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No Inferno o Café é Doce

“Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (…), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois”. Nietzsche

Sidnei Wanka · 2026-04-02 02:55 · 0 claps · 10.4 min read
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Wiki topics: PHI · Philosophy 📊 · Economic Policy

No Inferno o Café é Doce

“Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (…), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois”. Nietzsche

Na sala branca haviam poucas cadeiras, apenas um armário no canto da parede e uma mesinha com pés de ferro e tampa de vidro. Sobre a mesa, uma bandeja e, sobre ela, um jarro de vidro com água, uma garrafa de café e alguns copos plásticos. A entrevistadora olhava para os três sentados à sua frente. João estava no meio. No lado direito, um rapaz novo, cabelo espetado, brinco, tatuagem, roupa despojada e olheiras terríveis, com a aparência de estar a dias sem dormir. Se apresentou como Rafinha. Do seu lado esquerdo, um estrangeiro, negro, usando um terno elegante, muito bem-vestido, provavelmente um profissional muito experiente. Um páreo difícil com certeza. Seu nome era Baptiste. João achou que esse nome combinava muito bem. Gostaria de ter tido uma conversa com ele se não fosse tão difícil conversar com outras pessoas. Mas nunca esqueceu esse nome. O problema é que ele se mantinha sério, só olhava para a parede.

No meio, como já falamos, estava João. Neste dia, colocou sua melhor camisa social, uma calça nova, sapatos lustrados que só usava para ocasiões importantes, que eram bem raras, na verdade. Moreno, tipicamente brasileiro, de rosto relativamente comum e corpo forte. Mal passava de um metro e meio de altura. O tamanho sempre foi sua kryptonita aliada à extrema timidez.

Seu pai um dia saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou. Sua mãe o deixou alguns anos atrás, quando sucumbiu a um câncer repentino. Desde então, morava nos fundos da casa de uma tia, com um único cômodo e um banheiro. Trabalhava, até então, como empacotador e faz-tudo no maior mercadinho do bairro. Explorado sem piedade, recebendo o salário mais baixo possível e nenhum benefício adicional.

Apesar da vida simples e sofrida, João era inteligente. Estava decidido a ter uma vida melhor, mesmo que precisasse trabalhar mais, mesmo que precisasse estudar mais. Quase todo o seu mirrado salário ia para os bolsos da sua tia em forma de aluguel. Mesmo assim conseguira juntar o suficiente para pagar uma faculdade a distância. Passava as suas folgas estudando contabilidade e desenhando paisagens, de preferência com um farol. Adorava fotos e histórias sobre faróis à beira-mar cercados de ondas revoltas e pedras pontiagudas.

Agora com o diploma na mão, chegou a hora de mudar, conseguir um emprego melhor. Depois de enviar vários currículos e participar de algumas seletivas sem sucesso, finalmente chegou à fase final de uma seleção importante em uma das maiores empresas da cidade. Conhecida por oferecer aos seus funcionários bons benefícios adicionais e um considerável vale-refeição, o que deixava João empolgado. Depois de anos juntando moedinhas para almoçar mal durante seu trabalho no mercadinho, agora sonhava com a possibilidade de poder tomar sorvete de sobremesa, que diziam ser servido no refeitório da empresa de vez em quando.

A entrevistadora, loira, vestia saia azul-marinho bem apertada. Camisa branca social, também apertada, que espremia e aumentava o volume dos peitos bem fartos. Usava uma corrente de ouro que rodeava o pescoço e seguia o contorno do colo dos seios. O provável pingente sumia no vale montanhoso delineado pelo decote. Os botões da camisa social pareciam sofrer uma esplendorosa pressão mecânica, esgarçando o tecido branco na função de contenção mamária.

Enquanto falava sobre as atribuições da vaga à qual a seleção se destinava, João inevitavelmente tinha seu olhar sugado magneticamente para o meio dos peitos da entrevistadora, mas lutava, bravamente para desviar sua atenção, torcendo para que seus olhos não se cruzassem com os olhos da sua inquisidora.

Já Rafinha a olhava descaradamente, de cima a baixo, às vezes disfarçava só para não ficar evidente e constrangedor demais. E era óbvio que esses olhares a deixavam de certa forma desconcertada.

Enquanto isso, Baptiste olhava para a parede.

Entre mexidas no cabelo e mordidas na tampa da caneta, a entrevistadora folheava os currículos e analisava o resultado da avaliação dos três candidatos finalistas.

Ficou em dúvida entre Rafinha e João. Praticamente ignorou Baptiste, talvez porque ele só olhasse para a parede. Franzindo os olhos e olhando com muita dúvida para Rafinha, ela finalmente decidiu contratar João. Acho que podem ter sido as olheiras do rapaz que o desclassificaram, João concluiu.

Naquele dia, João comemorou. Acreditou que foi sorte. Saindo da empresa, foi direto para o mercadinho levar a sua carta de admissão e solicitar a sua dispensa.

Na saída, atravessou a rua e sentou na mesa que ficava na calçada do boteco do seu Rodrigues. Pediu uma cerveja. Nesse mesmo boteco só entrava para comer coxinha no intervalo do almoço. As coxinhas costumavam ser boas, exceto quando vinham encharcadas de óleo, mas nada que um monte de catchup barato não resolvesse. Sempre sentava na mesa mais ao fundo a fim de ficar o mais invisível possível.

Pediu outra cerveja. Como quase nunca bebia nada alcoólico, a segunda cerveja já o deixara ruborizado e meio tonto. Mas estava feliz. Um devaneio lhe veio à cabeça. A visão de Larissa — esse era o nome da entrevistadora, lembrou do crachá pendurado no bolso da camisa social branca — poderia até se tornar uma paixão. Mas claro que João sabia que era um absurdo, coisa impossível. Mas neste momento se deixou levar pela imaginação: os botões da camisa apertada de Larissa chegando ao ponto de máximo de tensão e seguidos de uma ruptura que liberaria o volume dos seios fartos e ainda contidos pelo sutiã branco decorado com renda semitransparente. Neste momento de susto, os cabelos loiros são projetados para frente, pousando suavemente sobre a curvatura dos seios. Ela levaria a mão com seus dedos esticados, finos, longos e unhas delicadamente pintadas à frente da boca, sem tocar nos lábios realçados pelo batom vermelho, e soltaria um suave “Ops!”.

Um casal passa na calçada e o cumprimenta, tirando João do seu devaneio soft erótico. Achou estranho porque habitualmente ninguém o notava. Pediu a conta e a saideira.

Caminhando para casa, sente uma vontade enorme de mijar. Escondeu-se atrás do poste, liberou litros de urina que o fizeram ficar mais leve instantaneamente.

Puxando o zíper e arrumando as calças, voltou a caminhar e a sorrir ainda mais impulsionado pela bexiga esvaziada e pelo efeito do álcool corrente em suas veias.

Passou por uma linda morena curvilínea de seios médios, porém firmes em formato de pera, desafiando a gravidade. Lindamente envolvida em um vestido fino, curto, na cor vermelha.

Os olhares desinibidos de João neste momento a lambeu das pernas até o pescoço, e se chocaram violentamente com seus meigos olhos castanhos. A incrível morena solta o sorriso mais lindo que João já presenciou, seguido de um arrastado “Oiii”.

O coração disparou, o rubor subiu por sua espinha até arrepiar o couro cabeludo. Desesperado para dizer alguma coisa, João congelou.

E assim a linda morena de vestido vermelho seguiu seu caminho pela calçada, movimentando seu quadril de forma hipnótica, sabendo que neste momento fora desejada e que um olhar ainda a seguia.

— É isso, meus amigos — João falou para si mesmo — a Larissa não é para mim, mas uma dessas, quem sabe. Agora que tudo vai mudar… quem sabe?

Feitos todos os procedimentos e exames admissionais, chegou o primeiro dia no novo emprego.

Após uma manhã de integração, onde a equipe de RH fez a apresentação formal da empresa com seus históricos, missão, visão e valores, somados a algumas dinâmicas de motivação.

Na parte da tarde, é hora de conhecer o local de trabalho. Subindo para o segundo andar, logo que a porta do elevador se abre, a menina do RH apresenta a estação de trabalho que João vai ocupar. Posicionada na saída do elevador e em frente à salinha do café. João é informado que já pode sentar na sua mesa e que alguém vem lhe informar sobre as demandas do seu trabalho.

Já sentado na sua futura mesa, observa a sala: mais de vinte mesas se espalham pelo ambiente com seus ocupantes atarefados, falando alto em meio a uma sinfonia de ruídos e toques de telefone. Ninguém olha ou percebe João. Duas em cada três pessoas passam pelo corredor e batem em sua cadeira. Dez por cento pedem desculpas, setenta por cento nem olham para João, e os outros vinte por cento soltam algum tipo de xingamento.

Olhando para a tela do computador com os habituais ícones alinhados na lateral do monitor. O papel de parede na tela é uma imagem com um colorido berrante de um carro esportivo, provável herança do antigo usuário deste terminal.

Passam-se vários minutos e ninguém aparece. João toma a liberdade de trocar a imagem por uma paisagem com um lindo oceano azul e um imponente farol branco ornado com uma faixa vermelha bem no meio de sua torre, rodeado de rochas pontiagudas à beira-mar.

Sentindo-se incomodado, João levanta e segue para a sala do café. Na entrada, depara-se com duas mulheres e um homem que o olham de cima a baixo, lançando olhares fulminantes de desprezo.

As mulheres pareciam criaturas comuns de escritório. Uma usando vestido com listras bege e a outra vestia calça azul e camiseta branca. Ambas com mais de trinta anos. Já o homem, com quarenta e poucos anos, vestia calça e camisa social e ostentava um bigode grande que escondia completamente seus lábios superiores.

João cumprimenta com um tímido boa-tarde tentando esboçar um sorriso, mas os olhares agora parecem mais inquisidores e sem nenhuma resposta ao seu cumprimento. Mesmo assim, educadamente pediu licença e seguiu até as garrafas térmicas. Encheu um copo grande de café, mas ao dar o primeiro gole sentiu o café doce, muito doce. Acostumado a tomar café amargo, as papilas gustativas lhe deram um soco no cérebro e, antes mesmo do líquido preto chegar ao estômago, a sensação de embrulho já era latente, potencializada pelo desconforto do ambiente.

Só depois percebeu haver duas garrafas de café, onde uma estava escrito “sem açúcar”. Sem coragem de dar o segundo gole e sem saber onde descartar o copo cheio de café doce, João saiu da sala e se posicionou com o copo na mão no corredor, observando a movimentação do ambiente.

No meio da sala, um som de algo caindo no chão. Todos param suas atividades e se calam. Somente o grito e xingamentos de uma loira alta ecoam no ambiente. Alguém está levando um esporro daqueles. Dentre os vários xingamentos proferidos, a palavra “incompetente” e “estúpido” se destacam.

João percebe que a loira histérica é Larissa, a mesma que lhe entrevistou, e sua nova chefe. Focou os olhos na mulher e percebeu a mesma roupa apertada, mas a saia desta vez parecia ainda mais apertada e os saltos enormes faziam ela se mover de um jeito desengonçado.

Um rapaz de cabelos compridos vestindo uma camiseta preta da banda Kreator passa por João, olha diretamente nos olhos e com um sorriso debochado, solta-lhe a frase:

— Welcome to hell, brotter!

Larissa contorna o escritório e entra furiosamente no corredor em direção ao elevador, que fica logo após a sala do café.

João encostado na parede entre a sala de café e o elevador percebe aquela monstruosidade loira semi descabelada com mais de um metro e oitenta de fúria vindo em sua direção.

Desvia o olhar e tenta voltar para dentro da sala de café, tentando se mover de forma rápida e ao mesmo tempo mais discreta possível, olhando para o horizonte, fingindo não ver a aproximação da besta galega.

Mas, ao firmar o primeiro passo para a porta da sala, esbarra no bigodudo e o copo de café explode em sua mão, respingando na camisa branca que, com o susto, larga seus papéis. Neste momento, o tempo desacelera e somente haviam folhas de papel A4 impressas com gráficos importantes e um copo cheio de café projetados no ar em direção ao chão. Chão este coberto por um lindo e macio carpete cinza. Após um apoteótico balé aéreo, o copo de café e as folhas do relatório do bigodudo se esparramam no chão, deixando uma volumosa mancha marrom no carpete rodeada por respingos dramáticos que prenunciava momentos difíceis para João naquele ambiente.

Larissa para diante da cena, observa João agachado, tentando desajeitadamente recuperar as folhas do relatório do bigodudo encharcadas de café. Ao lado, o homem com a camisa recém-manchada dispara uma dezena de “filho da puta” e “puta que o pariu”.

Larissa abaixa, pega o copo de café, levanta-se e ergue o copo segurando pela ponta dos dedos. Olhando para todos na sala, proferiu com voz furiosa uma terrível sentença:

— Se vocês não sabem tomar café, a partir de hoje está proibido. Eu falei: proibido sair com café ou comida fora da copa.

Todos sabem o quão sagrado é o café em um ambiente de escritório e quão reconfortante é trazer o seu copo de café para sua mesa de trabalho.

Em unanimidade, todos da sala sabiam que a culpa da restrição do café era do rapaz novo.

João volta para sua mesa mais que constrangido. O tempo passa lentamente enquanto suas orelhas queimam e a angústia não o deixa engolir a própria saliva.

Passados mais de uma hora, um rapaz bem sem vontade veio lhe explicar os acessos ao sistema e onde encontrar suas demandas de trabalho.

João quase não o ouviu, fez algumas anotações, mas a mancha de café no carpete parece ter ganhado vida e sussurrava insistentemente o quanto João era um imbecil.

No segundo dia de trabalho, ao passar pela portaria, João nota olhares curiosos para a sua pessoa. Em meio ao grupo que formava fila para bater o cartão ponto, um anônimo escondido solta uma chacota:

— Cuidado com o café! — seguido de risadas e comentários contidos dos outros funcionários.

Entrou no elevador para o segundo andar junto com duas mulheres muito bem vestidas a conversar sobre amenidades do lar, ignorando completamente a presença do novo funcionário.

— Ok — falou para si mesmo — , depois dos acontecimentos no primeiro dia é inevitável que venham os deboches. Mas vamos lá, o negócio é concentrar e partir para cima. Não cheguei até aqui à toa. Logo eles esquecem. Estava certo disso porque no mercadinho João foi inúmeras vezes alvo de chacotas e piadas e, depois de algum tempo, outro assunto tomava o lugar e ele era esquecido.

Ao sair do elevador em direção à sua mesa na frente da sala do café, percebeu que a mancha no carpete cinza ainda estava lá. Os respingos ao redor pareciam ter aumentado e deixado a feição cada vez mais demoníaca.

Pensou inocentemente que o pessoal da limpeza poderia ter dado um jeito naquilo. Mas não, ela estava ali. Café e açúcar impregnados no carpete cinza.

O trabalho em si era relativamente fácil: revisar os itens das notas fiscais, naturezas de operação e regras de imposto. João tirava de letra.

Mais um dia se passou. As pessoas vinham à sala do café e esbarravam na cadeira de João, sussurravam e o olhavam torto. Nesta altura, os pedidos de desculpa pelos esbarrões não passavam de cinco por cento.

Na outra manhã, passou pela mancha tentando desviar o olhar, mas era impossível: ela sussurrava “seu imbecil, seu imbecil”. Até as pessoas que passavam no corredor olhavam para a mancha e depois para João. João sabia que a mancha de café no carpete cinza também sussurrava para elas “olha só que imbecil”.

Enquanto ligava seu computador e aguardava o carregamento do sistema, a lembrança da morena de vestido vermelho meneando o quadril seguia para cada vez mais longe. Neste dia, os olhos de João marejaram, lembrando que na tarde passada, quando voltava para casa, passou pela mesma morena. Desta vez, ela usava um short jeans esfarrapado e regata azul. Falava alto ao celular e andava desajeitada sobre uma sandália de salto. Ficou na esperança de que talvez ela o cumprimentasse, porém desta vez não houve sorriso, nem olhares.

Enxugou as quase lágrimas e respirou fundo. Neste momento, lembrou do sorvete. Já tinha o vale-refeição em mãos, mas ainda não tinha experimentado o sorvete como sobremesa na hora do almoço… quem sabe o sorvete. Pode ainda haver uma esperança.


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