Borboletas em Chamas #10 — É o meu segredo
Segredo
Borboletas em Chamas #10 — É o meu segredo

Segredo
Hoje eu olhei para uma unha postiça. A unha que era sua. Você a cravou nas minhas costas há muito tempo atrás. Você acharia incompreensível a forma que a sua unha foi parar no meu quarto, tal como acha incompreensível agora a forma que eu parti.
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É o meu segredo, eu meio que não consigo ficar muito tempo na festa. Eu sempre enjoo rápido demais. Eu nunca digo nada, só vou embora na hora que sinto que é chegada a hora de ir.
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Eu meio que esqueci, o gosto do tempo, o calor do momento, entre as suas pernas e dentro da sua carne. O prazer oblíquo que se criava naquele quarto escuro, hoje me parece artificial, cafona e barato.
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É o meu segredo, a vida é uma questão de escolha. A minha escolha é sempre partir. Rostos vagos e atos falhos se constroem fragmentariamente em cada ato de partir e se partir. Não foi uma escolha, foi uma necessidade, uma necessidade de querer ir.
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Hoje eu andei pela noite. Senti a brisa do vento. Perdi minha consciência enquanto devaneava pela escuridão do tormento. Pude respirar tranquilo e refletir. Tinha que relativizar todas as experiências antigas antes de tomar coragem para submergir.
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É o meu segredo, eu preciso olhar para o abismo de tempo em tempo. Deixar o tempo passar o tempo. E dar a cada passagem o seu momento. Para ver algo que perdi em minha alma, para encontrar algo que não posso mais encontrar nos teus lábios que já não são mais quentes.
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Só por hoje, deixa-me só. Não quero me explicar, quero partir. Eu não aguento mais. O vômito existencial sempre volta como um turbilhão de arrependimentos repentinos. Como uma autoprofecia que se concretiza na concretude de uma pulsão vital.
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É o meu segredo, sou uma chama que queima no fundo do mar. No risco de se apagar a qualquer momento. E a qualquer momento posso parar de respirar. Posso parar de sentir o que já senti. Posso parar de ver o que vi. Posso parar de ouvir o que já ouvi.
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Hoje eu olhei para cada promessa não cumprida. Eu sinto muito, sinto muito mesmo, mas também não me ajudo — estou muito a mercê da explosão de cada fração que se soma, de cada deleite que se ajeita. É a minha sina, a minha minha nota só, o meu solo na minha produção épica.
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É o meu segredo, apenas o meu segredo. Não posso dizer qual é, nem você pode compreender qual é. Não ache que um dia saberá, pois nem eu sei qual é.
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