aos homens do meu tempo
aos que ainda chamam o rio de água
aos homens do meu tempo
aos que ainda chamam o rio de água
senhoras e senhores,
há um engano acontecendo.
e não é pequeno.
passais os dias olhando para as coisas como se as coisas fossem apenas elas mesmas.
um rio não possui argumentos.
uma árvore não possui argumentos.
um cavalo não possui argumentos.
a chuva tampouco.
ainda assim,
todos sabem exatamente o que são.
desconfio dos homens que necessitam explicar excessivamente a vida.
e depois vos admirais quando tudo transborda.
como se o transbordamento não fosse a vocação natural do mundo.
olho para as estradas e para os homens que caminham por elas.
há uma espécie de cansaço.
um desejo contínuo de transformar correnteza em calçada.
mistério em cálculo.
vida em utilidade.
mas os rios não foram feitos para compreender os homens.
e tampouco os homens foram feitos para permanecer imóveis.
ainda assim, insistem.
recolhem pedras.
empilham certezas.
constroem pequenas barragens ao redor do próprio espanto.
e chamam isso de maturidade.
eu desconfio.
porque toda vez que a vida me aconteceu ela chegou primeiro como pergunta.
nunca como resposta.
veio pelas chuvas.
pelos cavalos.
pelas borboletas.
pelas ruínas.
veio pela parte mais vulnerável da carne.
e depois, quando eu já não podia fugir,
abriu passagem.
há quem pense que viver é proteger-se.
há quem pense que viver é vencer.
há quem pense que viver é permanecer de pé.
mas talvez.
talvez.
viver seja outra coisa.
talvez viver seja sustentar o olhar diante da correnteza.
e reconhecer, sem vergonha alguma,
que existe um rio atravessando o peito.
e que ele continuará correndo.
메타데이터
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