Como jogar fora o processo de uma vida — com Acadêmicos do Grande Rio
Como jogar fora o processo de uma vida — com Acadêmicos do Grande Rio

Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval
Para quem não acompanha com vigor o mundo do Carnaval, pode ter sido uma surpresa a colocação da Grande Rio ao fim da apuração: um simples oitavo lugar. Surpreende pelo fato de ser uma das escolas mais famosas, que sempre aparece na mídia e que tem brilhado nos últimos anos. Contudo, quem acompanha cada passo dado pelas agremiações nos meses que antecedem o desfile oficial percebeu que esse brilho estava indo embora. As expectativas, que vinham sendo a cada temporada maiores, caíram drasticamente. E a própria escola tem uma enorme parcela de culpa nisso. Com o ciclo de 2027 já iniciado, as notícias que chegam de Duque de Caxias pouco animam, e parecem seguir piorando o cenário que se desenha há mais de um ano.
Mas, para entender o presente, precisamos primeiro passear pelo passado. A Grande Rio é a caçula do Grupo Especial: surgiu apenas em 1988, fruto da fusão de duas agremiações carnavalescas da cidade. Ascendeu à elite em pouquíssimo tempo, fazendo sua estreia na primeira divisão em 1991, de onde nunca mais saiu. Viveu uma fase modesta na década de 90, se aconchegando entre as grandes através de bons enredos e sambas. Chegado o novo milênio, a escola se viu em um divisor de águas e construiu uma identidade única. Contando com alguns carnavais patrocinados, galgou posições e passou a ter mais destaque competitivo, alcançando pódios em sequência e ficando a quesitos de desempate de sagrar-se campeã. Concomitantemente, estreitou relações com a mídia e as celebridades, vindo a ficar conhecida por ser a casa dos famosos na folia. Foi um período de franca evolução da Tricolor de Caxias, infelizmente freado em 2011 por conta de um incêndio em seu barracão. O acidente prejudicou também outras duas escolas, fazendo com que o rebaixamento fosse anulado e as três desfilassem sem ser julgadas.
Apesar da demonstração de superação, esse acontecimento pareceu ter deixado algumas sequelas para os caxienses, que nos anos seguintes não conseguiram manter o desempenho de outrora. Passaram a figurar quase sempre no meio da tabela, sem maior destaque. No desfile de 2018, enfrentaram o momento mais delicado de sua história: a quebra da última alegoria causou problemas de evolução e estouro do tempo máximo permitido. Consequentemente, a agremiação foi bastante punida e terminou na penúltima colocação, o que significava seu primeiro rebaixamento em quase 30 anos de existência. No entanto, duas semanas após a apuração e sob inúmeras justificativas, a LIESA anunciou que não haveria descenso naquele Carnaval. A decisão gerou polêmica, levantando suspeitas de ser uma manobra para salvar quem havia caído, mas se manteve. A partir desse episódio, uma nova e brilhante era se iniciou para a escola.
Passado o susto, a Grande Rio começou uma reformulação em toda a sua estrutura para o Carnaval de 2019, o que abrangeu quase todos os segmentos. Evandro Malandro, cantor de apoio da agremiação há anos, assumiu o microfone principal; Fafá, membro da bateria desde a infância, se tornou mestre; Taciana Couto, outra vinda da escola mirim, foi promovida à primeira porta-bandeira. Houve ainda trocas no comando da comissão de frente, direção de carnaval e de harmonia. Renato Lage e Márcia Lage, por sua vez, continuaram como carnavalescos. As mudanças mostraram que uma nova postura estava sendo adotada pela escola, passando a valorizar mais sua própria comunidade e artistas criados em sua quadra. O resultado foi um leve salto para o nono lugar, mas o mais importante foi o caminho pavimentado para os próximos anos.
A mudança de vida da Tricolor aconteceu, de fato, em 2020. Para esse ano, toda a equipe foi mantida, à exceção da rainha de bateria e dos carnavalescos. Com a saída de Juliana Paes, a atriz Paolla Oliveira retornou ao cargo após uma década. O casal Lage deu lugar à outra dupla: Gabriel Haddad e Leonardo Bora, em alta depois de um vice-campeonato com a Cubango no grupo de acesso. O enredo escolhido, sobre Joãozinho da Gomeia, promoveu quase que indiscutivelmente o melhor desfile da história da Grande Rio até aquele momento. Um desbunde em quase todos os quesitos, pois a escola pecou apenas na evolução, devido a problemas com alegorias. Ainda assim, se colocou como uma das favoritas a levantar a taça, o que veio a se comprovar na leitura das notas. Desde 2006, os caxienses não brigavam de fato pelo título, mas o fim foi demasiadamente igual ao de 14 anos atrás. Naquele ano, o empate foi com a Vila Isabel, que venceu a disputa nos critérios de desempate. Em 2020, o sabor amargo se repetiu, com a Viradouro levando a melhor também no desempate — que por azar veio a ser justamente no quesito evolução. Mesmo com a grande frustração, o desfecho foi extremamente positivo e dava ótimas expectativas para o futuro.
Em 2021, pela primeira vez em 89 anos, não foram realizados os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, por conta da pandemia de Covid-19. Mas nem mesmo essa catástrofe mundial foi capaz de atrapalhar a busca de um sonho que já merecia realizar-se. No feriado de Tiradentes, em 2022, a Grande Rio superou seu próprio sarrafo ao apresentar “Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu”. Fez um desfile histórico e se certificou de que mais ninguém tivesse chances de ameaçar sua conquista, dessa forma vencendo seu primeiro título no Grupo Especial do Carnaval. Com um time competentíssimo e em perfeita sintonia com sua comunidade, a agremiação consolidou a melhor fase de sua história nos anos seguintes: defendeu o campeonato homenageando Zeca Pagodinho e voltando no sábado das campeãs; em 2024 retornou ao pódio de forma luxuosa com “Nosso Destino é Ser Onça”; e se sagrou vice-campeã mais uma vez, em 2025, quando levou à Sapucaí o épico “Pororocas Parawaras”. Até então, a rotina era mais do que normal para uma agora potência da competição. Entretanto, a máxima “em time que está ganhando, não se mexe” não foi seguida, e aí é que começa o problema atual.
Pouco após o desfile das campeãs, a escola anunciou o fim do ciclo da dupla de carnavalescos que a revolucionou. A decisão aparenta ter sido tomada, de forma amigável, muito mais por vontade dos artistas, que rumaram à Vila Isabel. Para comandar o projeto artístico, Antônio Gonzaga foi contratado da Portela. Outra saída foi a de Paolla Oliveira, que apresentou alguns problemas pessoais que a impossibilitariam de ocupar o posto de rainha. A coroa foi assumida por Virginia Fonseca, em um episódio altamente criticado pelos sambistas. Tendo a concordar com as reclamações, pois além das inúmeras polêmicas que rodeiam a influenciadora, a decisão mostrou que a Grande Rio voltou a agir como no passado, sem dar ouvidos à sua comunidade. E esse é o principal erro que pode acompanhá-la. Priorizou um acordo claramente empresarial com uma figura que em nada agrega ao espetáculo além de números inflados na internet. Em um cargo tão representativo e que exige postura de quem o ocupa, a exemplo de Paolla, isso é inadmissível. É importante também destacar que o problema não é, necessariamente, se tratar de um famoso, mas de quem é o famoso. Essa é, sim, uma característica da escola, mas que tendo em vista alguns nomes do histórico de rainhas, nunca foi positiva quanto à função social e competitiva que um G.R.E.S deve desempenhar. E essa atitude trouxe a Tricolor de volta a um patamar inferior. O clima que se instaurou em Caxias no restante da temporada foi bem aquém do que nos acostumamos a ver recentemente. A ideia e a realização do enredo de Antônio, “A Nação do Mangue”, foram até boas. Porém, não demonstravam ter o mesmo brilho das obras de Haddad e Bora, talvez por terem sido afetadas pelo astral da escola. O samba também não era de grande valor, ficando bem atrás do nível de discografia que vinha sendo apresentado. As expectativas do público, que nos últimos anos eram sempre altíssimas para o desfile da agremiação, passaram a ser modestas.
Na terça-feira de Carnaval, tudo isso se confirmou. Parecia que nada embalava, nem mesmo o esquenta com sambas antológicos. Apesar de toda sua qualidade, Evandro não conseguiu dar o tom de animação necessário. O mesmo vale para Fafá e sua belíssima bateria, que aparentava estar em um ritmo mais devagar que o convencional. A rainha, como era de se esperar, conseguiu ser vaiada em um ambiente de festa. A Grande Rio passou na avenida sob olhares julgadores e que também não tinham muitos motivos para se animar. Foi uma apresentação bonita, mas fria. Não rendeu pontos altos e pode ser classificada perfeitamente como mediana. O justo oitavo lugar, como antecipei no início, surpreendeu quem acompanha superficialmente a disputa. Para quem viu desde o começo a preparação da escola, já imaginava algo próximo disso. E, para o ano que vem, não há indícios de que esse cenário vai mudar.
Todos os segmentos tiveram seus contratos renovados, exceto o intérprete Evandro Malandro, dispensado pela agremiação. Segundo o Jornal Extra, o cantor teve uma discussão com dirigentes pouco antes da Grande Rio entrar na passarela — o que talvez ajude a explicar o desempenho abaixo da média comentado. Sendo esse o motivo da demissão ou não, fato é que a decisão causou grande surpresa para os fãs e para o próprio puxador, e não foi bem aceita pela comunidade. Ito Melodia, experiente no Grupo Especial, será seu substituto. Acredito que ele possa dar segurança ao carro de som, apesar de viver um momento técnico inferior ao de seu antecessor, que tinha ainda uma conexão muito forte com o pavilhão. A demora no anúncio do enredo também foi outra atitude questionável, e que ajuda a fortalecer a ideia de que 2027 será mais do mesmo. Mesmo ambiente, mesmo resultado, mesmo panorama de tempos antigos.
Esses foram alguns movimentos que indicam a falta de sensibilidade da direção da escola, que continua indo na contramão do que os guiou a uma era gloriosa. As semelhanças com épocas pouco inspiradas dos caxienses dão todos os sinais de que, realmente, a primeira metade da década de 2020 foi apenas algo passageiro. Foi um capítulo à parte da história da Grande Rio, e que seguirá sendo lembrado assim, pelo menos enquanto todos os ensinamentos adquiridos durante uma vida inteira forem substancialmente descartados.
메타데이터
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