Alecrim
Parte da manhã de domingo, passei cuidando da “selva particular” que cultivo na varanda. Do cuidado com os vasos aos devaneios, foi um…
Alecrim

Parte da manhã de domingo, passei cuidando da “selva particular” que cultivo na varanda. Do cuidado com os vasos aos devaneios, foi um pulo. Fui direto a um dos acontecimentos mais marcantes de um período muito doloroso de minha vida recente: o dia em que, na iminência da partida de minha mãe, abracei meu pai e disse a ele, pela primeira vez, o quanto o amava. Naquele momento, senti muito pelo fato de minha mãe não estar ali para que eu pudesse dizer o mesmo a ela. Fiquei um bom tempo escavando, adubando, aguando e repassando as várias cenas daqueles dias em que minha mãe esteve na UTI até o dia da sua despedida. Sob lágrimas e em voz alta, falei novamente ao meu pai, agora com minha mãe ao seu lado, do amor infinito que me une a eles.
No fim da tarde, passado o turbilhão emocional, ainda sob a força da energia amorosa partilhada, bem mais leve e tranquila, contemplava orgulhosa as plantas que receberam meus cuidados. Senti o aroma forte do alecrim e me veio a lembrança de que este sábio arbusto trabalha as memórias, libera traumas e abre espaço para que o novo entre em nossas vidas. Só então fui compreender que era ele, o rosmarinus officinalis, o orvalho do mar, o responsável por aquelas lágrimas, por revolver minhas memórias, por drenar lembranças, fazer brotar o amor e me dar permissão para recontar esta história. Receba meus agradecimentos, Senhor Alecrim.
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