← Back to list

Colo materno.

Chego em São Paulo, no olho do caos, o corpo sentindo o peso do calor do concreto infindável, a fuligem invadindo cada poro, obstruindo até…

Luciana Lubiana · 2025-10-31 14:24 · 0 claps · 2.2 min read
#colo-de-mãe #colo #aconchego #segurança #mãe
Open on Medium ↗

Colo materno.

Acervo pessoal.

Acervo pessoal.

Chego em São Paulo, no olho do caos, o corpo sentindo o peso do calor do concreto infindável, a fuligem invadindo cada poro, obstruindo até os sentidos e, já no táxi, me sinto drenada. Também posso culpar as longas horas anteriores, entre acordar, chegar ao aeroporto, fila para PDI, fila para esteira, fila para ser roubada num café com pão duvidoso, fila para entrar na fila do finger, fila para achar meu assento, fila para usar o cubículo do avião, que me recuso a chamar banheiro, fila para sair do avião, fila para todo o labirinto de novo. Pode ser isso também, que me causa esse esgotamento inicial ao pisar na imensa São Paulo, penso, enquanto noto que a obra da avenida Santo Amaro finalmente terminou e as árvores, prometidas no projeto, não estão lá.

Chego na casa de mainha, o corpo percebe. Parece saber que a vibe mudou.

Não quero iludir vocês, minha mãe é porreta, vive sozinha e aproveita cada milésimo de segundo na companhia de alguém para falar o máximo possível, do máximo de assuntos que conseguir. Não reclamo, que bom que tenho mainha.

Meu corpo sente e, como uma chaleira que acaba de ser retirada do fogo e tem seu chiado abrandado aos poucos, assim percebo meus sentidos, se acalmando devagarzinho — talvez à exceção da audição, que demora a se livrar do tamponamento causado pela altitude do avião e pela verborragia de minha mãe.

Então, ela me mostra com orgulho a carne moída na panela, o jiló, feijão rajadinho e uma bacia de arroz branco. Me conta, cheia de razão, sobre seus esforços em preparar tudo para minha chegada. Pega, um a um, os pacotes de biscoito (que não como há anos, mas finjo ainda gostar), do macarrão, da tapioca e da lata de atum; vira meticulosamente cada um, buscando a data de validade, para que eu veja seu esmero em trazer os melhores produtos, afinal, “esse pessoal tem enganado a gente filha, até validade das comidas eles trocam pra vender coisa que não presta, mas eu fico de olho, pode confiar”, ela me diz, ainda mais orgulhosa.

Eu sorrio, estou esgotada, mas certa de que a recompensa está por vir. Em sua peregrinação de zelosa anfitriã, me mostra o banheiro ordenado, com pasta de dente nova e toalhas cheirosas; a samambaia, que a presenteei no ano anterior, resiste, ornamentando a bancada da pia. De relance, já avisto o quarto e anseio que seja o último cômodo do tour. E é. Mainha se endireita, está com mais dores da artrose hoje, dá uns gemidos usuais e, finalmente, me anuncia a estrela da noite: sua cama padrão de casal, com colchão mais firme; ela prefere assim, “é melhor pras dores”, me diz sempre, com lençóis e travesseiros passados sem único vinco, uma mesa lateral com abajur e um ventilador rodando fraco.

O corpo acalma, por fim. Chego a arquear os ombros e me entrego, me jogo nesse oásis materno, com cheiro de mãe. É tranquilo, pacífico. É bom. Tem algo de muito sereno em colo, quis dizer, cama de mãe.

Luciana Lubiana Escrevo a partir do que permanece.


메타데이터
post_id
754791c99c6e
slug
colo-materno-754791c99c6e
url
https://medium.com/@lulubiana/colo-materno-754791c99c6e
canonical_url
https://medium.com/@lulubiana/colo-materno-754791c99c6e
author_url
https://medium.com/@lulubiana
status
ok
fetched_at
2026-07-15 23:06:13