A importância do orgulho LGBT+
“[…]é como se dissessem que tá tudo bem ser gay desde que você não pareça ser gay”
A importância do orgulho LGBT+

“[…]é como se dissessem que tá tudo bem ser gay desde que você não pareça ser gay”
Esse texto não é meu.
Ele foi escrito por um amigo, através de observações e experiências pessoais da vivência dele como um homem gay. Ele fala sobre pessoas próximas, sobre a vida pessoal dele e sobre a comunidade como um todo no objetivo de impactar e explicar a importância das atividades de junho, da parada LGBT+ e o motivo por qual todos nós deveríamos ter orgulho de ser LGBT+ e de conseguir simplesmente existir.
A importância do orgulho LGBT +
por Victor Hugo Toledo.
A IMPORTÂNCIA DO ORGULHO LGBT+
Depois de ouvir e ler alguns comentários sobre o Orgulho LGBT+ ao longo do mês e ontem especialmente (dia da Parada), resolvi escrever o porquê de euzinho (portanto é baseado nas minhas vivências e bem pessoal) acho o mês e a Parada LGBT+ o máximo, incríveis, um pisão, um lacre, um bafo, arrasô gay!
Eu já ouvi muita gente dizendo que “tá tudo bem ser gay, mas não precisa esfregar na cara de todo mundo”, que “não tenho nada contra gays, mas que bom que você não é escandaloso”, que “não tem necessidade de existir um movimento de orgulho LGBT+ porque é só pedir respeito no dia a dia”, e eu não consigo entender como as pessoas entendem isso como elogio ou uma opinião válida. No fundo, tudo isso é o mesmo que dizer “tudo bem você ser gay, desde que calado, sem incomodar, sem me fazer refletir, sem impor respeito”. Mas além disso, também me parece que a gente incomoda por existir, e que essas falas nascem da necessidade das pessoas de que a gente se conforme ao que elas acreditam ser o certo.
Eu acho que isso é verdade porque eu já ouvi comentários horríveis sobre LGBT+s só porque eles tinham trejeitos, andando na rua, sem falar ou incomodar ninguém. A pessoa estava lá, existindo, e alguém se sentiu violado ao ponto de comentar que aquilo era errado. Um dia, no carro, meu irmão xingou (só pra gente que tava no carro) um gay andando na rua. Ele também tava só existindo. Um outro dia, era eu andando na rua, e um bando de garotos mais jovens também me xingaram. E eu tava lá, só existindo. Isso já aconteceu num carnaval em que eu tava lá, só existindo com os meus amigos. Numa balada, um amigo trans chegou a vomitar porque um idiota achou que era lugar dele dizer algo sobre a aparência dele e se ela condizia ou não com o que ele se identificava comp seu gênero, sendo que ele tava lá, só existindo. Uma vez vi um vídeo de uma travesti sendo espancada depois de ter feito absolutamente nada a não ser existir. Já ouvi histórias de conhecidos que apanharam porque estavam se beijando. Se beijar não faz parte de existir, me tira do mundo porque não quero a existência.
Em algum ponto, parece que quase todo mundo aprende que ser LGBT+ é errado e carrega isso a vida toda. Eu aprendi e carrego, e ainda tenho uma batalha interna gigante pra aprender a me aceitar por inteiro. E parece que esses comentários representam que a aceitação é parcial, justamente porque as pessoas ainda sentem que ser LGBT+ é errado. Quer exemplos? Gays masculinos e lésbicas femininas são muito mais aceitos que gays afeminados e lésbicas masculinas. Um comentário como “que bom que você não é escandaloso igual outros gays” também ilustra isso, porque é como se dissessem que tá tudo bem ser gay desde que você não pareça ser gay. E é revoltante sentir que mesmo fora do armário, ainda tem gente (às vezes muito próxima de você) achando que algumas partes da sua gayzisse não tem espaço no mundo, simplesmente porque as pessoas aprenderam e sentem que aquilo é errado.
Isso começa desde criança. Homem não chora. Homem não olha pra unha assim, olha assim. Homem não rebola. Homem fala igual homem. Homem olha pra bunda de mulher. Homem não desmunheca a mão. Homem não tem amigas, só amigos. E por aí vai. Quem foge disso, é motivo de chacota. Eu mesmo sofri bullying na escola, e eu mesmo pratiquei bullying na escola com outros gays pra tentar me colocar do outro lado, junto com todo mundo. E com isso a gente aprende a se esconder, a pensar em todos os movimentos, a tentar engrossar a voz, a não olhar pros meninos, a tratar mal as meninas, e um milhão de coisas mais que nos ensinam que é certo. A nossa identidade é apagada e sufocada com o intuito de que a gente entre dentro de uma caixinha que diz como é ser normal. O problema é que a gente não sabe ser de outro jeito.
A gente nasceu diferente. Um dia eu vi um vídeo meu em que eu tinha uns 5 anos e nele eu já era muito afeminado. Pra mim andar, falar, mexer as mãos “igual a um gay” e gostar de homem foi natural. Não escolhi, não me perguntaram se eu queria existir assim, do mesmo modo que ninguém perguntou pra você que tá lendo isso se você queria existir do jeito que você é. Hoje eu sou todo fudido da cabeça, assim como as estatísticas de suicídio, depressão e ansiedade mostram que os LGBT+s são, e acho que eu ter vivido a vida toda tentando ser o que eu não era é o grande motivo disso. Imagina a cabeça de uma criança que tem que estar o tempo todo tentando pensar seus movimentos, a inflexão da sua voz, pra onde olha. Eu tenho certeza que minha ansiedade é fruto dessa necessidade de adequação, e isso me revolta porque poderia ser diferente.
As experiências que fazem com que os LGBT+s se sintam um lixo variam muito, mas é fato de que a gente se sente inferiorizado. A gente tem menos direitos, a gente corre maiores riscos de apanhar e morrer, a gente é decepção pra família (quando não somos expulsos, renegados ou assassinados), a gente passa por terapia de conversão, o que a gente é é usado como xingamento, e tudo isso por existir do jeito que a gente existe. Eu mesmo cresci com medo dessas coisas. E aí que mesmo depois de resistir a tudo isso, ainda ouvimos comentários que nos “parabenizam” por termos nos adequado: “que bom que você é mais discreto, né?”. Bom pra quem, se eu tive que viver na angústia de me adequar? Isso não é elogio, porque ataca uma parte da minha identidade.
O Orgulho LGBT+ é a gente mostrando uns pros outros que a gente não tá sozinho. Uma comunidade inteira saindo do armário e se mostrando pro mundo, botando a cara no sol pra dizer que a gente não é inferior, mesmo que a vida toda a gente tenha aprendido que é. Quer saber por que Orgulho Hétero-cis não existe? Porque os héteros não precisam aprender depois de velhos a gostar do que são, já que nunca aprenderam a odiar. Repetindo: a gente se orgulha porque passou por toda a experiência de ser ensinado a se odiar e mesmo assim aprendeu a se amar. A gente finalmente se orgulha por existir, depois de só por existir passar por tanta merda.
No instagram: @victor.toledo.ost
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