A gente não quer só viver, a gente quer registrar (infelizmente)
Guardar na memória virou ato de resistência, quase um gesto de rebeldia. Se ninguém viu, será que aconteceu? Se não tem foto, valeu a pena?
A gente não quer só viver, a gente quer registrar (infelizmente)
A notícia da Juliana Marins — a brasileira que morreu na Indonésia durante uma expedição ao vulcão do Monte Rinjani — me pegou de um jeito difícil de explicar. Ela estava fazendo uma trilha, vivendo uma daquelas experiências que muita gente idealiza: natureza extrema, paisagens absurdas, adrenalina, superação. Andei lendo que o vulcão do Rinjani vem tendo erupções desde a Idade Média. Dos anos 2000 até hoje, foram quatro explosões: 2004, 2009, 2010, e a última, em 2016. A cratera principal tem cerca de 8 quilômetros de extensão.
Indo além de uma consternação genérica, não quero transformar Juliana em símbolo raso nem usar sua morte como isca para uma lição rápida. O que ela sofreu foi brutal, denso e doloroso, e também escancarou o que há de mais adoecido na relação da nossa geração com a experiência, o tempo e a performance da própria vida.
Juliana caiu. Não foi metáfora, não foi descuido, não foi falta de preparo. Ela caiu de verdade: do alto do Monte Rinjani, na Indonésia, a mais de 3 mil metros de altitude. Um tropeço, um desnível, um segundo, e seu corpo despencou centenas de metros encosta abaixo. Ela foi negligenciada pelas autoridades locais por dias — o que eles chamam de "desaparecimento", sendo que todos sabiam onde ela estava, inclusive mostrada por drones. Veio o suspense, depois a esperança, depois a revolta. O resgate falhou. A comunicação falhou. O respeito falhou. E, no fim, soubemos o que muita gente já temia: Juliana não resistiu às múltiplas quedas — se fora as quedas mesmo, como os médicos legistas locais alegaram; talvez para não ficar ruim para a demora do país no resgate, com essa possibilidade de hipotermia. A autópsia mostrou que ela não agonizou por dias, como se especulava. Não foi falta de comida, sede ou frio que a matou. Foi o impacto da queda. Mas o que me atravessa — e aqui não é sobre ela, é sobre nós — é o motivo de talvez ela estar naquele ponto exato, à beira do abismo, com o celular na mão. O guia da expedição disse que ela alegou cansaço e pediu para ficar para trás que os alcançaria após algum tempo. Ele, erroneamente, aceitou.
Juliana fazia uma trilha. Estava em busca da paisagem perfeita. E — como tantos de nós, geração nascida nos anos 90 — talvez também estivesse atrás do registro perfeito. A imagem da chegada. O vídeo da superação. A prova de que ela esteve lá, que venceu o cansaço, que foi maior que a montanha.
E é aqui que o abismo me engole. Porque eu também fui assim. E às vezes ainda sou. Lembro nitidamente da sensação de perder meu celular no meio da Parada LGBT de 2023. Estava no centro de São Paulo, no meio da multidão, e de repente… sumiu. Levaram, caiu, evaporou. Meu mundo ficou em silêncio. E não pelo medo de bloqueio de conta — mas porque eu não poderia mais mostrar que estive ali. Sem câmera, sem story, sem selfie de look. Sem postagem. Sem curtida. Sem lembrança?
Passei horas atordoado até perceber o óbvio: a única coisa que eu tinha perdido era o reflexo de mim mesmo. A vivência estava toda ali. A festa ainda acontecia. Eu respirava, sorria e dançava. E ninguém precisava ver para isso existir.
Foi aí que comprei uma mini câmera. Pequena, quase simbólica. Só para um clique… um só; um por evento! O resto fica no corpo. No cheiro do lugar. No riso dos outros. No que ninguém além de mim vai saber.
A morte da Juliana não é uma parábola, é uma tragédia, e reduzi-la à crítica sobre redes sociais seria desonesto. Mas negar que há algo de revelador nesse desejo de capturar o agora antes mesmo de habitá-lo seria covardia. Vivemos como se estivéssemos sendo assistidos o tempo todo, e quando não estamos, nos filmamos. Publicamos tudo: o primeiro gole, o passo final, a trilha, o pico, a borda. A experiência virou matéria-prima para narrativa, e o perigo virou moldura para conteúdo.
Juliana caiu. E talvez tenha caído tentando guardar algo. Não porque era imprudente — mas porque a gente aprendeu a existir só quando se prova.
Não quero também transformar a dor da família em análise sociológica, mas também não quero deixar passar o espelho que isso me ofereceu. Porque a pergunta que ficou ecoando na minha cabeça foi: por que eu preciso tanto registrar? E mais: o que estou perdendo enquanto tento não esquecer? Guardar na memória virou ato de resistência. Quase um gesto de rebeldia: "Se ninguém viu, será que aconteceu? Se não tem foto, valeu a pena?"
Juliana, você morreu longe de tudo, no alto do mundo. E a tua ausência hoje me faz querer viver mais perto. Mais perto do chão. Mais perto de mim. Mais longe da tela. Mais perto do que não precisa ser provado.
Não estou dizendo isso com dedo em riste, mas sim com o coração na mão. Juliana tinha 26 anos. Eu tenho 33. Somos da geração que cresceu ouvindo que precisava ser especial, documentar o especial, compartilhar o especial. Fomos os primeiros a entrar em rede social ainda adolescentes. Acreditamos — porque nos ensinaram — que registrar é quase tão importante quanto viver. Às vezes mais. E eu também fui assim. Até 2023. Depois que tudo passou senti uma paz estranha, inédita. Pela primeira vez eu poderia estar ali por completo, sem precisar performar aquilo para ninguém. Sem pensar em ângulo, filtro, iluminação. Só sentindo e estando; me pareceu um resgate.
Não sei se a Juliana pensou nisso no momento final; não sei se teve tempo. Mas ao observar as fotos e vídeos das aventuras em suas redes sociais eu posso acreditar que ela estava com o celular na mão. E eu me pergunto, com um nó na garganta, se essa mania de registrar tudo o tempo todo já não virou, ela mesma, uma espécie de armadilha. Um vício perigoso. Um desvio da vida.
Não é sobre romantizar o passado analógico ou demonizar a tecnologia. É só um apelo para que a gente volte a confiar na própria memória. A viver com mais presença e menos prova. Porque talvez o mais bonito mesmo seja o que ninguém vê, o que ninguém filma, o que ninguém curte. E que mesmo assim — ou justamente por isso — continua vivo dentro da gente.
메타데이터
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