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Um breve monólogo sobre minha existência no planeta Terra.

(Abrem-se as cortinas — Ele caminha ao centro do palco, pigarreia, olha para a platéia e começa:)

Ronald Di Nardo Filho · 2026-03-06 07:27 · 0 claps · 10.7 min read
#biografia #reflexões #autodidatismo #experiência-de-vida #pt
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Um breve monólogo sobre minha existência no planeta Terra.

(Abrem-se as cortinas — Ele caminha ao centro do palco, pigarreia, olha para a platéia e começa:)

O autodidatismo como forma de viver e a autoevolução como meta diária — Minha experiência de vida.

Este ano (2026) completo 49 anos.

Finalmente, me assumi escritor.

Comecei a escrever por volta dos dez anos, incentivado por professoras que diziam que eu tinha talento. Escrevi minha primeira tentativa de “livro” com entusiasmo genuíno. Até que levei um choque.

A esposa do irmão da minha mãe, psicóloga, já havia aplicado testes e afirmado que minha capacidade intelectual estava acima da média. Ela leu meu texto e devolveu com a seguinte sentença:

“Você escreve bem, mas não tem estrada.”

A frase era verdadeira. Aos dez anos de idade, ninguém tem estrada. Mas o impacto foi profundo. Calou fundo. O escritor ficou abandonado por 39 anos.

Nesse intervalo, ganhei estrada. Muita estrada. Mais até do que gostaria.

Sobrevivi a cinco eventos de quase morte. Enfrentei depressão. Já tive dinheiro. Perdi tudo. Fiquei viúvo. Meu pai faleceu na minha mão, depois de cuidar por meses, inválido. Hoje estou endividado e reconstruindo minha vida. Vivi o suficiente para não romantizar nada. Sempre fui um outsider, porque seria diferente a essa altura do campeonato?

Observando o debate público, especialmente nas redes sociais, percebo com clareza a carência educacional estrutural do país. Falta base. Falta leitura (muita leitura). Falta formação crítica. A mentalidade que predomina é colonial, arcaica, escravagista, individualista e egoista, não há debate de argumentos, só ofensas e conflitos.

Fiz uma pesquisa recente sobre os livros mais vendidos na Amazon no Brasil em 2025. Gente, que informação nos traz o fato dos dois primeiros lugares serem livros de colorir? Sou eu que sou o problema? Ou será que o problema são os 40% de analfabetos que habitam nosso país?

Antes que alguém venha falar de analfabetos “funcionais”, quem lê um texto e não compreende, só verbaliza as palavras mas não cria raciocínio lógico a partir daquilo, não entende e compreende (interpreta) o que está escrito, para mim é analfabeto. Pintou-se um quadro bonito com a palavra “funcional” (um “me engana que eu gosto”) e relegaram a população sem educação de qualidade. Isso precisa mudar o quanto antes.

Eu falo por mim, eu caí e perdi tudo por falta de educação financeira. Por ter dinheiro num momento em que eu não sabia o que fazer com ele, porque até o momento, havia sido só escassez. Hoje sigo reconstruindo, não há problema que não tenha solução. Tudo se resolve com o tempo. Dívidas? Esperam. No momento certo, serão pagas, já me reergui tantas vezes, o que é mais uma?

Eu reconheço tive privilégios. Tive não, tenho. Cresci em um ambiente cultural plural. Minha avó materna teve um papel fundamental nesta questão. Dona Yvonne não perdoava erros ortogáficos ou gramaticais. Para ela, era vergonhoso ser analfabeto. O mínimo era dominar o idioma de nascença e depois buscar outras formas de se comunicar. Devo a ela essa chama da curiosidade que me move até hoje. Claro, não posso esquecer da Wandinha, professora de português inesquecível que me ensinou tudo o que sei até hoje sobre letras, me apresentou o Latim, me mostrou como o idioma se constrói.

Fazendo um parênteses, eram mulheres européias extremamente exigentes. Me recordo como se fosse hoje, o dedo dói, eu errei a grafia da palavra Lingüiça. Esqueci de colocar o trema. Acredito que hoje nem tem mais trema. Mas eu esqueci. O castigo? Escrever duzentas vezes a palavra lingüiça. Esse era o método. Fui estimulado a pensar por conta própria. A me policiar para não errar. Tive professores que ensinaram mais do que conteúdo, ensinaram humanidade e caráter, conduta na vida. Alguns deles ainda fazem parte da minha jornada.

Entretanto, o que realmente alimenta minha alma é a leitura.

Lembro com precisão do dia em que li minha primeira palavra. Estávamos num Fusca. Eu no banco de trás, minha mãe dirigindo, minha avó no passageiro. Paramos no farol. Olhei para uma placa e li em voz alta: “IPE LANCHONETE”. Houve gritos, comemoração, quase uma síncope coletiva. Eu estava lendo.

Desde então, nunca mais parei. Eu tenho fome de palavras.

Um dia estava lendo e percebi, (valeu Machado de Assis), que quando você lê, você adentra a mente de outra pessoa. Independente dela estar viva ou morta, você está acessando um pensamento dela. Livros são isso, pensamentos encadernados.

Durante a vida, ouvi que tenho um “dom”. Sempre tratei isso com ambivalência. Não é uma coisa que use para me diferenciar das pessoas. Na verdade, eu considero todos iguais. Todos capazes. Querer é a outra questão.

Em determinado momento, ao fazer exame para inclusão da EAR na habilitação, a examinadora me chamou de lado e perguntou:

“Você sabe que é superdotado, né?”

Respondi que não. Perguntei como poderíamos transformar aquilo em dinheiro. Rimos. Mas a pergunta ficou.

Anos antes, ao prestar vestibular na UEL, depois de cinco anos sem estudo formal, apenas acompanhando o mundo por meio de leitura e fontes diversas (você sabe que depois da internet, dá para ler notícias do mundo todo né? Tem um jornal na rússia em todos os idiomas do mundo. Jornais da China em português. Além disso, tomei vergonha na cara e aprendi e dominei o inglês, o que abriu um leque de informação que fiquei embasbacado), fui aprovado em Biblioteconomia, ciência da informação. Já trabalhava com tecnologia, então foi uma escolha natural.

O que me surpreendeu muito foi a colocação: primeiro lugar geral do vestibular.

Se tivesse prestado medicina, teria entrado. Aquilo me deu vertigem.

Sou de 1977. Infância analógica nos anos 80, adolescência nos 90. Testemunhei a transição do mundo físico para o digital. Vi a ficção científica se tornar cotidiano. Robótica, inteligência artificial, automação, tudo converge para um ponto de singularidade tecnológica que antes parecia distante.

Essa jornada é muito fascinante e extremamente exaustiva.

Li praticamente todos os clássicos portugueses e brasileiros. Li os ingleses e os americanos. Li sobre todas religiões. Li sobre filosofia, a grega é ok, a alemã eu ainda não decifrei, não tive cognição, mas não me abalou. Li sobre medicina, anatomia, esportes, artes marciais, geologia, psicologia, astronomia, um sem número de áreas do conhecimento humano. Meu cérebro se encharcou de informação; Continuo acompanhando meus assuntos e autores favoritos e agora estou tentando disseminar um pouco do que conheço. Como ouvi na terapia, em algum momento eu iria transbordar. Isso aconteceu.

Sendo sincero, perdi a conta dos livros que li. Hoje, faço uma curadoria das obras que moldaram meu pensamento e tenho o trabalho de carregar comigo.

Sempre acreditei no generalismo. A especialização extrema me frustrou na academia. Não quero saber apenas uma coisa profundamente. Quero entender o todo. Sou generalista por convicção. Todos os assuntos tem conexões. Uma ciência depende da outra e falta uma integração multidisciplinar e generalista no mundo.

Quando um tema me interessa, vou fundo.

Hoje, tenho 14 livros publicados, três em inglês. Escrever deixou de ser fantasia e tornou-se necessidade. Estou esvaziando a minha mente e o coração, organizando décadas de inquietação e curiosidade represadas na minha cabeça.

Não escrevo para produzir best-sellers. Escrevo para aquietar o ruído interno. Escrevo para espalhar idéias. Se uma pessoa perceber valor nas minhas me dou por satisfeito. Não tenho intenções belicistas, já superei isso.

Gosto do debate franco e inteligente, bem fundamentado, profundo. Só assim mudamos a realidade em que vivemos. Minha mente não para. Conecta dados, identifica padrões, percebe repetições históricas. É uma bênção e um fardo.

Ah, se alguém achar que uso GPT para escrever, se engana. O próprio já travou, surtou, delirou e reclamou que eu penso demais. Eu fiz a inteligência artificial reclamar.

Exemplifico o uso que faço dela: vejo uma notícia qualquer sobre geopolitica. Martelo meu comentário no teclado, soltando toda a ira que sinto por um planeta tão lindo ser uma merda de lugar devido os seres que o habitam. Seleciono meu texto e peço gentimente que o GPT verifique a ortografia e gramática e se o texto está coerente. Aí, acontece como no meme do Newton.

Newton: Eu gosto de Gordas! — Mas Newtão, não podemos dizer isso!!! Escreve aí: Quanto maior a massa, maior a atração. Então, o GPT pega o que nasceu da minha inteligência, os assuntos que eu observo no meu comentário e pasteuriza num texto inofensivo, sem soar ofensivo ou violento.

Infelizmente minha personalidade é combativa, descobri na terapia. Não sou patológico, mas me conheço bem o suficiente para saber minhas fraquezas. Escrever não é uma delas. A máquina me ajuda, não cria por mim. Me ajuda a ter clareza e facilidade em comunicar a minha idéia. Portanto, aos dedo-duros de plantão, eu uso o GPT para me auxiliar, não para criar por mim. Minhas notas em redação sempre foram altíssimas. Esse texto que você está lendo mesmo, foi digitado e o GPT nem viu. Acho que como quero me comunicar com você, não preciso da ferramenta para uma conversa informal.

Na juventude, decepcionei-me cedo com a política. Participei do grêmio estudantil na ETE Getúlio Vargas, cursei Eletromecânica (Alguém sabe me dizer se já virou Mecatrônica?). Estive na passeata dos caras-pintadas, na Avenida Paulista, pedindo o impeachment de Collor. Depois, sucessivas decepções com a UNE me afastaram. Advinha quem era o presidente da UNE na época? É um bunda mole que hoje é deputado federal. Mas quando a realidade cobrou, a política peidou. E desisti desse caminho, é sujo e podre demais. Não tenho saco para nhén nhén nhén e política é 99,9% isso e 0,01% ação. O resto é “vantagi”.

Percebi cedo que o jogo institucional opera com cartas marcadas. Desde então, sobrevivo por conta própria. Sem padrinhos, sem costas largas. Sem me envolver com política e suas instituições. Procurando levar uma vida tranquila e honesta. Eu só quero pagar minhas contas e não ter aporrinhação. É pedir demais? Basta as aporrinhações que a vida traz e temos que lidar.

Sou apenas um cidadão comum com uma percepção aguda da realidade que habitamos.

Eu gosto de deitar a noite a cabeça no travesseiro e dormir em paz, sabendo que eu não enganei, trapaceei, fui grosso ou violento com alguém, fui desonesto, tratei mal, desumanizei ou desprezei alguém. Tenho para mim que somos todos humanos e estamos no mesmo barco. Óbvio que cada um pensa de um jeito. Mas se não encontrarmos uma forma de obtermos consenso, não consigo prever um futuro digno para nossa nação. Parto do princípio que toda e qualquer relação, seja comercial, pessoal ou familar, deve ser baseada no respeito mútuo. Sem isso, impossível.

Minha voz foi calada há muito tempo. Cansei de ficar em silêncio.

Agora vou escrever e quem gostar de ler vai encontrar um prato cheio. Livros, artigos, dicas, posts, reflexões, histórias, não vou mais ficar calado nem me conter. Eu só observava. Ficava me perguntando, cacete, como as pessoas podem ser tão estúpidas? Ofensivo, né?

Chat GPT, deixa essa frase mais suave: Às vezes eu me perguntava se o problema estava no mundo ou na minha percepção dele.

Afinal, alguém pode me mostrar qual a diferença na prática? Minha idéia aparece em ambas, com e sem GPT. Quando eu quiser me comunicar sem minha agressividade natural, vou sim usar a ferramenta. Assunto encerrado.

Depois de ler minhas obras, quero que as pessoas façam uma pergunta simples: por quê?

Também quero que percebam que a transformação do mundo não vai começar no vizinho, vai começar dentro de si mesmo. O indivíduo é a menor parte de uma sociedade e é dele que parte a conduta que faz o mundo melhor. Esse é um dos meus valores.

A maior transformação da minha vida, no entanto, não veio da política nem da academia. Veio do cuidado à outro ser humano.

Eu não estava pronto. Havia ficado viúvo. Ainda estava quebrado, me recuperando, mas ainda fragilizado. Foram doze dias agonizantes de UTI até ver a mulher que eu amava partir. Isso me dilacerou. De repente, não muito tempo depois, booom, a vida te entrega uma responsabilidade muito maior do que você acredita que dá conta.

Cuidar do meu pai por cinco meses mudou minha estrutura interna.

Após um AVE isquêmico, cirurgia para colocação de stents e longa internação, ele voltou para casa sob minha responsabilidade.

Rapaz, que responsabilidade.

Alimentação. Banhos. Fisioterapia. Troca de roupas. Fraldas. Remédios. Lazer. Fisioterapia. Teimosia. Acidentes.

O homem que me ensinou a ser homem perdeu progressivamente suas capacidades físicas e cognitivas diante dos meus olhos. O processo foi longo, duro e sofrido, para ambos.

Você já se imaginou dando banho no seu pai ou na sua mãe, com cadeira de banho, num banheiro pequeno? Tem mais um detalhe que quase ninguém fala, mas idosos são mais teimosos que crianças. O apelido que ganhei por manter uma rotina regrada e disciplinada foi General. Em duas semanas comentando em sites de notícias sobre geopolítica, me promoveram a Marechal. Deixei até um comentário para o sujeito, me fez rir e chorar com a lembrança dele.

Numa noite, três horas da manhã, acordo com um estrondo no apartamento. Levanto, saio do quarto, olho no hallzinho do banheiro e vejo a seguinte cena: Meu pai caído no chão do banheiro, todo mijado, sem a fralda, encaixado entre a privada, a coluna e o móvel da pia, que era de granito. Cheguei devagar e perguntei, “está tudo bem, aí?” — ele respondeu que estava, que queria fazer xixi de pé, que não aguentava mais a fralda.

Ajudei ele a se levantar, limpei-o, troquei a fralda e levei de volta para a cama. Implorei para ele me chamar quando quisesse fazer essas peripécias. Que se ele tivesse batido a cabeça ou na pia ou no vaso, o desfecho teria sido trágico. Nesse dia fui duro com ele. Antes de voltar a dormir, dei boa noite e ele resmungou, boa noite, general.

Vocês acham que adiantou? Chamei o médico do convênio, neuro e questionei sobre os comportamentos, porque ele não aceitava que estava limitado, que não conseguiria mais ficar em pé e ter equilíbrio. Foi quando o neuro me explicou sobre as placas de proteína que apareceram nos exames e o Alzheimer. Quando eu era criança chamava demência, hoje evoluímos e sabemos que a demência senil pode ser causada por várias coisas, Afasia, Esclerose múltipla, Alzheimer, Parkinson.

Assistir um pai definhar é uma experiência tensa, desagradável e intensa, que reorganiza a alma em níveis quânticos.

Depois disso, deixei São Paulo. A cidade já não fazia sentido. Desapeguei de tudo. Do CEP. Dos amigos. Da família que restava. Me envolvi num projeto de arqueologia e fui para o trecho. 23 meses morando em alojamento. Vim para o interior de Minas Gerais. O projeto acabou. Eu fiquei. Aqui encontrei espaço mental. Silêncio. Ritmo humano.

Consigo escrever sem interrupções.

Canto no karaokê uma vez por semana para aliviar a pressão interna.

Faço transporte por aplicativo para pagar as contas.

Minha companheira trabalha. Quase vivemos com dignidade.

Durante muito tempo na minha vida caminhei sem propósito claro.

Atualmente eu encontrei um. Vejo claramente um caminho se mostrando à minha frente.

Depois da medicina sagrada, do contato com populações originárias, depois do cuidado, depois dos lutos, ficou evidente:

Meu propósito é registrar minha jornada e provocar reflexão.

Lutar por uma educação de qualidade no nosso país.

Cobrar a falta de infraestrutura que nos acompanha desde o tempo do império.

Mostrar para as pessoas que há vida e pensamento livre, longe de amarras que transtornam nossa vida e limitam nossa cooperação.

Quero transformar pessoas em leitores, não ledores. Quero que depois que minhas linhas sejam lidas, um sentimento especial brote em você.

Que meu texto não passe despercebido.

Que minhas idéias invadam as suas!

Bem vindos à mente de um homem que se acredita louco, mas já foi informado que não é pelos terapeutas, mas sua mente não para de pensar e ver padrões, falhas, comportamentos e funciona a mil por hora.

Será que só eu estou percebendo esses padrões?

Por que repetimos os mesmos erros geração após geração?

Por que não elevamos nossa conduta coletiva?

São perguntas que compartilho e que me azucrinam a existência.

Acredito no autodidatismo como forma de viver.

Na autoevolução como meta diária.

A leitura é ferramenta de libertação.

As letras alimentam a mente.

A mente transforma condutas.

Condutas transformam o mundo.

Não busco aplausos. Busco consciência.

Somos todos humanos.

Sigo escrevendo.

Obrigado!

(Ele suspira, se vira e caminha para sair do palco, cansado, mas orgulhoso de tudo que viveu até aqui. Caem os panos)

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