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O mundo na sanfona de Sivuca

A década de 1930 trazia imensa transformações sociais, econômicas e políticas para o mundo inteiro. Na Itália e na Alemanha, o…

Italosochin · 2020-07-15 02:47 · 2 claps · 5.2 min read
#cultura #mpb #acordeon #paraiba #sanfona
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O mundo na sanfona de Sivuca

A década de 1930 trazia imensa transformações sociais, econômicas e políticas para o mundo inteiro. Na Itália e na Alemanha, o nazi-fascismo ganhava forma, o capitalismo industrial entrava em sua primeira grande crise um ano antes, o leste europeu acenava para o mundo a primeira possibilidade de uma sociedade pós capitalista. No Brasil, Getúlio Vargas chegava ao poder depois de intensas mobilizações e guerras civis através do movimento tenentista, enquanto na Paraíba, o estado sofria em uma espécie de luto coletivo a morte de João Pessoa… Entretanto, nos confins do interior do estado, nascia um albino que iria redimensionar o papel da música nordestina brasileira no mundo.

Sivuca nasce na cidade de Itabaiana em 26 de maio de 1930, vem de uma família de sapateiros e descobre seu amor pela música desde cedo. O apelido de Sivuca vem de um nome que é muito comum na Paraíba e no Nordeste em geral — Severino. Em entrevistas, falava que aos oito anos de idade se apaixonou pelo órgão da igreja na qual frequentava e desde este momento sabia que o seu destino era a música. Aos nove anos de idade, o pequeno Severino ganha da sua família uma sanfona de oito baixos. Sendo sua origem de trabalhadores, Sivuca não teve a chance de estudar música em uma instituição desde pequeno, apesar de se perceber desde sua infância sua habilidade para música. Ele costumava dizer que gostava de ir pro cinema — não para assistir os filmes, e sim para decorar as canções para poder tocar.

No mesmo ano em que ganhou sua sanfona, Sivuca já tocava em festas de casamento, batizados e chegou até a tocar em circo. Aos quinze anos, era evidente a sua inclinação pra música. Logo, decide se mudar para Recife (o principal cenário cultural da região) e lá faz algumas apresentações, onde chama a atenção do diretor artístico da Rádio Clube. Ficou cerca de três anos tocando para a Rádio Clube do Recife — é interessante que neste período ele desenvolve a melodia de uma valsa que, cerca de 30 anos depois, será batizada por Chico Buarque como “João e Maria”. Um outro ponto importante é que Sivuca foi um dos primeiros artistas a serem disputados publicamente por uma rádio. O ano de 1948 marca sua transferência para a Rádio do Comércio. O motivo? Sivuca teve a pretensão de aprender teoria musical com o diretor da Rádio Comercio daquele período, que era Guerra Peixe.

No rádio Jornal do Comércio, ele participa da composição de trilhas sonoras para novelas e é nesta rádio que ele recebe o convite de Carmélia Alves para se mudar pra São Paulo. Em 1951, se muda para São Paulo e lá produz seu primeiro disco interpretando Carioquinha do Flamengo. No mesmo ano, Sivuca lança seu primeiro sucesso de ordem nacional, a belíssima canção; “Adeus Maria Fulô”. O paraibano passa cerca de quatro anos no estado de São Paulo até se transferir para o Rio de Janeiro, onde trabalha até 1959, quando é demitido da rádio por participar de uma greve de músicos. Acho importante salientar isso pra mostrar o comprometimento deste multi-instrumentista com os que vêm de baixo — pois também é de onde veio –, além de nos situar dentro da história, o final da década de 50 é de constante mobilização da classe trabalhadora no país.

Entre 1955 e 1959, Sivuca participa de duas turnês com grupos brasileiros na Europa, é na segunda turnê que ele decide não voltar para o Brasil e continua na Europa. Por mais de 15 anos, o músico trabalhou e morou em diversos países: França, Portugal e Estados Unidos. Por terras europeias, participou de muitos programas de televisão, tocou em muitos festivais e em 1962, chegou a ser considerado pela imprensa parisiense como o melhor instrumentista do ano. Depois deste hiato fora do país, Sivuca decide retornar ao recife em 1964, mas com a instauração do golpe militar no mesmo ano, ele decide ir para os Estados Unidos.

A maior contribuição de Sivuca para a música brasileira se dá na versatilidade com que o músico tocava o acordeom. Enquanto que Luiz Gonzaga é o responsável por colocar o forró e o baião na ordem do dia da indústria fonográfica, Sivuca é o responsável por ampliar e colocar o acordeom não apenas no terreiro de forró, mas também nos grandes concertos de bossa nova e jazz que existiam no mundo. Apesar de o acordeom estar fixado nas rodas de coco que aconteciam na Paraíba, Sivuca é o responsável por juntar esse chão comum do acordeom com a música clássica, jazz, chorinho e bossa nova.

O feito de Sivuca foi tão grande e repercutiu tanto no mundo da música que existem relatos de um telegrama que Miles Davis (um dos maiores músicos do jazz de todos os tempos) agradece a Sivuca por ter o feito fazer as pazes com o instrumento.

O período de 1965 até 1969 colocou o mestre Sivuca em um outro patamar na música mundial, isto porque ele participou da criação de arranjos e da gravação de grandes sucessos daquele período, entre eles a canção Pata-Pata da cantora sul-africana Miriam Makeba, cantora essa que se caracterizava por seu forte ativismo contra o apartheid sul-africano. Além de participar da gravação do disco de Makeba, Sivuca em 1971 também se envolve na construção de arranjos para musicais e especiais para televisão estadunidense. Quatro anos depois, Sivuca se casa com Glorinha Gadelha, dupla que vai marcar muito a música popular brasileira, principalmente por conta da música “Feira de Mangaio”, que ficou eternizada na voz de Clara Nunes. Ainda em 1975, ele participa do disco de Paul Simon, cantor norte-americano que é um dos principais nomes do Folk.

A sua parceria de vida e de música com Glorinha Gadelha teve um momento único que foi a composição de Feira de Mangaio. A música foi composta em Nova Iorque, em um dia de forte chuva. Sivuca relata que sentia muita saudade da sua terra natal, sentia saudades das feiras do interior, do contato e da conversa do povo nordestino — e é desta saudade que sai uma das maiores canções da música popular brasileira. E como não senti-la, escutando o choro do acordeom em conjunto com a voz de Clara Nunes, ao cantar “pavio de candeeiro, panela de barro; menino eu vou me embora tenho que voltar”?

Sivuca era um inconformado e sua inconformidade o fez ampliar o seu instrumento de paixão. O acordeom que era utilizado para tocar o baião, também passou a ser utilizado para tocar música clássica, sendo ele o responsável por construir partituras do Bach para a sanfona. Ele era tão inconformado que decide participar das lutas por garantias para os músicos, que são trabalhadores como todos os outros trabalhadores. A sua inconformidade era tão grande que não suportou ver sua terra sendo usurpada por militares. A sua inconformidade tinha uma relação direta com sua terra — paraibano, Severino foi um dos maiores nomes da música brasileira e eternizou-se no planeta da música diminuindo fronteiras e aproximando estilos musicais.


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