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10 Melhores Álbuns 2022

Raul Gonçalves Roque · 2021-12-09 04:06 · 2 claps · 5.6 min read
#big-thief #kendrick-lamar #black-thought #sault #cate-le-bon
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10 Melhores Álbuns 2022

10 álbuns favoritos de 2022

10 álbuns favoritos de 2022

  1. “Heartmind” — Cass McCombs (Anti-)

Minha aventura pelo oasis do gênero Americana começou mais fortemente nos últimos anos, quando passei a escutar New Pornographers, Destroyer e Mountain Goats. Desse período surgiram dois dos meus artistas favoritos atualmente: Bill Callahan e Cass McCombs. Esse ano McCombs fez um álbum mais retraído, ainda acometido pela pandemia e seus traumas. “Unproud Warrior,” um dos destaques, é sobre um guerreiro que cumpre suas obrigações, sem acreditar no seu ideal, causando um conflito entre força e mente que eventualmente se torna insustentável. Em “Karaoke” ele questiona se seu amor se tornou “algum tipo de pantomima,” repetindo ações e sentimentos sem um real significado. Em uma das minhas favoritas, “A Blue, Blue Band” retrata todo sentimento agridoce de uma banda miserável e sem rumo, roteando ao desconhecido. Moribundo, mas ao mesmo tempo fascinado.

  1. “And In The Darkness, Hearts Aglow” — Weyes Blood (Sub Pop)

Weyes Blood tem se tornado um dos projetos mais interessantes das últimas décadas, mais imersivo que Lana Del Rey e mais expansivo que Angel Olsen, duas outras brilhantes compositoras da sua geração. Mas meu interesse por Natalie Mering, a vocalista por trás do ato, se deu pelo apelo onírico que suas canções transmitem. Em “It’s Not Just Me, It’s Everybody” ela pondera sobre as mutações que todos nós estamos sujeitos aos avanços tecnológicos, se tornando fatalmente irreconhecíveis a nós mesmos. “Oh Deus, me transforme em uma flor” ela suplica na narcisista “God Turn Me Into a Flower” diante de uma geração cada vez mais centrada em si mesmo. “The Worst is Done” pergunta se de fato o pior tenha passado como todos sugerem e, com um pouco de sátira, diz que chegou a hora de manifestar o que aprendemos passada a tempestade.

  1. “MATA” — M.I.A. (Island)

Mathangi Arulpragasam, a mulher por trás da M.I.A., vem expressando insistentemente na internet opiniões bastante controversas sobre os últimos acontecimentos. Seu Twitter tem sido um portal para conteúdos anti-vacina, difundindo mensagens cada vez mais céticas à civilização contemporânea. Por reverberar ideias no mínimo questionáveis e por fim perigosas, ela tem sido cancelada. Poderia aqui também ignorar seu último álbum de estúdio, que é minimamente bom (como boa parte da sua discografia) para ser notado. Em “Popular” ela condena a grande onda de influencers ávidos em atrair todos os tipos de atenções para si, a qualquer momento. Na irônica “Beep,” ela brada sobre liberdade com o bordão de “você pode ser quem você quiser.” “Marigold” sintetiza todo caos que M.I.A. hoje se transformou nas redes sociais, reconhecendo que “precisamos de um milagre” diante do colapso mundial.

  1. “Waterslide, Diving Board, Ladder to the Sky” — Porridge Radio (Secretly Canadian)

Em um dos álbuns mais viscerais do ano, Dana Margolin, vocalista do Porridge Radio, esbraveja toda a sua inquietação em “Back to the Radio,” sem saber como lidar acerca de toda expectativa que se criou em torno da banda sensação britânica. “Eu não quero ser amada,” ela repete como um mantra em “Birthday Party,” com profunda aversão aos que a cercam nessa data especial. Há uma latente “síndrome do impostor” em boa parte das composições de Dana, que é expurgada a cada grito ou riff de guitarra, numa tentativa de botar pra fora e finalmente confrontar todos os seus medos. Em um dos recortes dessa catarse, seu coração dói enquanto ela joga tudo para o ar em “The Rip.” Dolorido e libertador.

  1. “Weather Alive” — Beth Orton (Partisan)

“Weather Alive” é pra mim um dos álbuns mais bonitos e gostosos de se escutar desse ano, refletindo a maturidade de quase 20 anos de carreira da inglesa Beth Orton. Na esotérica “Forever Young,” ela enaltece a juventude do seu amor atravessando os percalços do tempo, até que na ode à solitude “Lonely” suspira que a “solidão gosta da sua companhia.” “E lá na raiz da árvore, espere por mim,” ela se emociona ao observar “como o tempo está tão bonito lá fora” na faixa homônima “Weather Alive,” depois de um ano de incertezas, privações e perdas. Introspectivo, o disco transcorre leve e calmo como o desaguar de um riacho, distante da confusão sonora dos centros urbanos.

  1. “Pompeii” — Cate Le Bon (Mexican Summer)

Pompeia é uma cidade italiana que ficou famosa após ter sido brutalmente destruída por uma erupção vulcânica durante o período romano. O local por muitos anos ficou abandonado até os vestígios da catástrofe terem sido redescobertos — construções e até mesmo corpos das vítimas foram preservados pelas cinzas e lamas. “Cidades construídas sob fúria monumental,” Cate reflete na faixa homônima “Pompeii,” perplexa em como a tragédia de outrora se transforma em cidade turística no futuro. Enquanto “Running Away” indaga o perfeccionismo do “amor verdadeiro,” “Remembering Me” critica a mitificação do ser humano, que tende a esquecer que as decepções fazem parte também do sucesso.

  1. “Air” — SAULT (Forever Living Originals)

O projeto coletivo SAULT encabeçado pelo produtor inglês Inflo tem sido bastante cultado pela imprensa britânica, mas dos últimos álbuns lançados confesso que escutei do início ao fim apenas “Air.” Repleto por orquestrações e coros, é possivelmente o instante mais brando da extensa coleção do grupo. Esse me cativou em especial por representar uma voz universal de arejamento pós-pandemia. Após a sinfônica “Solar” trazer luz à escuridão, os versos de “Time is Precious” definem nossa noção de tempo: “Não perca tempo, porque o tempo é precioso / É o único tempo que você tem aqui / A vida sempre trará suas pressões / Use isso inteligentemente e mantenha esses tesouros.”

  1. “Cheat Codes” — Danger Mouse / Black Thought (BMG)

Ao mesmo tempo que Trump celebrava sua vitória como 45º presidente norte-americano em 2016, uma das maiores bandas de hip-hop, The Roots, começava um dos seus maiores hiatus. Embora Black Thought e Questlove tenham caminhado com projetos paralelos, a aguardada parceria entre o produtor Danger Mouse e Thought saiu só esse ano. Mordaz como sempre, na parceria póstuma com MF DOOM “Belize,” Thought recusa se manter absorto diante da avalanche de desinformação, indo da “água fria para a febre” e “da Terceira Guerra Mundial para o tratado de Geneva” em “Aquamarine.” Em “Violas and Lupitas” ele traça um paralelo entre passado e presente, simbolizando Viola Davis e Lupita Nyong’o como duas forças de superação.

  1. “Mr. Morale & the Big Steppers” — Kendrick Lamar (Interscope)

Figurinha carimbada nas listas de melhores do ano, Lamar foi o primeiro rapper a vencer o grandioso prêmio Pulitzer em 2018 com o álbum “DAMN.” Na sequência, “Mr. Morale & the Big Steppers,” ele conta histórias mais íntimas e fragilizadas ao exprimir traumas que assombram sua vida. Em “Die Hard,” mostra a dificuldade que tem para se abrir num relacionamento, para em “Father Time” sua masculinidade tóxica resistir à terapia. Essa mistura explosiva sucumbe na ultrajante “We Cry Together,” onde Kendrick e Taylour Paige encenam uma alucinada discussão entre um casal, cujo sexo serve como “solução” quando já estão fartos de se mutilarem. Há espaço para a homofobia em “Auntie Diaries” e sua dependência química em “Mother I Sober,” ambos reconhecimentos legítimos dos seus preconceitos e vícios, expostos para quem quiser escutar. Como um dos maiores poetas da nossa geração, Lamar desenha um quadro, em termos gerais, não só do agravado estado da saúde mental que a sociedade norte-americana enfrenta, mas de nós como um todo.

  1. “Dragon New Warm Mountain I Believe in You” — Big Thief (4AD)

“Mude como o vento / Como a água, como a pele / Mude como o céu / Como as folhas, como uma borboleta,” Adrianne Lenker, vocalista da banda norte-americana Big Thief, reflete sobre mudanças em “Change,” a faixa de abertura de “Dragon New Warm Mountain I Believe in You.” “Você viveria para sempre, sem morrer / Enquanto tudo o que está ao seu redor se vai / Você sorriria para sempre, sem chorar / Enquanto tudo o que você conhece tem um fim,” ela justifica no refrão renegando a imortalidade e reconhecendo a finitude como um processo natural de existência. Num mundo cada vez mais obcecado pela beleza e felicidade, etapas consideradas fundamentais do ser humano como envelhecimento e frustração estão gradualmente sendo coibidas por meio dos mais variados artifícios e ferramentas. “Minha certeza é selvagem,” ela admite em “Certainty,” insistindo para ser acordada, mesmo se estiver cansada, para acompanhar a viagem em “Wake Me Up to Drive.” Jornada essa que não importa para onde ou quando, sem destino ou propósito definido. Lenker abraça o desconhecido, colhendo os frutos que sem querer encontra pelo caminho, na esperança de construir laços e amor por quem e onde passa.

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