Brasil, México, Ucrânia: nunca é “só” futebol (II)
Era para ser apenas um “fio” no Twitter, mas não consegui sintetizar o suficiente este raciocínio com o cuidado que ele exige.
Brasil, México, Ucrânia: nunca é “só” futebol (II)

Era para ser apenas um “fio” no Twitter, mas não consegui sintetizar o suficiente este raciocínio com o cuidado que ele exige.
Neste fim de semana, o futebol viu mais cenas de horror e tragédia dentro e fora dos gramados. Dessa vez, não foi apenas no Brasil: o México também presenciou a barbárie na partida entre Querétaro e Atlas, que foi marcada por uma briga generalizada entre torcedores das duas equipes, que transformaram o estádio num verdadeiro inferno cujas imagens de violência extrema chocaram o mundo. Já no Brasil, houve registros de brigas entre torcidas em Belo Horizonte e São Paulo, brigas essas que não ocorreram nos estádios, mas em locais aparentemente pré-determinados pelas partes para a realização do confronto.
Além disso, no fim de semana passado, no dia 26 de fevereiro, o tradicional clássico gaúcho Grenal simplesmente não ocorreu, pois o ônibus da delegação do time do Grêmio sofreu um atentado no qual o veículo foi apedrejado, causando danos físicos e emocionais a atletas que ali estavam. Dias antes, outro atentado ocorreu, dessa vez ao ônibus do time do Bahia, que sofreu um ataque a bomba, que também feriu física e emocionalmente os jogadores que ali estavam.
Em meu último texto, discuti sobre o papel da mídia hegemônica e da indústria publicitária no acirramento dos ânimos entre os torcedores brasileiros. Continuo pensando que essa é uma peça fundamental para entender o fenômeno da violência no futebol. No entanto, vendo como a situação se agrava em alguns países, principalmente neste atual momento histórico, penso que talvez seja relevante levar em conta que o fator midiático não é o único. Vendo as cenas recentes do México e do Brasil, lembrei-me de cenas ocorridas na Ucrânia em 2014. Na ocasião, uma partida de futebol disputada na cidade de Odessa gerou uma briga entre torcidas organizadas que contava entre os participantes com nacionalistas que se somaram a milícias e partidos ultradireitistas que realizavam um protesto na cidade. Tal protesto acabou se dirigindo ao local onde ocorria um outro protesto, organizado por comunistas, na maioria idosos e russos étnicos, que pediam aumento das pensões pagas pelo governo e outros benefícios. Houve confronto, os manifestantes russos entraram no prédio do sindicato para se proteger dos tiros e bombas — pois não estavam armados — e os nacionalistas ultradireitistas atearam fogo ao prédio, matando cerca de 40 pessoas.
Evidentemente faltam-me elementos para fazer tal afirmação de maneira categórica, de modo que o que direi deste ponto em diante é uma especulação e, mais ainda, uma sugestão para que um tema seja aprofundado. Ora, olhando para todos os acontecimentos descritos acima, no Brasil, no México e na Ucrânia, não me parece que sejam concernentes só ao futebol e muito menos que sejam isolados uns dos outros. Na Ucrânia, está mais claro que as torcidas organizadas e o próprio futebol foram e são um braço importante do ultranacionalismo que desde o final de 2013 tem fraturado o país. Para se ter uma ideia, há até atletas profissionais que estão indo para o front ou que têm arrecadado fundos para financiar o exército e as milícias ucranianos. Como sabemos, apesar dos discursos que pregam soberania para a Ucrânia, quem orienta as autoridades locais e mobiliza as forças da situação são os Estados Unidos e a OTAN. Grosso modo, isso é dizer que os “aliados” ocidentais da Ucrânia estão envolvidos até os cabelos nos acontecimentos que envolvem o ultranacionalismo no país, incluindo aí os do futebol.
O Brasil, como se deveria saber, é um alvo “natural” dos Estados Unidos que também passou por uma desestabilização interna via insatisfação popular em 2013 — mesma época que a Ucrânia –, passou por uma queda de governo em 2016 e desembocou na ascensão da extrema-direita com as eleições presidenciais de 2018. O México, por sua vez, embora atualmente tenha um governo de esquerda, sofre um patrulhamento rígido de fronteiras por parte dos EUA, tem graves problemas com o narcotráfico — cujo grande “cliente” é o mercado estadunidense — e passa por constantes ataques xenófobos por parte de seus vizinhos do norte, como quando Donald Trump dizia em campanha eleitoral que iria obrigar os mexicanos a pagar pela construção do muro na fronteira entre os dois países. Brasil e México são, portanto, alvos constantes da ação ou pelo menos da vigilância dos Estados Unidos da América, e a instabilidade política e social nesses dois países jamais pode ser considerada em si mesma e de maneira descolada dos interesses estadunidenses.
O jornalista Paulo Vinícius Coelho informou neste domingo no programa “Troca de Passes” que nos últimos anos houve uma escalada significativa da violência entre torcidas organizadas no México devido ao fato de que estas têm recebido dinheiro dos donos dos clubes, que em geral são grandes magnatas mexicanos — o Querétaro, por exemplo, pertence a um magnata do turismo e da mídia mexicana, um conglomerado que possui hotéis pelo mundo todo e mais de 20 estações de rádio e um dos maiores jornais mexicanos. Ou seja, a própria mídia, que alimenta rivalidades entre times e torcedores, que vai debater as “possíveis soluções” para o problema da violência no futebol e que possui muito capital circulando pelo mundo — sobretudo pelos Estados Unidos — é a mesma que financia a barbárie.
No Brasil, se tudo der certo, 2022 será um ano de eleições presidenciais e legislativas. Que tipo de sociedade estará indo às urnas? Aquela que está unida em torno do bem comum e de ideais de democracia e de institucionalidade destinados a realizar as mudanças que todos nós precisamos em matéria de emprego, saúde, educação e redução de desigualdades ou aquela que está profundamente dividida em todos os aspectos, onde tudo é motivo para as pessoas manifestarem ódio e selvageria, até mesmo o futebol? A quem interessam as brigas de torcidas do mundo todo atualmente? Talvez essas sejam respostas que devêssemos buscar para resolver problemas que vão muito além da nossa “paixão nacional”.
메타데이터
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