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O que significa ser ativista quando ninguém está olhando: a força das vozes que não gritam

Há perguntas que parecem relativamente simples até o momento em que tentamos respondê‑las. “Você é ativista?” é uma delas. Sempre que…

Luiz Valério P. Trindade · 2026-05-25 05:01 · 0 claps · 4.9 min read
#ativismo #activism #intersectionality #knowledge #critical-race-theory
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O que significa ser ativista quando ninguém está olhando: a força das vozes que não gritam

© Pexels, Weekendplayer

© Pexels, Weekendplayer

Há perguntas que parecem relativamente simples até o momento em que tentamos respondê‑las. “Você é ativista?” é uma delas. Sempre que alguém me faz essa pergunta, sinto que a resposta não cabe num simples “sim” ou “não”. Não porque eu rejeite a ideia de lutar por justiça social, mas porque a imagem que costuma acompanhar a palavra “ativista” não corresponde exatamente ao modo como eu enxergo a minha contribuição nessa área.

Noto que, frequentemente, no imaginário coletivo, ativismo é sinônimo de presença física, tais como marchas, megafones, faixas erguidas, discursos inflamados, hashtags que viralizam, etc. É o ativismo que ocupa ruas, praças e manchetes. Naturalmente, ele é vital e seria impossível imaginar qualquer avanço social significativo sem essa energia coletiva que empurra a história para frente.

Basta lembrar, por exemplo, do boicote aos ônibus em Montgomery, em 1955, quando a recusa da senhora Rosa Parks em ceder seu lugar a um homem branco desencadeou uma mobilização massiva que durou mais de um ano e se tornou um dos episódios mais emblemáticos da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Ou, no contexto brasileiro, da Marcha das Mulheres Negras de 2015, que reuniu entre 50 mil e 100 mil mulheres em Brasília em um protesto pacífico e histórico contra o racismo, a violência de gênero e a desigualdade. Esses momentos mostram a força transformadora do ativismo público, coletivo e visível.

Mas existe um outro tipo de ativismo, menos visível e, por isso mesmo, frequentemente subestimado. É o ativismo que acontece nos bastidores, na pesquisa empírica, na escrita, na análise crítica, na reconstrução histórica e na reflexão interdisciplinar. É o trabalho que não aparece nas fotos das manifestações, mas que sustenta, conceitualmente, as pautas que chegam às ruas.

Esse ativismo silencioso opera em outra temporalidade. Ele não mobiliza multidões de imediato. Ele não viraliza nas redes sociais. Ele não rende manchetes ou hashtags. Mas ele fornece as bases que permitem que o ativismo público seja mais preciso, mais profundo e mais estratégico. Sem pesquisa, sem análises, sem reflexão, corremos o risco de lutar contra sintomas enquanto as causas permanecem intactas.

Neste sentido, a escritora Audre Lorde dizia que “a transformação do silêncio em linguagem e ação é um ato de revelação”. O que sua obra mostra, porém, é que essa transformação nem sempre acontece diante de plateias. Muitas vezes, ela nasce no silêncio da leitura, no rigor da análise, na coragem de nomear estruturas que preferem permanecer invisíveis.

Angela Davis, frequentemente lembrada por sua presença pública, sempre insistiu que estudar é uma forma de resistência. Para ela, teoria e prática não são esferas separadas, mas dimensões que se alimentam mutuamente. Inclusive, não por acaso, antes de ser um ícone global, Davis foi, e continua sendo, uma intelectual rigorosa e respeitada, cuja produção teórica moldou movimentos inteiros.

Além delas, Lélia Gonzalez, no Brasil, é outro exemplo emblemático. Seu ativismo não se expressava apenas em discursos, mas sobretudo na formulação de conceitos que até hoje estruturam o pensamento racial brasileiro e internacional, como a interseccionalidade. Sua obra influenciou gerações de militantes, muitas vezes sem que seu nome fosse sequer lembrado nas ruas. Mas a sua contribuição estava lá, mesmo que silenciosa e nas entrelinhas.

bell hooks, por sua vez, defendia que a teoria crítica é uma ferramenta de libertação. Tanto é verdade que, em seu livro Teaching to Transgress, ela afirma que o pensamento crítico é, em si, um ato político e, para ela, escrever, ensinar e refletir são formas de intervir no mundo e não meros exercícios acadêmicos.

Assim como hooks, a filósofa brasileira Djamila Ribeiro também exemplifica essa articulação entre pensamento crítico e ação política. Amplamente reconhecida como ativista no Brasil e no exterior, Djamila construiu uma trajetória que transita com fluidez entre o espaço público e o intelectual.

Seus livros se tornaram best-sellers, sua coluna na Folha de S. Paulo alcança milhares de leitores, e sua experiência como professora visitante na NYU (New York University) e no MIT (Massachusetts Institute of Technology) reforçam a legitimidade internacional de sua produção teórica. Inclusive, ela mesma afirmou que não aceita mais ser tratada como objeto de pesquisa, mas sim como sujeito, o que significa uma declaração que sintetiza a agência intelectual negra e a recusa em ocupar posições subalternizadas no debate público.

Assim sendo, Djamila demonstra, de forma contundente, que o ativismo pode se manifestar tanto nas ruas quanto nas bibliotecas, tanto nos protestos quanto nas salas de aula, e que a produção de conhecimento é, em si, uma forma de intervenção política.

Consequentemente, esses e tantos outros nomes mostram que o ativismo silencioso não é menor, nem mais elitista e nem mais “refinado”. Ele é apenas diferente. Ele opera em outra profundidade, em outro ritmo, em outra lógica. Ele não disputa o espaço do ativismo público; ele o sustenta.

Mas há uma camada adicional e incontornável quando falamos de ativismo silencioso no Brasil que consiste na racialização da produção de conhecimento.

Isso porque diversas análises mostram que, na mídia brasileira, a voz autorizada a interpretar o mundo é majoritariamente branca e masculina. A opinião branca é tratada como universal; a análise branca é vista como neutra; a reflexão branca é automaticamente legitimada. Não se trata de acaso, mas de herança histórica, pois ao longo de séculos, o país definiu quem podia pensar, quem podia ensinar, quem podia escrever e quem podia ser reconhecido como produtor de conhecimento.

Nesse contexto, quando uma pessoa negra produz reflexão crítica, ela não está apenas escrevendo. Ela está rompendo uma barreira histórica. Está disputando um território que tradicionalmente lhe foi negado. Está afirmando que sua experiência, sua leitura do mundo e sua capacidade analítica têm valor, mesmo quando a estrutura insiste em sugerir o contrário.

Por isso, o ativismo silencioso negro não é apenas uma escolha pessoal ou uma preferência de estilo. Ele é, inevitavelmente, um ato político. Ele desafia a lógica que define quem pode ser ouvido. Ele tensiona a hierarquia racial que organiza o debate público. Ele amplia o repertório de vozes que interpretam o país. Ele produz fissuras num sistema que, por muito tempo, tentou restringir a produção de conhecimento a um único grupo social.

É nesse território que me reconheço. Não sou a pessoa que sobe no carro de som. Não porque considere esse papel menor, mas porque não corresponde ao meu modo de fazer-me ouvir. Minha contribuição se dá de outra forma: analisando, escrevendo, conectando pontos, identificando fissuras no tecido social e propondo caminhos possíveis. E, ao fazer isso, sei que não estou apenas refletindo, mas estou ocupando um espaço que, historicamente, não foi construído para mim.

Quando me perguntam se sou ativista, hoje respondo que sim, mas talvez não do jeito que esperam. Sou ativista porque acredito que produzir conhecimento é uma forma de intervir no mundo. Sou ativista porque entendo que ideias têm consequências. Sou ativista porque sei que, sem bases sólidas, nenhuma mobilização se sustenta.

E, sobretudo, sou ativista porque, em um país onde a voz branca é automaticamente legitimada, a produção intelectual negra é um gesto de afirmação, resistência e ruptura. Ela não apenas ilumina injustiças; ela desafia a própria estrutura que define quem pode nomeá‑las.

Nem todo ativismo precisa de megafone. Às vezes, ele precisa de silêncio, rigor e persistência, especialmente quando esse silêncio ecoa de um corpo que, por séculos, foi impedido de falar.


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