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Auri Sacra Fames: A fome do ouro e sua relação antropofágica representada em Roteiro pra Aïnouz…

O que somos? Por que somos? E se somos, em que narrativa? Penso que essas perguntas são respondidas, de alguma forma, com a articulação de…

memoriè · 2024-06-05 00:43 · 12 claps · 8.0 min read
#culture #antropofagia #don-l #hip-hop #rap
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Auri Sacra Fames: A fome do ouro e sua relação antropofágica representada em Roteiro pra Aïnouz (Vol. 2) de Don L

O que somos? Por que somos? E se somos, em que narrativa? Penso que essas perguntas são respondidas, de alguma forma, com a articulação de um movimento histórico, estético e filosófico conhecido como Antropofagismo por Oswald de Andrade na década de 1920. O conceito elaborado no século anterior é concebido com o propósito de desafiar a complacência em relação às influências estrangeiras que continuamente nos afetam. O complexo de identidade do brasileiro existe pois promoveram nossa identidade baseada em uma visão etnocêntrica, ignorando nossos costumes originários, portanto, fomos classificados como bárbaros e selvagens e, com essa narrativa, fomos dizimados. A existência de um Manifesto Antropofágico é um resgate identitário da nossa história e um marco do que se pode dizer como perspectiva fusional, é a soltura de conceitos colonizadores e a tomada de uma narrativa não mais passiva, mas sim com caráter crítico, influenciador e revolucionário. Inspirando movimentos artísticos há mais de 100 anos, Oswald de Andrade firmou-se com seu conceito como um marco na história da brasilidade e até hoje, podemos ver sua influência na cultura brasileira contemporânea. O álbum “Roteiro pra Aïnouz” (Vol. 2), de Don L, exemplifica uma obra que se inspira em movimentos revolucionários como o antropofagismo e o comunismo, ao mesmo tempo em que promove uma concepção de identidade brasileira fundamentada nos povos originários. Esta concepção é permeada pela ideia de “fome” do inimigo colonizador e pelo resgate da riqueza usurpada por meio de massacres aos povos indígenas e da escravização dos povos negros. A narrativa presente no álbum explora a noção de inferioridade atribuída aos povos colonizados para justificar a apropriação injusta de recursos em prol do enriquecimento de uma nação que não é nossa.

Em seu manifesto, Oswald explicita uma ideia de devorar um repertório mundial em prol de um uso local e é justamente a limitação de localidade que permite essa construção de identidade nacional. Esse conceito se aplica especificamente em um território marcado por anacronismo, subserviência ao capital estrangeiro, massacre de povos originários, escravização de povos pretos e manutenção de estruturas fomentadas pelo olhar colonizador, que dialoga com sistemas fascistas e capitalista global. Esse olhar fica evidente em suas proclamações: “Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem”. Da mesma forma, Don L, em seu álbum, também evidencia um olhar crítico fazendo uso de localidades, contudo, a marcha pelo resgate da identidade e direitos é em direção ao Sul brasileiro, especificamente à Vila Rica (atualmente conhecida como Ouro Preto), por se tratar de uma região conhecida pela exploração territorial de riquezas, como o ouro, pelos colonizadores. Dando início à sua construção artística, Vila Rica, primeira música do álbum, soa como um discurso de transcrição da história, assumindo uma narrativa não passiva: “Na trilha pra Vila Rica / A tomar todo o ouro que eu preciso / Saquear engenhos no caminho / Matar os soldados do rei gringo / E nunca poupar um sertanista / É disso que eu chamo cobrar o quinto”. Assim como Oswald, Don L evoca o conceito de revolução de uma forma totalmente descolonizada e não-cristã, ambos lançam críticas à ideia do cristianismo puritano, usado como desculpa para dizimar populações originárias. “Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará”. Nessas linhas, fica evidente a noção de dinamismo sobre o cristianismo empregado e absorção do conceito à nossa realidade, em outras palavras, deglutimos o Deus cristão europeu e o trouxemos ao nosso contexto, ato que também é evidenciado em Vila Rica em dois momentos, no primeiro expondo que a ideia cristã de Deus servido pelos colonizadores é na verdade uma hipocrisia, que foi narrativa para massacres, exploração e manutenção da riqueza europeia: “Crucificar em nome do crucificado / Seu Deus é o tal metal, é o capital/ É terra banhada a sangue escravizado”. Em segundo momento, vai evidenciar essa adaptação do Deus cristão ao contexto brasileiro, assim como Oswald: “Tomei a cruz do peito a céu aberto / E pus Jesus do lado certo.”

Don L é um artista cuja trajetória o levou do Nordeste para São Paulo, com o intuito de se aproximar do chamado “eixo” cultural. Dessa forma, assemelha-se a artistas do movimento tropicalista, em que compositores nordestinos viviam em São Paulo e foram pioneiros no movimento de transformação da música popular brasileira a partir de outras influências. Essa correlação é viabilizada pela persistência da Indústria Cultural como um elemento de grande influência na produção artística brasileira. Similarmente às décadas passadas, estamos sujeitos à pressão para consumir arte como mercadoria, sendo que essa mercadoria segue uma fórmula específica para alcançar o “mainstream”, conforme o conhecemos atualmente. Ainda sofremos influência de uma perspectiva que referencia a produção de arte em eixos específicos, como Rio de Janeiro e São Paulo, contudo, se tratando de Rap, seus ouvintes reconhecem que um movimento fortíssimo contra essa monopolização promovida pela Indústria Cultural foi o conhecido “ano lírico”. Esse movimento de contracultura dentro da cena do Hip Hop brasileiro foi marcado pela música “Sulícidio”, que no título já conseguimos entender a intenção dos artistas Baco Exu do Blues e Diomedes: criticar o monopólio de consumo e produção artística no sudeste do país. Esse movimento modificou fortemente a cena do Rap brasileiro, tanto de consumo quanto de produção, por mais que o monopólio ainda se faça permanente no sudeste, depois do ano lírico, artistas e produções de outros eixos, como o Norte e Nordeste, passaram a ser visualizados na mídia. Don L já promove narrativas desse tipo há muito tempo e em 2017 também fez contribuições essenciais neste movimento disruptivo, como o lançamento do primeiro álbum da trilogia reversa Roteiro para Aïnouz, que antecede o RPA 2, álbum usado como elemento nessa análise. O Roteiro pra Aïnouz (Vol. 3) expõe a narrativa de luta pela localidade, trajetória, sonhos e revolução, e abre as portas para a construção do volume 2.

Don L declara abertamente que se considera mais um guerrilheiro do que mc, isso porque seu trabalho é marcado por declarações abertamente políticas, dialogando bastante com o comunismo e com práticas revolucionárias. Para Don, é impossível se desvincular da luta de classe em seus discursos e se coloca à frente de movimentos de contracultura na cena, o artista brinca com a Indústria Cultural produzindo músicas que criticam sua estrutura e ainda sim, vende como produto. Em entrevistas, ele vai dizer que sua superioridade musical se assume por saber encaixar esse discurso revolucionário com a genialidade instrumental, pegando influências de diversos núcleos. É nesse sentido que voltamos a dialogar com Oswald, é a Antropofagia representada ao deglutir instrumentos de fora, interferências musicais estrangeiras e caracterizá-las em um novo sentido. Don L devora outras influências e promove um discurso crítico em cima delas, com uma subjetividade e originalidade que só ele. Roteiro pra Aïnouz (Vol. 2) é construído em uma trajetória linda que traz elementos de ressignificação da história e devolve o protagonismo para os povos que foram explorados ao longo dos anos, nesse sentido, Don explícita sobre os quilombolas, indígenas, favelados, proletários e todos os oprimidos, a importância de subversão dessas narrativas é justamente se contrapor ao discurso etnocêntrico dominante e expor uma identidade baseada em nossos próprios conceitos, contando nossa história pela nossa perspectiva. O álbum é fundamentado com essa narrativa de subversão e na música pela boca, podemos ver explicitamente esse discurso nas linhas: “​​e dizem que somos perigosos / eles que mataram, escravizaram, torturaram na cela / ​e confinaram na favela (milhões nossos) / ​dеpois querem recontar a história / ​е me negar os fatos / eu prefiro recontar os corpos / pra gente medir o estrago” se alinhando com ideias guerrilheiras de reivindicação de direitos e tomada de posse: “suas empresas agora são do povo / ​suas terras são floresta de novo / ​suas mansões, escolas / ​seus soldados mortos pelos nossos / ​quero ver cê falar com o gogó na forca agora”.

Agora, ao adentrarmos na análise da música que dá título a este estudo, “Auri Sacra Fames”, Don L elabora uma abordagem lúdica sobre o tema da “fome do ouro”, um período histórico em que áreas de exploração, em particular a Vila Rica, atraíram uma grande quantidade de estrangeiros em busca de riqueza. Com a lábia portuguesa, referenciando Oswald de Andrade, esses mesmos colonizadores que levaram todo o nosso ouro, nos deixaram com a pobreza e a lacuna estrutural que promove desigualdade entre minorias. Don L vai explicitar que também tem fome do ouro que nos foi tomado, e o feat com a Tasha e Tracie evidencia o cansaço da narrativa de vítima criada pelo etnocentrismo e a tomada de partido pela riqueza roubada: “minha fome é de sangue dos mercenários / eles já derramaram (quanto?) / muito mais do possa ser reparado (…) a fome do ouro que lhes brilha / tem litros de sangue em cada grama / em cada quilo, um extermínio / ​um rio que se contamina, uma mata em chamas”. As obras que apresentam uma lacuna temporal de mais de um século conseguem estabelecer um diálogo interpessoal significativo, mesmo diante da distância temporal, devido à persistência das críticas direcionadas a um sistema que ainda se encontra em vigor. A colonização histórica foi marcada por uma série de atrocidades, incluindo o genocídio de povos indígenas, o tráfico de escravos africanos e a geração de uma população resultante de estupros perpetrados contra mulheres indígenas e/ou negras. Essas práticas criaram uma estrutura de vulnerabilidade que afetou profundamente todos aqueles que não estavam inseridos no grupo dominante. Embora a abolição da escravidão tenha sido formalizada por meio de documentos legais, as populações minoritárias foram deixadas em condições precárias após séculos de violência, sem acesso a estruturas que lhes permitissem ascender socialmente. O racismo, a misoginia e outras formas de opressão encontram espaço na sociedade, sendo intrínsecos ao sistema capitalista que predomina em nossas relações sociais e econômicas. Oswald de Andrade, posterior à obra do Antropofagismo, engajou-se numa luta de oposição a essas estruturas, assumindo uma postura comunista e expressando críticas contundentes ao sistema capitalista, embora tenha críticas evidentes a este sistema já no Manifesto Antropofágico. As críticas perduram ao longo do tempo, pois o sistema que promoveu a exploração e a vulnerabilidade desses povos continua vigente, perpetuando as desigualdades históricas. A concepção de Don L, ainda que utópica, propõe uma revolução frente a essa estrutura opressiva, não com o intuito de destruí-la completamente, mas sim de devorar o inimigo colonizador em todas as suas nuances, a fim de reavaliar suas obras devastadoras à luz de uma perspectiva contemporânea e reivindicar o direito legítimo daqueles que foram subjugados e explorados ao longo da história.

Por fim, em meio a todas as críticas tecidas pelo rapper, ele proclama uma ideia de manifesto que segue a lógica da Volta da vitória, título da música que faz-se entender que já vencemos anteriormente, antes dos portugueses. Contextualizando Oswald: “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. Don também vai defender que não roubaram apenas nossas riquezas, mas construíram barreiras de desenvolvimento afetivo, tomando também o direito de felicidade e vitória. Em sua música, ele celebra a conquista em meio a essa batalha pela restauração estrutural e identitária: “triunfamos e eles terão que retroceder / novo alvorecer e agora terão que reconhecer / a volta da vitória”. Portanto, compreende-se que a solução para a afirmação identitária não repousa na passividade diante das influências circundantes, mas sim na concepção de absorver essas interferências e atribuir-lhes um caráter genuinamente brasileiro, impedindo que anulem nossa noção de pertencimento. Com a ideia de reconquista da vitória e a sensação de felicidade, urge a necessidade de se reconciliar com nossa originalidade, recuperar as práticas originárias e assumi-las também como influentes na nossa cultura. Conforme observado por Frederico Coelho: “A Antropofagia indígena acerta contas com o passado e o futuro; uma vez que o inimigo devorado também já se alimentou de membros da tribo que o consome”. Além disso, ele vai explicar que o antropófago realiza um ato de incorporação da diferença, transformando a memória dos antepassados em forças para gerações futuras. Dessa forma, penso que a força subjacente ao discurso de Don L e de outros artistas contemporâneos foi viabilizada pela coragem de absorver todas essas influências, inclusive aquelas que causam desconforto. Conhecendo nosso passado, sabemos o que não queremos para o nosso futuro e, se preciso for, devoramos tudo.


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