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Borboletas em Chamas #10 — É o meu segredo

Segredo

Cadáver Minimal · 2025-03-18 22:29 · 30 claps · 1.9 min read
#português #portuguese #relacionamentos #inconsciente #partir
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Borboletas em Chamas #10 — É o meu segredo

Segredo

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Hoje eu olhei para uma unha postiça. A unha que era sua. Você a cravou nas minhas costas há muito tempo atrás. Você acharia incompreensível a forma que a sua unha foi parar no meu quarto, tal como acha incompreensível agora a forma que eu parti.

É o meu segredo, eu meio que não consigo ficar muito tempo na festa. Eu sempre enjoo rápido demais. Eu nunca digo nada, só vou embora na hora que sinto que é chegada a hora de ir.

Eu meio que esqueci, o gosto do tempo, o calor do momento, entre as suas pernas e dentro da sua carne. O prazer oblíquo que se criava naquele quarto escuro, hoje me parece artificial, cafona e barato.

É o meu segredo, a vida é uma questão de escolha. A minha escolha é sempre partir. Rostos vagos e atos falhos se constroem fragmentariamente em cada ato de partir e se partir. Não foi uma escolha, foi uma necessidade, uma necessidade de querer ir.

Hoje eu andei pela noite. Senti a brisa do vento. Perdi minha consciência enquanto devaneava pela escuridão do tormento. Pude respirar tranquilo e refletir. Tinha que relativizar todas as experiências antigas antes de tomar coragem para submergir.

É o meu segredo, eu preciso olhar para o abismo de tempo em tempo. Deixar o tempo passar o tempo. E dar a cada passagem o seu momento. Para ver algo que perdi em minha alma, para encontrar algo que não posso mais encontrar nos teus lábios que já não são mais quentes.

Só por hoje, deixa-me só. Não quero me explicar, quero partir. Eu não aguento mais. O vômito existencial sempre volta como um turbilhão de arrependimentos repentinos. Como uma autoprofecia que se concretiza na concretude de uma pulsão vital.

É o meu segredo, sou uma chama que queima no fundo do mar. No risco de se apagar a qualquer momento. E a qualquer momento posso parar de respirar. Posso parar de sentir o que já senti. Posso parar de ver o que vi. Posso parar de ouvir o que já ouvi.

Hoje eu olhei para cada promessa não cumprida. Eu sinto muito, sinto muito mesmo, mas também não me ajudo — estou muito a mercê da explosão de cada fração que se soma, de cada deleite que se ajeita. É a minha sina, a minha minha nota só, o meu solo na minha produção épica.

É o meu segredo, apenas o meu segredo. Não posso dizer qual é, nem você pode compreender qual é. Não ache que um dia saberá, pois nem eu sei qual é.


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2026-07-20 15:04:06