Assexualidades
O poder de preferir um bolo mais do que o sexo.
Assexualidades
O poder de preferir um bolo mais do que o sexo.

Existe algo profundamente incômodo para a sociedade na existência de pessoas assexuais.
Não porque pessoas ace façam barulho demais. Mas justamente porque sua existência desafia silenciosamente uma das maiores normas sociais já construídas: a ideia de que o desejo sexual é universal, obrigatório e inevitável.
Vivemos em um mundo hipersexualizado. Um mundo onde músicas transformam genitais em refrões. Onde corpos são tratados como mercadoria, entretenimento e validação social. Onde publicidade vende desejo antes mesmo de vender produtos. Onde crianças crescem aprendendo, cedo demais, que valor social também passa por ser desejável.
Sexo está em todo lugar. Nos filmes. Nas propagandas. Nas piadas. Na masculinidade compulsória. Na feminilidade construída para agradar. Na cobrança por performance. Na ideia de sucesso. Na ideia de amor.
Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade naturaliza violências absurdas. Normaliza relacionamentos entre homens adultos e meninas menores de idade. Relativiza assédio. Romantiza ciúme obsessivo. Faz piada com estupro. Obriga crianças a serem mães, retirando delas acesso à educação, saúde, lazer e autonomia.
Tudo isso em nome de quê? Do desejo? Da manutenção de estruturas? Da reprodução? Do controle?
Porque talvez a sexualidade nunca tenha sido apenas sobre prazer. Talvez ela também seja sobre poder.
Pessoas assexuais vivem um apagamento constante dentro dessa lógica. A sociedade simplesmente não consegue conceber alguém que não organize sua vida em torno do sexo. Como se a ausência de atração sexual fosse uma falha no sistema. Um defeito. Uma anomalia.
Quem prefere um bolo a fazer sexo vira piada. Quem não sente atração sexual é tratado como alguém “incompleto”. Sempre surge a mesma resposta automática: “Você só não encontrou a pessoa certa.” “É trauma.” “É falta de hormônio.” “É porque ninguém fez direito.”
Como se fosse impossível existir humanidade plena fora da lógica sexual.
A existência ace desafia uma crença coletiva muito antiga: a de que nascer, crescer, reproduzir e morrer é a única trajetória válida para um ser humano. Quem foge disso passa a ser visto como alguém “fora da ordem natural das coisas”.
Mas o que exatamente é essa “ordem natural”?
Uma sociedade que transforma corpos em produto? Que sexualiza adolescentes precocemente? Que mede autoestima pela quantidade de desejo recebido? Que confunde amor com posse? Que transforma relações humanas em validação erótica constante?
Talvez o “anormal” não seja quem não sente atração sexual. Talvez anormal seja uma sociedade incapaz de imaginar intimidade sem erotização.
Existe um medo profundo em relação às pessoas assexuais. Porque elas questionam, mesmo sem querer, estruturas inteiras.
Questionam a maternidade compulsória. Questionam a ideia de que sexo é obrigação dentro de relacionamentos. Questionam a associação automática entre amor e desejo sexual. Questionam mercados inteiros construídos sobre a venda de corpos e fantasias. Questionam até mesmo sistemas econômicos e religiosos baseados na reprodução constante.
Durante séculos, gerar filhos significava ampliar mão de obra, perpetuar patrimônio, manter linhagens e alimentar sistemas produtivos. O famoso “crescei e multiplicai-vos” nunca foi apenas um conselho espiritual: também foi mecanismo social, econômico e político.
E quem não participa dessa engrenagem frequentemente vira ameaça simbólica.
Pessoas assexuais não negam necessariamente o amor. Não negam carinho. Não negam afeto. Não negam vínculos.
O que elas negam — consciente ou inconscientemente — é a obrigatoriedade social do desejo sexual.
E isso desestabiliza muita coisa.
Porque a sociedade consegue compreender violência sexual antes de compreender ausência de atração sexual. Consegue normalizar abusos, mas estranha profundamente alguém dizendo:
- “Eu simplesmente não sinto isso.”*
Há também um apagamento dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Muitas vezes, identidades ace são tratadas como “menos importantes”, “menos urgentes” ou “nem realmente LGBT”. Como se sofrimento só fosse legítimo quando envolve perseguição visível, e não invalidação constante da própria existência.
Mas invisibilidade também machuca.
Ser constantemente tratado como quebrado, frio, imaturo ou incapaz de amar produz isolamento. Viver cercado de narrativas que colocam sexo como ápice da experiência humana faz muitas pessoas ace acreditarem, por anos, que há algo de errado consigo mesmas.
Não há.
Assexualidade não é ausência de humanidade. Não é doença. Não é trauma obrigatório. Não é pureza moral. Não é superioridade.
É apenas outra forma possível de existir.
E talvez seja exatamente isso que mais assuste: a possibilidade de que seres humanos possam construir felicidade, intimidade, afeto e sentido fora das regras que a sociedade vende como universais.
Talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido pessoas assexuais.
Talvez o problema seja uma sociedade tão obcecada por sexo que desaprendeu outras formas de conexão humana.
메타데이터
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