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Ecce Vermis

Texto publicado em 07/07/2026

Mark Luc · 2026-07-07 17:35 · 0 claps · 7.5 min read
#literatura #contos #humor #ficção #machado-de-assis
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Wiki topics: 😂 · Humor & Satire

Ecce Vermis

Texto publicado em 07/07/2026

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas…” e quem disse que eu queria receber essa dedicação? Para bem dizer e bem entender, minha função era despedir as carnes frias do corpo e em nenhum momento pus-me disponível para acatar tamanha responsabilidade. O verme que roeu a carne de Machado de Assis? Tem nome? Bom, deve ter, de fato. Seu nome pode ser Jorge. Um nome comum, para um verme que aceitando a carreira de vir como verme, esperava um cadáver como qualquer outro: frio, putrefato, despedido da vontade de potência… e recebe um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos como banquete. E de fato roeu, roeu, roeu… Até que restaram os grandes ossos do artista, daquele mesmo gago que um dia escreveu as maiores obras que o verme sequer havia tomado conhecimento. Quando se entediou e estava prestes a descansar, abriram o túmulo! Veja só, que audácia! O túmulo de Machado de Assis, aberto!

Para contar a história de maneira correta, permita-me começar de um início que seja breve, porém não tão breve como a vida, querido leitor. Entre comigo no mesmo caixão onde Machado de Assis iria repousar o sono eterno. Podes ver que é frio, úmido e não tem um odor agradável, como também percebes que existe um homem morto, repleto de pequeninos outros vermes, não importantes para nossa história agora. Se conseguirdes imaginar e ver, ambos não podem surgir um sem o outro, poderás perceber Jorge, o primeiro pequeno verme que primeiro roeu as frias carnes do banquete do literato. Também verás que ele se delicia, em bocadas de sua boca vermítica, sem importar-se com seu tamanho, função e id, ego, superego. Ele rói, rói e rói… E se farta sem parar do delicioso gosto que tem um velho corpo, de tão estimado homem. Ok, eu entendo você: “o que tem de tão importante em um corpo sendo devorado?”, e te responderei que a maior importância está nas palavras dedicadas. A dedicação é tudo, até mesmo após a morte. A palavra dos vivos ou dos mortos é a mais potente? Certamente poderás concordar comigo que o que não há volta, tem assim mais potência, pois reside na eternidade imutável de quem profere.

Rodopiando e contraindo-se, o pequenino verme Jorge está percebendo uma alteração de seu ninho aconchegante: algo se move, em vibrações que permeiam seu corpinho repleto de dobras, de restos de carne, dejetos e de seu abdômen verminal. Seria ironia chamar a situação de terminal. Mas, vamos ao que importa de verdade: o túmulo de Machado de Assis se abre, a terra invade o caixão, o sol apaga as sombras, as vozes silenciam o silêncio… e alguns rostos voltam-se para dentro do pequeno dilúvio terrífico — ou terrível? — que dava abrigo ao nosso verminoso amigo. Milhares de câmeras tiram várias fotos, gritos de paixão e lamúrias de alguém que viu uma celebridade começam:

“Jorge, Jorge, Jorge!”.

E tudo bem pensar: “Ok, narrador, você ficou louco e deu vozes a um verme que fará todo o sucesso de Machado de Assis voltar-se para ele.” Não! Eu não farei isso. Um verme continua sendo um verme, afinal, essa é uma história realista. E histórias realistas não precisam de vermes falantes, somente de pessoas que procuram uma mosca na parede.

As vozes continuam, e Jorge, com medo, esconde-se no bolso do paletó de nosso coadjuvante cadavérico. Tarde demais. Os dedos rosas de um homem roliço captura-o e o aprisiona em um recipiente de vidro com terra — afinal, até mesmo os vermes merecem conforto, não é mesmo? — que era levantado como um estandarte de vitória pelo homem que exclamava: “Aqui está! O verme que Machado de Assis fez sua dedicatória! Eu o peguei, eu o peguei! Agora ele é meu!”. Como se fosse uma grande vitória prender um ser que já está preso. Continuemos, caro leitor, antes que minha bebida acabe e eu vá dormir. Onde Jorge está? Ah, ele está indo para o carro do dito homem que o capturou. Quando digo indo, obviamente depende da relatividade, Jorge está preso, não pode se mover, mas ainda assim é levado — contra a sua vontade — para o automóvel. Ativa-se a ignição, o carro engasga e morre. Empurram, engasga e morre. Empurram, engasga e corre.

Veja bem, leitor… sabes como funciona a mente de um verme? O que? Não? E mesmo assim já vistes tantos vermes por aí, os de capotes, que se transformam em baratas sob a luz do dia, daqueles miseráveis que matam alguém e não conseguem suportar a sina, tenho santíssimos e tantíssimos exemplos! E mesmo assim não lembras. Bom, de fato a memória pode não ser o seu forte, mas perceber é diferente de ter sentido. Eles existem e passam por nós todo dia… Mas, vamos lá, leitor. Estou me distraindo e você também. Jorge estava assustadíssimo, em sua pequena mente de verme, aquele era o máximo de adrenalina que poderia chegar — estava em seu limite, e se tivesse vários corações, já teriam falhado todos — com seu minúsculo corpo de inseto. Por sorte, em seu degradante novo habitat havia uma força maior para protegê-lo de todo o mal: uma tampinha de garrafa. A sua protetora, fiel escudeira e pequena barricada entre o mundo real e seu mundo vermitico. Tinha medo. Queria voltar para os seus semelhantes, fora arrancado de sua natureza e jogada em um mundo perigoso e que não entendia nem respeitava sua vontade de se manter um verme de cemitério.

Sirenes e motores de vários carros são a sinfonia que tocam aos nossos ouvidos, leitor. Jorge, no pequeno vidro, e nós, no banco de trás do carro. Fomos sequestrados junto com ele, hã? Era o que conseguíamos ver ao menos: carros acompanhavam o carro com o grande prêmio do dia, um verme único, um ser que deveria ter sido esquecido mas que agora era lembrado por onde passava e reverenciado por onde rastejava. Irônico, não? Um morador de rua morria há dois quilômetros de distância, e outros inúmeros vermes iriam roer seu pobre — de material e de pena — corpo, e o quê poderia o pobre Jorge fazer? Praticamente acabava de nascer, sequer tinha conhecido seu pai e sua mãe, não sabia se tinha vindo de um verme, de uma mosca, de uma bactéria, de uma lata em conserva, de uma cegonha… Tudo que sabia era sua vidinha. Jorge chorou. Mesmo não sendo comprovado que vermes podem chorar. Sentiu saudade da família que não havia conhecido e do terror que poderia acompanhar sua vida a partir deste episódio. Se agarrava em sua tampinha como se ela fosse a última coisa entre o terror da morte e o terror da vida. Estava dividido, e o carro finalmente estacionava assim como todos os seus sonhos de um vivo verme.

Cliques e mais cliques de fotos, o homem roliço elevava-o para as multidões gritando viva, enquanto outros homens do outro lado da outra calçada da outra rua faziam outras coisas, que não se preocuparem com aquele estardalhaço: era dia de trabalho e se demorassem demais o patrão descontava do salário e aí faltaria leite para as crianças, a mulher pediria divórcio, entrariam em depressão e começariam a beber destilados, podendo vir a ter cirrose hepática e gerar novos pequenos vermes. Não os vermes como o Jorge. Jorge era único.

Subiam em uma escada, o homem roliço e o Jorge magrelo, para entrarem em um estúdio de televisão, com várias moças e homens vindo na direção da porta para conterem a grande multidão que tentava entrar. Ombros tocavam os ombros, e a pressão de cada corpo era tanta que parecia uma massa disforme irrompendo sobre uma fina camada de vidro. Quebram a porta, e chegam calmamente até a recepção. O recepcionista aborda a confusão como quem saiu em um sábado de manhã para trabalhar: anota o nome do verme e uma reunião com a equipe, camareiras, maquiadeiras, fofoqueiras, ladainheiras e destileiras. E assim ia nosso amigo verme, ou melhor, nosso amigo Jorge que não tinha só um nome mas uma carreira a respeitar: ele agora era agarrado novamente por mãos gigantes, colocado diretamente em pó de arroz para manter as aparências e disfarçar as nojências, fazendo-se um objeto de clamor e ardor, de furor e arbor, de florescimento e discernimento, já que não só um verme entrava em rede nacional, como também o único verme que já havia estado presente no corpo de um literato.

Luzes, câmera, ação! Jorge estava em uma poltrona pequenina em cima de uma poltrona gigante (e afinal, tudo para ele era gigante!) com lentes e sorrisos à sua volta, além de um homem roliço sentado ao seu lado, do qual já falamos antes, mas você, leitor, tem uma memória um tanto quanto ruim e precisa dos meus retornos para entender esta história. Não é uma pergunta. O quê? Não conseguem entender o que Jorge diz pois ele é um verme? Ora, o que você esperava? Então, várias pessoas começam a se coçar de preocupação, o suor gorduroso caía e caía dos rostos incautos… incautos? Ora, os rostos que estavam também confusos! Para quê tanto alarde no meu vocabulário? Você não entendeu que eu sou um narrador de primeira linha? Enfim, se parar de me interromper, eu te conto o final da história. Onde eu estava? Ah, sim… Jorge também estava confuso, pois além de não saber falar português, mesmo que falasse, o aparelho vocal dos vermes é um tanto pequeno… Quê? Um microfone? Colocar um microfone não vai adiantar nada. Ele ainda é um verme. E não fala português. Enfim, trazem agora um intérprete, que diz entender verminês, que estudou em universidades estrangeiras de professores estrangeiros em um país estrangeiro de um mundo estrangeiro. Isso existe? E o pequeno Jorge ainda confuso, se espreme, se enrola, se taturola procurando proteção. O homem roliço solta um peido. É alto demais e escutam. Jorge se enrola mais. O intérprete começa a encarar Jorge e inventa frases. Ninguém sabe se está correto ou não, mas aplaudem. Jorge fica frustrado. Não disse nenhuma dessas palavras! Estavam colocando mentiras na boca dele. Verme tem boca? Como se chama então? Vai ser boca. Quem está contando sou eu.

Depois de uma longa hora de diz-que-me-disse, Jorge sente-se tão cansado de tanto sucesso que precisa descansar. O programa estoura no ar com telespectadores de todo o mundo, de todas as galáxias e planetáxias. Ele era uma estrela em formato de verme. Já se falava de uma estrela no hall da fama e até mesmo uma participação em filmes de Hollywood. Vermewood já era uma possível criação para novos talentos na carreira do cinema. E onde estava Jorge afinal? Ele estava escrevendo um pequeno livro. Mas, na verdade, caro leitor, eu devo te avisar… Não é ele que escreve, afinal, não tem mãos e nem sabe citar as palavras. Então, quem diabos escreveu o livro? Você? Eu? Ora, é qualquer um, menos Jorge. A única importância é o nome que carrega a ideia, e não a ideia. O novo livro de Jorge, uma biografia de capa dura em mais de oito idiomas e um best-seller verminacional ocupa todas as prateleiras de livrarias, bibliotecas, livriotecas e bibliarias. Um fenômeno. Um estouro. Um estopim. E onde está Jorge? Bem, você deve entender, caro leitor, de que a vida dos vermes é passageira e para nós, um dia é como um ano na perspectiva de tão pequeno ser. O quê? Você está chorando? Aqui, pegue um lenço. Jorge morrerá, mas antes deixe-me ler um pequeno fragmento de um dos menores literatos do mundo, o verme, que em seus derradeiros anos vindouros de precoce velhice escreveu… Como era mesmo? Ah! Aqui está… Começarei pela dedicatória: “Ao cadáver que primeiro ruí as frias carnes, dedico como saudosa memória essas lembranças em vida…”


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