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Sobre perder o controle

Eu bati o carro há um mês, mais ou menos. Estava voltando pra casa debaixo da chuva, andando rápido, apenas um pouco alterada, quando perdi…

Anne · 2017-11-17 17:39 · 11 claps · 4.0 min read
#amor #relacionamentos #paixão #sentimentos #escolhas
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Sobre perder o controle

Eu bati o carro há um mês, mais ou menos. Estava voltando pra casa debaixo da chuva, andando rápido, apenas um pouco alterada, quando perdi o controle e aquaplanei na Av. Constantino Nery, consequentemente dando uma beijoca no meio da bunda do carro de um rapaz. Carro este recém tirado da concessionária, me disse o homem quase chorando ao ver o estrago que eu tenho feito.

Coitado. Fiquei com pena. Só não fiquei com mais pena porque eu tive que pagar o conserto do meu carro e do dele também.

Há umas semanas, eu finalmente peguei o meu carro da assistência e fiquei pensando sobre a sensação de perder o controle. Apesar de não ter gostado da parte de bater, a sensação de não ser eu guiando o carro, de que eu não tinha nenhum controle naqueles segundos, de que estava sendo comandada por algo que não era eu foi... de paz.

Não é nada a ver com um desejo latente de morte, mas simplesmente porque não ter o controle me dá uma sensação de tranquilidade. Acho que dá para todos nós. Não é necessário pensar, não há opção, decisão, você tem que simplesmente ir com o flow, com o fluxo. Ser "destinada" a fazer algo é uma sensação maravilhosa, pra mim. Num mundo onde temos que decidir todos os dias se vamos pela Djalma ou Constantino, ao ponto ou bem passado, fazer A ou B, ter uma mão invisível simplesmente me guiando ao inexorável destino reservado pra mim é uma coisa boa, às vezes. Maktub. Está escrito.

Talvez seja por isso que eu gosto tanto de me apaixonar.

A sensação de se apaixonar me lembra muito a perda do controle. É como quando você está em uma montanha-russa, vendo uma vertiginosa descida em 90 graus se aproximar vagarosamente e você sabe que não há saída. Apesar do medo, o melhor é simplesmente se entregar e aproveitar o passeio. A outra opção é fechar os olhos e sentir aquele frio na barriga, mas sem ver como a cidade é bonita dalí de cima, sem sorrir ao sentir o vento batendo com força no rosto. Você passa pela experiência, mas com aquele gosto azedo na boca. Se era pra não curtir, o melhor era nem ter ido.

A dinâmica do início do amor é curiosa. Você inicialmente só vê um ser humano como todos os outros. De repente, você olha para uma pessoa e ela tem outro sabor, outra cor, outro cheiro. Fazê-la sorrir é um prazer a mais, tocar nela é mais do que um querer, é uma necessidade. Parece que tudo nela foi feito especificamente pra você. Tudo que você está fazendo é para estar com ela.

Como é gostosa essa sensação!

Como é bom encontrar alguém que consegue te fazer sorrir simplesmente por existir. Com quem você pode fazer nada, seja passar o dia deitado na cama ou uns minutos vendo o pôr-do-sol e sentir que aquele tempo valeu à pena. Alguém com quem você sente que pode conversar sobre tudo e se sentir compreendido. Um igual. Um par.

Só que… pra você sentir a reciprocidade da paixão, tem que fazer uma coisa muito difícil pra muita gente: perder o controle. Se apaixonar envolve muito de destino, mas também a vontade das partes de mostrarem suas vulnerabilidades para criarem intimidade. A paixão tem muito de ver a verdadeira face do outro, ver quem o outro é quando não tem ninguém olhando.

O problema é que todo mundo tem medo de mostrar a sua vulnerabilidade. Mostrar uma parte tão particular sua dá ao outro um certo poder sobre você, uma forma de te machucar. Ninguém quer ser machucado, especialmente por quem a gente ama.

Um dia desses estava falando com um amigo sobre problemas do coração e ele me mandou esse print aí. Nós dois tínhamos tomado pés na bunda por demonstrar que estávamos apaixonados cedo demais. Os outros se amedrontaram e correram para as montanhas quando nós dois mostramos que temos um coração.

O questionamento que ele me fez me marcou tanto que foi o que de fato me motivou a escrever esse texto. Será que vale a pena retardar o gosto do amor só por medo de receber um “não” na cara?

Quanto mais eu penso, mais percebo que, apesar de estar apaixonada por outra pessoa, me declaro por mim. Porque eu gosto que o outro saiba dos meus sentimentos, porque assim eu os sinto mais completos. Perder o controle quando eu me apaixono me faz feliz.

Apesar de se apaixonar não ser uma escolha, demonstrar o que a gente sente o é e eu sempre escolho me abrir a quem vejo como par. Vai que a pessoa que o destino designou para eu dar meu coração também vai querer perder o controle e cair de amores comigo.

Afinal…


메타데이터
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