já deveriam ter esse tipo de reconhecimento, como é o caso de Isabela Figueiredo, Fernando Namora, Vergílio Ferreira, João Tordo, Carolina Dionísio, ou até mesmo (surpreendentemente), As Três Marias.

Destaco também, por ver que têm pouca visibilidade, artistas que integraram este ano o Top 100 Mulheres Inspiradoras dos PALOP 2026: Paulina Chiziane, a primeira romancista moçambicana e a primeira africana a ganhar o Prêmio Camões, em 2021; Sónia Sultuane, artista multifacetada que integra a Associação dos Escritores Moçambicanos; Dina Salústio, considerada a primeira mulher a publicar um romance em Cabo Verde. Todas elas com trabalhos e papéis significativos no que toca a inspirar outras mulheres, tanto no cenário político como cultural e artístico. Têm trabalhos reconhecidos tanto nos seus países como no Brasil e em Portugal e vêm cada vez mais cativando os leitores para as suas obras.

No entanto, reconheço também que existe uma curiosidade específica entre muitos portugueses. Há uma chama de vontade de procurar tesouros escondidos no nosso país. Uma necessidade de encontro consigo mesmos, talvez. O melhor que podemos fazer é divulgar e procurar e, acima de tudo, ajudar.

Obrigada aos artistas portugueses, os que não se contentam com pouco, os que ainda continuam a criar e lutam por reconhecimento, e aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando³.

Mas, principalmente, deixo uma nota aos futuros artistas: consumam muita arte e nunca parem de criar ainda mais.

Este artigo foi escrito por mim com a ajuda de vários artigos online e recorrendo também à opinião de artistas sobre o assunto.

-CN, 05/07/2026

¹ -(Apesar de que a falta de apreciação do cinema português se deva ao nosso alto índice de envelhecimento e à baixa fundação da cultura em Portugal.)

² -Miriam Michelle Ramirez, “Arte portuguesa: um tesouro esquecido”, ComUm

³-“E aqueles que por obras valerosas/Se vão da lei da morte libertando”-Luís de Camões, em “Os Lusíadas”


메타데이터
post_id
7067c27f76c8
slug
a-arte-portuguesa-está-viva-e-de-boa-saúde-obrigada-7067c27f76c8
url
https://medium.com/@carol07cat/a-arte-portuguesa-est%C3%A1-viva-e-de-boa-sa%C3%BAde-obrigada-7067c27f76c8
canonical_url
https://medium.com/@carol07cat/a-arte-portuguesa-est%C3%A1-viva-e-de-boa-sa%C3%BAde-obrigada-7067c27f76c8
author_url
https://medium.com/@carol07cat
status
ok
fetched_at
2026-07-08 22:45:43