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Alguns Direitos e Deveres de um Thelemita I

Se realizar sua Vontade é um direito, este é condicional. Ensaio construído à partir de Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus e Liber Librae

Victor Vieira · 2026-07-06 21:12 · 0 claps · 23.3 min read
#thelema #aleister-crowley #religion #magick
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Alguns Direitos e Deveres de um Thelemita I

Se realizar sua Vontade é um direito, este é condicional. Ensaio construído à partir de Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus e Liber Librae

“Viver é perigoso” Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa

Sobre a frase acima, concluo antes de iniciar este ensaio que para viver alinhados à nossa natureza divina, algum risco é necessário correr. Agora seguimos…

Este ensaio nasce como uma tentativa de lembrar ou informar aos leigos, incautos e negligentes, que o presente da boa nova de 1904, a Lei de Thelema, que nos diz de certa forma que “fazer o que quisermos deverá ser a Lei” é um direito condicional que demanda a conduta apropriada para sua manifestação, pois a realização da Verdadeira Vontade que muitos buscam como um “Santo Graal” em Thelema e através dela, é Sophrosyne perante o Uno, consequência da harmonia entre o Adepto e sua Natureza Divina. Caso contrário, as consequências da tentativa de viver esta Lei sem a conduta e o preparo devidos, culmina em Hubris, um desajuste entre o Adepto e sua Natureza Divina, que por ser perfeita, não deve sofrer excessos nem faltas, mas justa medida no Devir.

Muitos se perguntam ao ter contato com Thelema, “como posso realizar minha Verdadeira Vontade?”, e o caminho apesar de complexo, está disposto em muitas obras Thelêmicas, principalmente os Livros de Classe A (mas não só), que tem por definição no The Equinox Vol. I N° 10:

A classe “A” consiste de livros dos quais não se pode mudar nem sequer o estilo de uma letra: ou seja, eles representam o enunciado de um Adepto completamente além da crítica até mesmo do Chefe Visível da Organização (Neste caso a Astrum Argentum, mas podemos incluir qualquer outra organização dita Thelêmica).

Com base em meu reconhecimento do caminho para a realização da Verdadeira Vontade através de considerações, práticas e exposições vívidas aos argumentos destes livros, escolho argumentar neste texto à partir do Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus e Liber Librae.

Abaixo e antes de discorrer meus argumentos, explicarei o que propõe cada um dos 2 livros mencionados acima.

Um pequeno comentário

É possível que uma pessoa conhecedora dos textos Thelêmicos sinta falta da menção ao texto “Dever” de Mestre Therion (Aleister Crowley) e Frater Achad (Charles Robert Stansfeld Jones) ou acredite que este texto que escrevo seja complementar ou inclinado ao “Dever”, mas afirmo que não tenho o menor interesse ou intenção de acoplar este trabalho à obra mencionada. A motivação que carrego comigo é trazer meu ponto e comentar sobre os textos citados, e não comentar comentários.

O maior respeito que eu poderia ter para com meus anteriores é ser honesto.

O que é o Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus

O Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus (ou Livro 90) é um dos Livros Sagrados de Thelema de Aleister Crowley, classificado como um texto de “Classe A”, o que significa que é considerado uma obra de inspiração divina e imutável. Trata-se de um documento profundamente poético e místico que atua como um guia para a Iniciação espiritual, cujo título faz referência ao “Anzol Hermético”, uma metáfora para fisgar e despertar as almas daqueles que estão prontos para o caminho esotérico. O livro também consolida uma das mudanças cabalísticas mais famosas no Tarot baseada na máxima de que “Tzaddi não é a Estrela”, associando essa letra hebraica à carta do Imperador.

Escrito sob a perspectiva de uma inteligência superior, a mensagem central do texto rompe com as visões religiosas tradicionais ao pregar a superação do sofrimento por meio do prazer, rejeitando a culpa e exaltando a força individual. Ele exorta os buscadores a não se curvarem à escravidão moral e apresenta o mistério dos “Dois Casamentos”, ensinando que o verdadeiro mestre não deve escolher entre o abismo espiritual e o abismo material, mas sim dominar e unir ambos. Em suma, o Liber Tzaddi funciona como um chamado esotérico para que o indivíduo transcenda as ilusões mundanas e alcance a iluminação integrando perfeitamente a carne e o espírito.

O que é o Liber Librae

O Liber Librae (ou Livro 30, também conhecido como O Livro da Balança) é um dos primeiros textos instrutivos da Ordo Templi Orientis (OTO) e da A∴A∴, as ordens ocultistas lideradas por Aleister Crowley. O título vem do latim e faz referência direta à constelação ou ao signo de Libra (a Balança), simbolizando o tema central da obra: o equilíbrio.

Diferente de outros textos de Crowley que são puramente “canalizados” ou poéticos, o Liber Librae é um manual prático e ético de conduta para o iniciante no ocultismo. Ele reúne uma série de aforismos e conselhos focados no autodomínio, ensinando que ninguém pode controlar as forças da natureza ou do universo se não for capaz de controlar a si mesmo primeiro. É uma espécie de código de honra que exige do estudante o cultivo de virtudes como a moderação, a justiça, a coragem e a ausência de preconceitos.

O ponto alto do texto é a instrução para que o magista aprenda a equilibrar os opostos dentro da própria mente. Crowley afirma que o estudante deve olhar para todas as coisas do mundo, a dor e o prazer, a riqueza e a pobreza, o amor e o ódio, com o mesmo distanciamento, para não se tornar escravo de nenhuma delas. Em resumo, o Liber Librae define que a base indispensável para qualquer avanço espiritual ou mágico não é o poder, mas sim uma mente perfeitamente equilibrada e firme.

Sobre as condições atreladas ao direito de Thelema em Thelema

É de fundamental a importância de deixar claro que os comentários abaixo somente tem validade e serventia para os que verdadeiramente desejam estar alinhados com sua Natureza Divina, expressando sua Verdadeira Vontade para contemplar a Grande Obra, estando ou não num estado de autodeclaração com Thelemita. Digo isto pois a partir de 1904, quando Hórus se assentou em Seu trono no Leste, todo ser vivo, Thelemita ou não (dentro da perspectiva Thelêmica) está sob o véu e sob a Lei do Aeon anunciado através do Liber AL vel Legis, que é a Lei de Thelema.

  • Lei esta que é para Todos: Liber AL vel Legis, I-34
  • Lei esta que é do forte e a alegria do mundo: Liber AL vel Legis, II-21
  • Lei esta que é da Conquista: Liber AL vel Legis, III-9
  • Lei esta que é “Faze o que tu queres”: Liber AL vel Legis, III-60

As condições atreladas ao direito de Thelema em Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus

Podemos dividir à principio este livro em 6 seções, dos versículos 0 ao 14 temos o que podemos chamar de “Aproximação do Senhor da Iniciação”, que é nosso Daemon, ou o Daemon Iniciador de Heru-Ra-Ha, ou chamaremos de Sagrado Anjo Guardião. Do versículo 15 ao 21 conhecemos a natureza deste Daemon, do versículo 22 ao 27 temos as tarefas a serem cumpridas pelos que buscam viver a Iniciação, do 28 ao 32 as recompensas dos cumpridores das tarefas, dos 33 ao 41 um conselho sobre o processo iniciatório em relação as duas faces do abismo e do versículo 42 ao 44 a promessa dos adeptos que foram consistentes em sua busca.

Aqui fixaremos nossa percepção em duas seções, dos versículos 22 ao 27 onde está a responsabilidade do adepto, e dos versículos 28 ao 32 onde encontramos o privilégio atribuído à Lei de Thelema aos responsáveis dignificados por suas tarefas cumpridas.

Recomenda-se ter o texto citado disponível para a consulta e acompanhamento.

Sobre as condições em Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus

22. Há alegria na partida; há alegria na jornada; há alegria no objetivo.

Neste versículo o adepto tem a informação de que é importante que seja notada a ALEGRIA, seja na partida enquanto primeiro passo de suas tomadas de decisão, quanto na partida enquanto saída ou despedida. Assim como a busca pela alegria no processo e em sua motivação.

Para comentar este trecho, usando Liber AL vel Legis, percebemos que a ALEGRIA é:

  1. A Alegria de Nuit (Liber AL vel Legis, I:13)
  2. A dissolução da individualidade através da transcendência em direção ao Uno, podendo usar o termo Samadhi que é muito usado por Aleister Crowley em Liber ABA (Liber AL vel Legis, I:30)
  3. Resultado da obediência aos preceitos dos livros de Classe A de Aleister Crowley (Liber AL vel Legis, I:32)
  4. A contemplação da própria existência e da existência de tudo o que existe (Liber AL vel Legis, II:9)
  5. Compreensão de Thelema como a lei do forte (Liber AL vel Legis, II:21)
  6. A percepção dos rastros deixados pela ação de nosso Sagrado Anjo Guardião (Daemon) (Liber AL vel Legis, II:26)
  7. Ser forte (Liber AL vel Legis, II:70)

23. Somente se vós estiverdes tristes, ou cansados, ou zangados, ou desconfortados; então vós sabereis que perdestes o fio de ouro, o fio com que vos conduzo ao coração dos bosques de Elêusis.

Aqui encontramos o dever de nos atentar às sensações adversas e como elas nos impactam para que não permitamos que estas sensações se criem em nós como verdades maiores que a verdade da Grande Obra, pois sendo nossos sentimentos maiores que nossa busca pelo alinhamento com nossas Naturezas Divinas, se rompe a capacidade de ouvir e notar os rastros de nosso Sagrado Anjo Guardião que é nosso guia no caminho do Trono do Senhor desta Era.

24. Meus discípulos são orgulhosos e belos; eles são fortes e rápidos; eles governam seus caminhos como poderosos conquistadores.

Há o dever de ser orgulhoso, e não devemos confundir com emoções vãs, orgulho em seu real sentido é a emoção gerada pela satisfação, alegria e/ou grande admiração por uma conquista, conquista essa que é a retidão de buscar e fazer o que for preciso para estar alinhado a sua Natureza Divina. Em seguida, vemos a beleza como um dever e é importante dizer que a beleza mencionada está relacionada ao significado da esfera de Tipheret, também chamada “Beleza”, onde a beleza da criação divina é notada na percepção integral da criação, portanto, temos o dever de buscar meios de notar a integralidade da criação através de nós mesmos. Trazendo a força e a rapidez enquanto dever, devemos lembrar não somente que Thelema é a Lei do forte, como diz o Liber AL vel Legis, capítulo 2, versículo 21, mas também devemos entender que força aqui mencionada é sobre a esfera de Geburah na Kabbalah Hermética, e Dion Fortune em seu livro A Cabala Mística, alude este dever através de uma figura de linguagem que deixa claro como devemos agir através da força enquanto Thelemitas:

“Um rei em seu carro que marcha para a guerra, cujo poderoso braço direito protege seu povo com a espada da LEGALIDADE e assegura que a justiça será feita”. A Cabala Mística, capítulo XIX, parte I

25. Os fracos, os tímidos, os imperfeitos, os covardes, os pobres, os chorosos — estes são meus inimigos, e Eu sou vindo para destruí-los.

26. Isso também é compaixão: um fim para a doença da terra. Uma erradicação das ervas daninhas: uma irrigação das flores.

27. Ó meus filhos, vós sois mais belos do que as flores: vós não deveis murchar em vossa estação.

Este versículo aponta a necessidade de uma dignidade e honra no comportamento do adepto, pois como diz no Liber AL vel Legis, capítulo II, versículos 17 e 18:

  1. Ouvi, vós que suspirais! As dores de pena infinita Queda aos mortos e mortais, Quem me não conhece ainda.
  1. Estes são mortos, esta gente; eles não sentem. Nós não somos para os pobres e tristes: os senhores da terra são nossos parentes.

Quando me refiro a necessidade de se comportar com honra, é sobre entender que fraqueza, timidez, imperfeição, covardia, pobreza e choro somente nos afastam do nosso caminho quando compreendidos como definidores de nós. Pois quando compreendemos que estes atribuídos são ilusões que quando compensadas proporcionalmente e adequadas aos seus momentos de expressão, se tornam catalizadores de transformação. Aqui também deixo claro de que não há qualquer romantismo alienador como se eu buscasse manter o leitor nestes estados, mas sendo estes atributos parte da impermanência, eles não fazem parte do Uno, que é permanente em essência, portanto, apontam para nossas partes a serem tratadas, não para nossa paralisação. Portanto, manter-se alimentando estes atributos a impassibilidade que te murchará em teu momento mais propício de florescer.

Sobre os direitos em Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus

28. Eu vos amo; Eu vos aspergiria com o orvalho divino da imortalidade.

Aqui, nosso daemon nos afirma que mediante o cumprimento dos deveres acima, ele fará um ato semelhante ao ato de “batizar”, nos banhando com a imortalidade, que em Thelema, está associada a viver através de nossa Natureza Divina, que é a parte de nós que nos une ao Uno. Em Thelema a propriedade da imortalidade está naquilo que é permanente e a permanência está e é (mas não somente) o Uno, e se entendemos que tudo emana do Uno, a imortalidade é uma luz que jorra de seu principio em nós como consequência do movimento de retorno ao Uno.

Me sinto na obrigação, porém envergonhado, de não subestimar as capacidades interpretativas de um leitor ou outro e ter que deixar claro de que a imortalidade aqui proposta é a imortalidade de nossa Natureza Divina, não de nosso corpo físico.

29. Essa imortalidade não é uma esperança vã além do túmulo: Eu vos ofereço a consciência certa da bem-aventurança.

30. Eu a ofereço imediatamente, sobre a terra; antes que uma hora tenha tocado no sino, vós estareis Comigo nas Moradas que estão além da Decadência.

Indo além, aqui se demonstra que a imortalidade é o nome que damos ao direito adquirido sobre a consciência do porvir através do devir, pois uma vez alinhados à Natureza do Uno através de nossa Natureza Divina, obtemos o conhecimento do mecanismo do Ser, e entendendo o mecanismo, entendemos os ciclos, as marés e as fluências do Uno, e entendendo as fluências do Uno entendemos o caminho permanente de nossa Natureza Divina que não se encerra no encerramento de nossos corpos.

Pensemos também que morte é defeito da decadência e esta somente não nos alcança quando por efeito da imortalidade, ambientalmente deslocamos nossa consciência dos planos comuns e elevamo-la à Consciência do Uno.

31. Eu também vos dou poder terreno e alegria terrena; riqueza, e saúde, e longevidade. Adoração e amor se agarrarão aos vossos pés, e se entrelaçarão ao redor de vosso coração.

32. Somente vossas bocas beberão de um delicioso vinho — o vinho de Iacchus; elas devem alcançar sempre o beijo celestial do Belo Deus.

33. Eu revelo a vós um grande mistério. Vós estais entre o abismo da altura e o abismo da profundidade.

Define-se aqui que alegria é composta por riqueza, saúde e longevidade e que adoração e amor farão parte do seu caminho e estarão intrinsicamente ligados à sua vida terra como consequência de seu alinhamento com a Natureza Divina, porém, é importante deixar aqui o postulado que Aleister Crowley nos deixou em Liber ABA, parte III, capítulo II:

QUALQUER mudança que se queira, pode ser conseguida com a aplicação da Força do tipo e graus próprios, de maneira apropriada, através de meio adequado ao objeto desejado.

Unindo o versículo explorado ao postulado acima, entendemos que nos é dado o acesso à consciência adequada ao Uno (que revela O Grande Mistério), para analisar nossos atos e conquistar aquilo que nos perdure, desde que alinhados à nossa Natureza Divina.

As condições atreladas ao direito de Thelema em Liber Librae

Neste texto, diferente do acima, identificaremos à cada versículo os deveres a serem cumpridos para alcançar o estado de dignidade através do alinhamento com a Natureza Divina, também e principalmente chamada de expressão da Verdadeira Vontade para assim, participar dA Grande Obra.

E mais uma vez advirto, apesar de descrito, e apesar de talvez simples, será fácil, pois a natureza do ambiente daquilo que está distante de sua natureza divina tende à ser vil, e da distancia surge o conflito, pois somente o Amor é capaz de unir aquilo que está separado. Somente a união encerra o conflito.

Recomenda-se ter o texto citado disponível para a consulta e acompanhamento.

0. Aprende primeiro — Ó tu que aspiras à nossa antiga Ordem! — que Equilíbrio é a base do Trabalho. Se tu mesmo não tens um alicerce firme, sobre o que tu ficarás para dirigir as forças da Natureza?

Buscar o entendimento da proporcionalidade devida por trás de cada ato, fazendo o devido necessário para concluir o que se propõe é fundamental, nem mais, nem menos. Seja o que for, aquilo que buscamos realizar independente do que for, para acontecer, precisa que levemos em consideração as condições ambientais, materiais, intelectuais e espirituais. Fazer a mais, ou a menos, incorre desajuste com a Natureza daquilo que buscamos, e isso inclui o que nós thelemitas buscamos pelo nome de “Realização da Verdadeira Vontade” ou até mesmo o “Conhecimento e a Conversação com o Sagrado Anjo Guardião.

Tornar parte de si este entendimento nos permite e permitirá executar seja o que for tomado como compromisso por cada adepto.

1. Então saiba que já que o homem nasce neste mundo em meio à Escuridão da Matéria e à disputa de forças conflitantes; portanto, seu primeiro esforço deve ser o de buscar a Luz através de sua reconciliação.

O dever do adepto é conciliar primeiro sua constituição Material à Constituição Espiritual, buscando sentir seu Espírito e usando como referencia suas sensações físicas. Note que sempre que mencionamos sensações espirituais, usamos um vocabulário que parte de nossa memória física. Depois, o adepto deve através de sua sensação espiritual, usar tanto sua percepção física quanto espiritual, qual a direção que a bússola de seu espirito aponta e seguir, e assim, através da conciliação entre Matéria e Espírito, e da perseverança entre levar sua escuridão na direção da luz, até que somente haja Luz.

O nascimento na Matéria representa o rastro da oportunidade de retornar ao Espírito, visto que o sentido da Matéria é servir ao Espírito. Tomamos aqui a escuridão como ignorância e através dela, sentindo que nossas pupilas buscam se nutrir de Luz, vagamos pelo campo da vida entendendo que o que clama em nossa Matéria pela Luz é o Espírito em nós que é parte do Uno e busca se reintegrar.

A consequência e o direito manifesto desta integração é o equilíbrio mencionado no versículo 0, que gera em nós a capacidade de dirigir as forças da Natureza.

2. Então, tu que tens provações e problemas, regozija-te por causa deles, pois neles há Força, e por sua via se abre um caminho para a Luz.

3. Como de outra forma, ó homem, cuja vida é apenas um dia na Eternidade, uma gota no Oceano do tempo; como, se tuas provações não fossem muitas, tu poderias purificar tua alma da impureza da terra?

É só agora que a Vida Superior é ameaçada por perigos e dificuldades; não tem sido sempre assim com os Sábios e Hierofantes do passado? Eles foram perseguidos e injuriados, eles foram atormentados pelos homens; no entanto através disso também aumentou sua Glória.

4. Portanto alegra-te, Ó Iniciado, pois quanto maior a tua prova, maior o teu Triunfo. Quando os homens te injuriarem, e falarem falsamente contra ti, não disse o Mestre: “Abençoado és tu!”?

Condicionar-se ao alinhamento com nossa Natureza Divina traz consigo a necessidade de rasgar de nós os véus que nos separam do Uno e este véu é constituído de todas as nossas conclusões construídas com o olhar do Aeon passado, que é o Aeon da escravidão de Osíris e nisto moram as provações, as palavras de desanimo, as injúrias e as mentiras, porém, aquele que usa este véu como rastro da direção correta, como aqueles que entendem que o sofrimento atrelado ao rasgar o véu é apego e este apego é justamente o que deve ser combatido, verão após o véu a oportunidade de manifestar suas Verdadeiras Vontades.

5. No entanto, ó aspirante, que as tuas vitórias não te tragam Vaidade, pois com o aumento do Conhecimento virá o aumento da Sabedoria. Aquele que conhece pouco, pensa que conhece muito; mas aquele que conhece muito aprendeu sobre sua própria ignorância. Vês um homem sábio em sua própria presunção? Há mais esperança em um tolo do que nele.

6. Não sejas precipitado em condenar os outros; como tu sabes que em seu lugar tu poderias ter resistido à tentação? E mesmo assim, por que tu deverias desprezar alguém que é mais fraco do que ti?

7. Portanto, tu que desejas Dons Mágicos, tenha certeza de que tua alma é firme e inabalável; pois é lisonjeando as tuas fraquezas que os Fracos ganharão poder sobre ti. Humilha-te diante do teu Self, mas não tema nem homem e nem espírito. Medo é o fracasso, e o precursor do fracasso: e coragem é o princípio da virtude.

Um dos deveres do adepto é não permitir-se ser tomado pela vaidade, porque a vaidade é para nós a falsa percepção de conclusão que torna toda e qualquer experiência reduzida à uma proporção maior ou menor do que é, mas nunca como é de fato, o que estimula em nós uma percepção iludida da realidade, da natureza e da Natureza Divina, seja a nossa que está no Uno como a do próprio Uno.

A vaidade enquanto percepção limitada, leva nosso olhar a ver as coisas ao nosso redor como desiguais e como separadas ou não participantes do Uno, e quando isso acontece, perdemos o rastro da Natureza Divina que há também no outro que julgamos carregar aquilo que não carregamos, quando poderíamos através desta percepção entender que há um momento para cada um. Pense inclusive que existe a possibilidade de aquele que observamos e julgamos menores que nós, guardam em si mesmos algo que poderíamos aprender.

Da mesma maneira que aprendemos a não definir nossa Deusa Nuit, pois defini-la, a encerra numa certeza precipitada, como diz no Liber AL vel Legis, capítulo I, versículo 27:

“Ó Nuit, contínua mulher do Céu, que seja assim sempre; que os homens não falem de Ti como Uma mas como Nenhuma; e que eles não falem de ti de todo, desde que tu és contínua!”

Em sequencia, vemos a auto-humilhação como instrumento e isto pode chocar muito, mas quando escolhe-se esta palavra, ela vem como um instrumento de percepção, não para nos diminuir em relação a outro ou à algo, mas para nos mostrar a igualdade que há entre aqueles que podemos vir a julgar ser menores que nós, pois se o outro é pequeno, você também é, pois no Liber AL vel Legis, capítulo I, versículo 3 diz:

“Todo homem e toda mulher é uma estrela.”

É necessário também dizer que a igualdade entre a humanidade e os espíritos é sobre o entendimento de que TODOS são parte do Uno, assim como todos habitam o corpo Estrelado de Nossa Senhora Nuit, mas não desconsidera a Hipóstase, que é o desígnio dos “níveis” ou “graus” ontológicos da realidade que emanam do Uno.

8. Portanto, não temas os Espíritos, mas seja firme e cortês com eles; pois tu não tens direito de desprezá-los ou ofendê-los; e isso também pode te desviar. Comanda-os e bana-os, amaldiçoa-os pelos Grandes Nomes se necessário for; mas não os zombes ou injuries, pois desta forma tu seguramente serás levado ao erro.

Aqui o adepto deve entender que temer, desprezar, ofender, zombar e injuriar os Espíritos, é um comportamento que desqualifica estes Espíritos como parte do Uno e este tipo de comportamento também desloca nossa percepção do Uno como se o mesmo fosse dividido e este é um apontamento que se contido, evita o desvio de nossa rota em direção à Verdadeira Vontade e nossa Natureza Divina. Da mesma maneira que agir com firmeza, cortesia e retidão aos preceitos dos rituais e tratativas, tende à nos alinhar ambientalmente e espiritualmente com a Nossa Natureza Divina, fazendo assim com que expressemos nossa Verdadeira Vontade.

  1. Um homem é o que ele faz de si mesmo dentro dos limites fixados pelo seu destino herdado; ele é uma parte da humanidade; suas ações afetam não só o que ele mesmo chama, mas também todo o universo.

A responsabilidade sobre si como caminho para a Verdadeira Vontade é fundamental, pois apesar da liberdade estimulada por Thelema parecer absoluta, ela é restrita em seu usufruto quando se manifesta através de nós, pois sua expressão esta condicionada às nossas capacidades físicas, ambientais, emocionais e espirituais quando se tratada da proporção de nossa proximidade com o Uno. Em nosso nascimento, recebemos a incumbência de manifestar nossa essência como parte fundamental da máquina do cosmos, pois somos parte da manifestação do mesmo, e não devemos esquecer que recebemos a liberdade do fazer, mas não a liberdade de escolher as consequências, pois nossa Vontade é a Vontade do Uno, e as consequências destas manifestações através de nós, fazem parte do eterno. Somente confundimos ser nossa a Vontade pois Ela usa o que é de nossa essência como linguagem e confundimos o que somos com a linguagem que construímos em nós. Por outro lado, escolhas que degradam o caminho que nos conecta à nossa Natureza Divina, tendem à postergar este alinhamento, o que também tarda a manifestação de nossa Verdadeira Vontade, que tarda assim a parte que nos cabe na Grande Obra.

  1. Venere, e não negligencie, o corpo físico, que é a tua conexão temporária com o mundo externo e material. Portanto, que o teu Equilíbrio mental esteja acima da perturbação por eventos materiais; fortalece e controle as paixões animais, discipline as emoções e a razão, nutre as Aspirações Superiores.

O corpo físico é essencial para o usufruto da vida espiritual, uma vez que nosso referencial de sensações parte do físico para o etérico. Também é o corpo físico que dentro de suas capacidades nos levará à cada ação de oportunidade para alcançar o estado de dignidade necessário com o alinhamento de nossa Natureza Divina, e não há como dizer isto sem mencionar que se faz necessário entender o que é limitação de nosso corpo físico e o que são argumentos contraintuitivos de nossas perturbações ambientais para nos desmotivar à cuidar de nossas Naturezas. Um exemplo de argumento contraintuitivo de nossas perturbações é, quando decidimos em algum momento da vida, mesmo sabendo que nossas vidas estão sob risco, tender a uma ação que pode nos levar à morte, considerando ainda que de maneira dolorosa, ceder à este vicio em nome de quaisquer impulsos apaixonados ou busca por sensações momentâneas e pueris, ou até mesmo o argumento da preguiça de levantar e fazer um exercício físico, cuja importância já se fez notada, escondido atrás de um “eu mereço”.

  1. Faze o bem aos outros apenas por fazer, não por recompensa, não pela gratidão deles, não por simpatia. Se tu és generoso, não desejarás que teus ouvidos sejam agraciados por expressões de gratidão.

O bem em Thelema é consequência do Uno, que através de nós, surge da Verdadeira Vontade, que estando ela alinhada à Natureza do Uno, se manifesta porque é, e não porque busca em quem vê Ser. Logo, aquele que necessita demonstrar sua Verdadeira Vontade é escravo da vaidade, e uma vez cativo da vaidade, encerra em si mesmo sua potencia, que é do Uno.

Saliento que, este versículo não é somente sobre “bem”, mas sobre não restringir a manifestação da Verdadeira Vontade como um todo, pois se teu ato é em grandiosidade, a manifestação do teu Ser, não há outro ato que caiba ser executado que este que é seu, mais que seu, é você. O grande mistério é observar o que fazemos e entender que não somos e agimos, somente somos, e é do ser e é o ser a ação, e isto é do Uno e o Uno.

  1. Lembre-te de que a força desequilibrada é maligna; que a severidade desequilibrada é apenas crueldade e opressão; mas também que a misericórdia desequilibrada é apenas fraqueza que permitiria e instigaria o Mal. Age apaixonadamente; pense racionalmente; sê Tu mesmo.
  1. Verdadeiro ritual é tanto ação quanto palavra; é Vontade.

Há outra maneira de iniciar este comentário senão mencionando o versículo 0 (zero) deste texto? Lembre-se que equilíbrio é a base do trabalho do adepto para observar a manifestação como é e não através de nossas faltas e excessos. Se o que somos em essência é parte do Uno, qualquer desequilíbrio nos apartará do estado de dignidade que advém do alinhamento com nossa Natureza Divina.

Se teu ato é de Vontade, e tua Vontade é a Vontade do Uno expressa através de você pelo teu alinhamento com a tua Natureza Divina, não só não havia outra escolha a se tomar, como tua escolha não é escolha, é apenas o Ser e este é harmônico e harmonioso.

  1. Lembre-te de que esta terra é apenas um átomo no universo, e que tu mesmo és apenas um átomo sobre a mesma, e que, mesmo que tu te tornastes o Deus desta terra sobre a qual tu te arrastas e rastejas, que tu serias, mesmo assim, apenas um átomo, e um dentre muitos.
  1. No entanto, tenha o maior auto respeito e, para esse fim, não peque contra ti mesmo. O pecado que é imperdoável é conscientemente e deliberadamente rejeitar a verdade, temer o conhecimento porque ele não gratifica os teus preconceitos.

Apesar do pensamento contemporâneo estimular que observemos os versículos acima sobre uma vã humildade, aqui temos o dever de buscar pelo entendimento de que ao olharmos para o outro ou ao nos olhar em relação ao outro, somos todos, independentemente da hipóstase, parte do Uno. Não se perca da Verdade que esta situação expõe, que é a parte de todos no Uno e que todos sendo parte do Uno, o valor atribuído a todos é o valor do Uno, pois a diferença que percebemos um do outro é sintoma de um movimento decrescente em direção à unidade. Nossa função é buscar o alinhamento com nossa Natureza Divina através de epistrophe, pois só assim nossa Verdadeira Vontade se manifesta.

  1. Para obter Poder Mágico, aprende a controlar o pensamento; admite apenas as ideias que estão em harmonia com o fim desejado, e não toda Ideia dispersa e contraditória que se apresenta.
  1. Pensamento fixo é um meio para um fim. Portanto, preste atenção ao poder do pensamento silencioso e da meditação. O ato material é apenas a expressão externa do teu pensamento, e por isso foi dito que “pensar tolice é pecado”. Pensamento é o início da ação, e se um pensamento casual pode produzir muito efeito, o que o pensamento fixo não pode fazer?
  1. Portanto, como já foi dito: Estabelece-te firmemente no equilíbrio das forças, no centro da Cruz dos Elementos, aquela Cruz de cujo centro a Palavra Criativa proferiu no nascimento do Universo alvorecendo.

A importância aqui demonstrada a respeito do cuidado com os pensamentos que nos visitam, pois é dos pensamentos que surgem nossas ações, apontam para a responsabilidade que temos com aquilo em que nos envolvemos e que nos estimulam a pensar, seja ambiente, pessoas e consumos num geral. Se nossos pensamentos fazem parte de nós, somos responsáveis por não nos tornar aquilo que consumimos, frequentamos ou estimulamos e que está em desacordo com nossa natureza Divina e que nos afasta do estado de dignidade. Também é necessário lembrar que hoje temos a consciência de que muito de nós, para não dizer “todos”, somos carregados de pensamentos traumatizados e até mesmo afetados por funcionamentos cerebrais que entram em desacordo com a qualidade de vida que buscamos vivenciar, então faz parte do pensamento atualizado sobre estes versículos, que também é parte de nosso caminho iniciático, se possível, buscar cuidados psicológicos e até mesmo psiquiátricos, lembrando é claro, de que até mesmo nossa alimentação afeta a forma como pensamos.

A expressão integral do Ser, o alinhamento do adepto com sua Natureza Divina, a Verdadeira Vontade… Seja o nome que quiser dar, se através de nós são pensamentos convertidos em ações, se demonstra fundamental o cuidado apropriado alinhado com a importância que damos à ação aqui mencionada de cumprir A Grande Obra.

  1. Portanto, sê rápido e ativo como os Silfos, mas evite frivolidades e caprichos; sê energético e forte como as Salamandras, mas evite irritabilidade e ferocidade; sê flexível e atento a imagens como as Ondinas, mas evite ociosidade e inconstância; sê laborioso e paciente como os Gnomos, mas evite a grosseria e a avareza.
  1. Assim gradualmente desenvolverás os poderes da tua alma e te tornarás apto a comandar os Espíritos dos elementos. Pois se convocasses os Gnomos para gratificar tua avareza, tu não mais os comandaria, mas eles te comandariam. Tu abusarias dos seres puros dos bosques e das montanhas para encher teus cofres e satisfazer tua fome de Ouro? Tu rebaixarias os Espíritos do Fogo Vivo para servir tua ira e ódio? Tu violarias a pureza das Almas das Águas para gratificar a tua luxúria de devassidão? Tu forçarias os Espíritos da Brisa da Noite a ministrar tua loucura e capricho? Saiba que com tais desejos tu só podes atrair o Fraco, não o Forte, e neste caso o Fraco terá poder sobre ti.

Ainda que estes versículos sejam extremamente explícitos no que tange a prática magicka e o comportamento do mago ao se envolver com seres espirituais de natureza elemental, este versículo vai além. O rastro instrutivo deste trecho clama pela atenção às influencias que recebemos, direta e indiretamente de tudo aquilo com o que interagimos, portanto, usando o exemplo acima, entendendo que rapidez, atividade, frivolidade e caprichos são características dos Silfos e desta interação podemos sofrer estas quatro influencias mencionadas, o dever implícito é que atentemo-nos às características e às influencias, e cuidar para não sofrer com aquilo que nos distancia do caminho do alinhamento com nossa Natureza Divina, e o mesmo serve para os exemplos dados no comentário do versículo anterior. Lembre-se, uma vez que você cede à todas as influências, o todo daquilo que te influencia te comenda na totalidade de sua Natureza Elemental.

  1. Não há seita na verdadeira religião, portanto, tome cuidado para que não blasfemes o nome pelo qual outro conhece seu Deus; pois se tu fazes isso em Júpiter, tu blasfemarás יהוה e em Osíris יהשוה . Pedi e vós tereis! Procurai e vós encontrareis! Batei e será aberto para vós!

Deve-se compreender aqui como colocação final do texto que, o dever último do adepto é a compreensão e o zelo quanto à desqualificação de uma divindade ou principio cósmico animado, pois uma vez que escarnece de uma divindade, escarnece de a toda hénade da qual ele faz parte, isto é, todo o princípio metafísico universal, uma vez que nesta hénade todos compartilham o reflexo estrutural causal do cosmos.

Conclusão

Diante disso, talvez seja prudente reconsiderar uma das interpretações mais difundidas acerca da Lei de Thelema: a de que a Verdadeira Vontade constitui uma liberdade irrestrita concedida indistintamente a todo indivíduo. Se assim fosse, não haveria necessidade de disciplina, de aperfeiçoamento, de iniciação ou mesmo da Grande Obra, pois bastaria desejar para realizar. Contudo, a própria tradição thelêmica parece apontar para direção diversa.

A Verdadeira Vontade não se apresenta como um privilégio desvinculado de responsabilidades, mas como um direito condicionado ao cumprimento de deveres. Somente aquele que ordena a si mesmo pode pretender ordenar sua vida segundo sua Natureza Divina. Somente aquele que vence seus excessos e suas faltas pode alcançar Sophrosyne perante o Uno. É na dignidade conquistada pelo cumprimento desses deveres que o Adepto gradualmente se torna apto a expressar aquilo que verdadeiramente é.

Assim, a pergunta talvez deixe de ser “como descubro minha Verdadeira Vontade?” para tornar-se “sou digno de vivê-la?”. Pois não parece razoável supor que uma Natureza Divina perfeita se manifeste plenamente em um ser cuja própria conduta permanece desordenada. A Lei não concede arbitrariamente o direito de realizar a Verdadeira Vontade; ela revela o caminho pelo qual esse direito é legitimamente conquistado.

Talvez resida aí uma das mais profundas exigências de Thelema: compreender que a liberdade não antecede a disciplina, mas nasce dela; que a Verdadeira Vontade não floresce onde há negligência para com os deveres, mas onde a dignidade foi edificada pela reta conduta. Somente então o Adepto deixa de perseguir a Verdadeira Vontade como um ideal distante e passa, finalmente, a vivê-la como expressão natural de sua própria Natureza.

Bibliografia

  • Dever — Aleister Crowley
  • Liber AL vel Legis — Aleister Crowley
  • Liber Libræ — Aleister Crowley
  • Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus — Aleister Crowley
  • Passando do Velho ao Novo Aeon — Frater Achad

메타데이터
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