Allan Kurdi
Íbis-eremita, a Síria é vento, Síria, vou por ti, a Síria é jasmim, a Síria é um mar.

Allan Kurdi
Íbis-eremita, a Síria é vento, Síria, vou por ti, a Síria é jasmim, a Síria é um mar.
Síria de gotas Rostos de águas Nação em sangue.
A Síria é silêncio Kobani gritando Kobani em sangue Kobani hoje é órfã Kobani o ser sitiado A Síria é a dor d’Ásia A Síria é canção triste Eu chorarei pipas sírias.
Lacrimejo pipas São as pipas dos olhos São as lágrimas pueris.
Eu chorarei luas sírias Kobani, choro sangue Kobani, choro poemas Kobani, eu vou te amar Kobani, o jasmim chora Kobani, o céu verte balas Síria, irei ao mar invisível…
Ó, Síria, és égide, povo leso, país lesado, nação errante, sírios penados, és ave retirante, és o íbis migrante, o pássaro migrador, sou o pássaro desertor!
Alan Kurdi Verso por ti Canto por ti Poeto por ti Choro por ti Poetizo por ti Prantos por ti Canção para ti É carta para ti É o teu poema É o teu poema lírico!
Puro sorrir Lírica para ti Cântico para ti Pintura para ti Serias o mundo Serias um futuro Lembranças de ti Serias um jardim Serias um castelo Serias tão valente!
Choro pipas A verter pipas A pintar as pipas.
É luz para ti, Paixão por ti Lirismo por ti É a lua para ti É o sol para ti É amor para ti É o vale para ti É o teu arvoredo É o bosque para ti É a tua montanha…
Pipas sírias Não são inocentes São os drones mortíferos!
É um hino para ti É a tua forte ponte É o teu lago d’amor É o teu mar d’água É o teu porto seguro Os teus olhos lindos São as tuas lágrimas Não serás o passado Serás poema cravejado É o teu espírito constelado.
É a tua lírica alma É a tua flor poética É a tua alma de sol É a tua alma cantada É o épico sentimento É o teu teatro verídico É o teu drama da Síria São os atos que sangram É a tua peça inesquecível Foste o diretor da tua arte.
O teu barco frágil Teu mar tão bravo A tua dura partida É a tua sofrida vida Teu povo resignado É a tua nação sitiada É a tua alma nômade É o teu país transeunte A sentida alma dos doentes É o teu caderno ainda aberto.
E ainda é… Amor para ti Pensar em ti Lembrar de ti!
Pipas órfãs Pipas árabes Pipas sitiadas!
Ver o teu sorriso Ver os teus olhos Ver o teu destino É o desejo para ti É a alegria para ti E ver a tua família Ver flores dormidas!
Ó, pequena estrela, a praia é o teu berço, o mar é o teu ninho, o oceano é todo teu, tu ainda estás aqui, sei que vives ainda, dormes em paredes, és pintado nos muros, és esculpido nas praias, ainda pousas em almas!
Íbis-eremita… Eis o prólogo É o teu epílio És obra solar És uma ópera És uma alegoria És a ida à escola És alma alegórica És a flor abrindo-se És outra germinação És o coração romântico.
És o salsifré sírio És a largada síria És alfarrábio sírio És separação síria És exoneração síria És a viagem da Síria És a resignação síria És o apogeu do êxodo És a despedida à força És um sarau que chora.
Meu siríaco Choro e poeto Choro e te vejo Choro e te sinto Choro e te pinto Choro e te clamo Choro e te chamo Choro e contigo voo Choro e contigo amo Choro e contigo nado.
Ó, MMXII, Kobani chora, está sem vinho, e não há o trigo, falta-nos a água, a alma deslavada, não és um herói, és o ser obnóxio, estripas os sírios, tu soterras a Síria! Ó, ilhada Kobani, diz quem te ilhas? E quem te isolas? Insularei tua dor, ó, insulano país, ó, islenha nação, és ilhéu forçado, ó, isleno coração, a Síria é uma ilha, ó, ilheta esquecida, ó, ilhota despejada.
Ó, ilhoa Síria, insulada alma, coração semoto, feições cerradas, olhar sonolento, altibaixos sírios, o revés da Síria, a lágrima do Islã, ó, azan, peço luz, apaga os mísseis!
Ó, flor da Síria, vou florir no céu, vou ver o meu sol, vou ver as nuvens, vou ver as estrelas, vou ver os pássaros, vou ver a minha lua, vou ver outros seres, eu vou ver os cometas, e eu vou ver as auroras.
País amuado, flagelada Síria, torturada Síria, ó, pele punitiva, ó, pele queimada, ó, pele pungitiva, ó, castigada Síria, ó, marfada nação, ó, Síria malferida, ó, os sírios são punidos.
Estado Islâmico, és o triste limbo, és hostil soldado, és o fim do amor, só és a desolação, és a vil destruição, e a síria é retalhos, os sírios são avarias, EI, és tu menoscabo, és o afligimento sírio!
Rio Eufrates, beberás a injúria? Beberás a injustiça, beberás o detrimento? Beberás a tribulação, beberás a grande luta? Beberás o báratro, beberás o infortúnio? Beberás o longo penar, beberás a guerra Síria?
Meu íbis-eremita, meu pássaro sírio, minhas asas fortes!
Ó, minha Kobani, vês a bomba caída? Ela levou os sírios… ó, bomba mortífera, por que levas a Síria? Há bombas ocultas, há bombas inimigas, ouve lagrimante país, é o poema dos sírios, flente hinário à guerra!
Ó, Kobani, a avó sem véu, é a mãe sem flor, é o pai sem cifrão, é a alma sem voz, a rua sem calçada, o aluno sem lápis, o avô sem chapéu, o rosto sem brilho, o estudante despido!
O coração da Síria Ó, notívago sofrimento É a triste Síria destelhada Estou a destelhar a sua alma E eu esmondo as suas torções Estou a alijar as suas lágrimas.
Ó, Kobani, a luz glacial, a mesa vazia, o alvor sem pão, manhã de faúlhas, e são gotas cálidas, o poema afogueado, as lágrimas ardentes, é a nossa ardida lírica, o nosso canto sufocado!
E eu serei a tua memória Eu te darei as minhas veias Síria, te darei o meu sorriso Síria, serei o teu íbis mártir.
Ó, Kobani, o céu sem sol, a sala sem teto, o maestro triste, o recreio sem pão, os buracos no alto, a escola sem lousa, o colégio sem água, é o colégio de chuva, e ainda chora a escola!
Ó, Kobani, é seca guerra, é a acídia guerra, é a apática guerra, é a regelada guerra, a solidificada guerra, é a marmórea guerra, é a impiedosa guerra, é esta letárgica guerra, é a nossa frígida guerra!
Ó, Kobani, incerta vida, dúbio futuro, vazio destino, vago caminho, passo ambíguo, andar hesitante, o falar dormente, o pensar inseguro, o meu acaso precário!
Ó, Kobani, olhar ignaro, olhar ilegível, olhar apagado, olhar desbotado, o olhar esvaecido, o olhar descorado, o olhar obscurecido, o meu olhar insipiente, é o meu olhar ofuscado!
Ó, Kobani, o rosto lasso, o rosto frágil, o rosto aluído, é o rosto pálido, o rosto enfadado, o rosto macilento, é o rosto apagado, é o rosto emaciado, é o meu rosto sumido!
Doce Kobani São vãs mãos São cavas mãos são nulas mãos São calosas mãos São aferidas mãos São curtidas mãos São mofinas mãos São mirradas mãos São calejadas mãos São indefesas mãos São delgadas mãos São inválidas mãos São frangíveis mãos São vermelhas mãos E são as filadas mãos São minguadas mãos São vulneráveis mãos São quebradiças mãos São alquebradas mãos.
Kobani Sou o léu Sou o ócio Sou o motim.
Íbis-eremita Sou o tropel Sou o rebuliço Sou a algazarra.
Síria Minha Sou eu o fel Sou o desazo Sou a ignávia.
Falcão Sírio Sou a pressa Sou a assuada Sou a pachorra.
Meus Sírios Sou o lâmpão Sou a lentidão Eu sou a guerra!
Rio Eufrates Sou o meu afã Sou a lufa-lufa Sou a balbúrdia.
Bela Kobani És frio aljube És uma gaiola És um cárcere És uma prisão És penosa cela És uma caverna És as masmorras És um antro de dó És um vil ergástulo.
Islâmico d’abjeção É vilipêndio coração És rosto vilipendioso És espírito fementido E a Síria é a nostalgia E a Síria é acerbidade Os sírios são carências E os sírios são agruras A Síria é pura angústia E os sírios são os êxodos!
Kobanî, MMXII… Os ataúdes choram E o céu flamejando Minh’alma a poetizar É um poema aviltante É um punhado de terra É o nascimento da Síria Vou lançá-lo ao ar do céu Será a lágrima do solo sírio Será o egresso dos filhos sírios!
Ó, terra minha, mãe minha, desvanecerei por tua honra, desabrocharei numa nuvem, e fulgurarei como as estrelas, e descansarei na orla da praia.
Ó, nação minha, ó, país meu, não te esqueças desta tua pipa, vê o céu… sou todas as pipas sírias, Síria, não te olvides que eu te amo… Síria, não te esqueças que fui por ti!
Ó, Síria, e flores do sol no chão, iluminam os caimentos… são as flores amareladas!
Ó, Síria, e oram as almádenas, e essas flores são os sóis, os minaretes são os faróis.
Ó, Síria, o chão é buraco, as mesquitas gritam, os pássaros alvos correm.
A cidade sitiada A assediada alma Esmiúço os teus olhos Eu abro as tuas janelas Escavo os teus soçobros Se já não tens indumentos E a minha lírica é o teu sorriso O meu poema veste a tua alma E a minha poesia é a tua coluna E já não deitam todos os prédios.
Pássaro alforriado Já sou uma caravana Larguei o meu eremitério E torno-me num volantim Sou o caminhante solitário O aburrido beduíno forçado Pousarei nesta areia molhada Eu tenho um pugilo de cereais Eu era um edaz d’algodão doce Sou o polífago de grãos de areia.
Deixei o meu jardim… meus amigos dormem! Deixei o meu poema… agora jaz sob as ruínas! Deixei a minha família… são as minhas poesias! Os poéticos sob os restos… os meus familiares jazem! Destruição da egolatria… aniquilação pelo petróleo!
Casas que caem Paredes de vento Castelos de cartas São aviões de papel Concretos de açúcar Prédios de celuloses São os tijolos d’água Portas feitas de gesso São as janelas de cristais É a minha cidade diluída.
Ó, vendedor de doces, adoças a nossa cidade… os risos sírios açucarados! Ó, vendedor de jasmim, és tu a flor síria da alma… são os teus cândidos olhos! Ó, vendedor de tapetes, tens algum que leve asas? Ó, Dice vendedor de peras, e eu já não sei como sabes!
Traz-me os pais Traz-me os pães Traz-me as mães Traz-me as frutas Traz-me a manhã Traz-me os anciões Traz-me os bandos Traz-me os rapazes Traz-me as meninas Traz-me os sírios meus!
Canhão triturado São as armas moídas Os betões compressos Concretos comprimidos.
Minha Síria, meu povo, ó, doce cidade desfolhada, ó, rija nação desarroupada, ó, nossas crianças inocentes, ó, os nossos irmãos agravados, ó, a nossa Síria em fragmentos… ó, o meu poema ensanguentado!
Sobejam pós Restam muros Sobram paredes E efundem balas E abundam vigas E alagam projéteis E porejam os sírios E marejam os mísseis E ainda dessora a Síria E difluem as suas veias!
Sinfônico Íbis, a valência síria, o pássaro tenaz… ó, ave alentada! Amor d’animato, a alforria no vento, é a libertação do ar! Salva-nos da aflição, resgata-nos d’insídia, ó, íbis, dá-nos o amor!
Kobanî, MMXII… É paz a sua alma O sol recém-nascido.
Sorrirás primaveras Colherás folhas d’outono E amarás o griso inverno E o verão será a tua estrela.
Serás cântico otonal Serás o florido bucólico Serás o farol do universo Serás as penas das árvores.
Serás o encarnado amor Serás celeste como o mar Serás um belo vaga-lume À força serás um soldado Serás um herói inesquecível Serás o meu poema lírico sírio!
Um íbis sob a guerra, seu coração já foi armado! O suspiro da primeira nota, e os gritos ecoam a sua luta!
Combatente inocente, és o meu pássaro sírio! Amas o teu ursinho, sorris ao teu amiguinho… és o ursinho de plumas, E brilhas florescido ao mundo!
Sobrevoarás com os pássaros, conhecerás o mundo do alto! Tênue íbis efêmero imigrante, serás o inesquecível pássaro!
Ânsia síria Estirpe do solo O dono do reino O fruto do ganho A nossa celsitude O imperador sírio O doce laurel sírio A pipa síria do céu O aplauso vitorioso O nadir dos sonhos!
Serás o madrigal Serás o meu saloio Serás o meu pastor Serás o meu campo Serás o meu aldeão Serás meu campeiro Serás o meu labrego Serás meu campônio Serás meu camponês Serás a lembrança síria!
Mãe sem filho De braços vazios Foi-se a sua águia Desabitado coração Chora madre vagante Não te tornes naufrágio Entrega os teus riachos Guarda o seu puro olhar Desalaga a tua saudade E extingue o teu revés!
Franco-atirador Amputaste uma pena Mataste uma asa frágil Levaste o evolutivo caule Ele é uma árvore amputada Está chorando folhas mortas Ele iria erguer a enferma Síria És o insensível homem impudico És o coração abstruso do rechego E os teus obscuros olhos são ignotos!
Menino caído Serás alacridade Serás letífico amor Serás lesto pássaro Serás a minha festa Serás o brioso verão Serás a minha canção Serás revoada de águias Serás a nova pele da Síria Serás intrépido n’outra pele.
Pai sem filho, ó, ócio d’alma, ó, falta d’amor, ó, luz apagada, ó, maçante penar, ó, arraigado pesar, ó, voltívolo coração, ó, incôndito mundo, e chora atônito padre… o teu coração é aturdido!
Choro pipas Choro os pássaros Choro todas as árvores
Íbis-eremita, o mar estará bravo? O mar não me levará…?
Choro de manhã Os mísseis ferem A guerra sem conclusão!
Íbis-eremita, Terei novas pipas? O outro Mar Mediterrâneo é feliz?
Choro pipas Não ter mais a Síria Não ver os meus pássaros!
Sobrevoarás com os pássaros, conhecerás o mundo do alto! Tênue íbis efêmero imigrante, serás o inesquecível pássaro!
Ânsia síria Estirpe do solo O dono do reino O fruto do ganho A nossa celsitude O imperador sírio O doce laurel sírio A pipa síria do céu O aplauso vitorioso O nadir dos sonhos!
Serás o madrigal Serás o meu saloio Serás o meu pastor Serás o meu campo Serás o meu aldeão Serás meu campeiro Serás o meu labrego Serás meu campônio Serás meu camponês Serás a lembrança síria!
Mãe sem filho De braços vazios Foi-se a sua águia Desabitado coração Chora madre vagante Não te tornes naufrágio Entrega os teus riachos Guarda o seu puro olhar Desalaga a tua saudade E extingue o teu revés!
Franco-atirador Amputaste uma pena Mataste uma asa frágil Levaste o evolutivo caule Ele é uma árvore amputada Está chorando folhas mortas Ele iria erguer a enferma Síria És o insensível homem impudico És o coração abstruso do rechego E os teus obscuros olhos são ignotos!
Menino caído Serás alacridade Serás letífico amor Serás lesto pássaro Serás a minha festa Serás o brioso verão Serás a minha canção Serás revoada de águias Serás a nova pele da Síria Serás intrépido n’outra pele.
Pai sem filho, ó, ócio d’alma, ó, falta d’amor, ó, luz apagada, ó, maçante penar, ó, arraigado pesar, ó, voltívolo coração, ó, incôndito mundo, e chora atônito padre… o teu coração é aturdido!
Choro pipas Choro os pássaros Choro todas as árvores
Íbis-eremita, o mar estará bravo? O mar não me levará…?
Choro de manhã Os mísseis ferem A guerra sem conclusão!
Íbis-eremita, Terei novas pipas? O outro Mar Mediterrâneo é feliz?
Choro pipas Não ter mais a Síria Não ver os meus pássaros!
Íbis-eremita, Lá poderei ser uma pipa? Lá serei as pipas livres do céu?
Síria minha, adeus, voltarei…? Espera por mim… quem sabe regresso!
Choro pipas Já no meu bote de borracha O mar ainda está silencioso!
Íbis-eremita, dissipa as nuvens, quero ver a luz do sol!
Choro pipas Indo o barco da diáspora Indo o barco da fria guerra!
Íbis-eremita, o sol é uma bola alegre? O sol é um pássaro estrelar?
Choro pipas A noite é nua e singela Sou o filho despido dos sírios.
Íbis-eremita, o sol nascerá na Síria? A lua ainda brilha aos sírios?
Choro pipas O mar é bravo As ondas bailam!
Íbis-eremita, alaridos no barco frágil, os sírios gritando e choram!
Chopo pipas Não verei novas pipas Não aprenderei a fazer pipas!
Íbis-eremita, tenho medo, pavor e pânico, o bote encharcado d’água do mar…
Grito pipas Será aqui o meu berço eterno? Aqui não mais verei os mísseis da Síria?
Íbis-eremita, sírios caem ao mar… Galip, agora é estrela do mar…
Choro pipas Meu irmão a brilhar no mar É uma estrela marítima do Mediterrâneo.
Íbis-eremita, os sírios jazem no mar os gritos dos pássaros sírios.
Choro pipas Minha mãe já se foi longe… Deixou comigo a sua lágrima!
Íbis-eremita, Não suportarei mais… a água já vem ao meu encontro…
Choro sal Bebo d’água do mar Lágrimas do Mediterrâneo!
Adeus papai, és o meu sol maior, o meu íbis-eremita da Síria!
Estou n’água do mar As ondas me levam docemente Na areia da praia terei um berço seguro.
Policial do mar, toma o meu corpo, sou uma estrela naufragada, uma pipa síria que buscava refúgio no outro mar!
Pai, não chores… agora somos estrelas do céu!
Íbis-eremita, foste o meu guardião, sou agora outra estrela do céu!
Para a estrela que foi do mar e agora é do céu
Ilhabela, São Paulo 2017
Hovy
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